Vídeo da semana – Die Antwoord, “Fok Julle Naaiers”

Cena do vídeo Fok Julle Naaiers, do Die Antwoord

Cena do vídeo da música Fok Julle Naaiers, do Die Antwoord: o que é o belo?

“O que é o belo?” Essa parece ser a pergunta que brota no cérebro de quem assiste ao último vídeo (lançado no final de 2011) do grupo sul africano de hip hop Die Antwoord. A trupe, comandada pelo ameaçador vocalista Ninja (persona musical de Watkin Tudor Jones) e pela estranha e sedutora Yo-Landi Vi$$er (Yolandi Visser), usa e abusa da estética zef (palavra derivada do africâner), que significa algo como “pobre, mas sexy ou estiloso”, e no clipe de “Fok Julle Naaiers” (Fuck All You Fuckers, em inglês) isso é levado às últimas consequências, com uma pitada dark.

Enquanto Vi$$er e Ninja enchem a boca para xingar a tudo e a todos com uma rima cheia de “trrrrr’s” por conta do sotaque, somos brindados com imagens sombrias em preto e branco – em sua maioria close-ups repletos de detalhes incômodos de pessoas que passam longe do padrão de beleza imposto pela indústria cultural. Some-se a isso a aflição de ver as tatuagens mal feitas e o cavanhaque bizarro de Ninja muito mais de perto do que qualquer um gostaria e Vi$$er coberta de mariposas e borboletas (até mesmo na boca e nos olhos), além do final medonho (MC Rascunho do Mapa do Inferno?) e tem-se um clássico instantâneo. Tão feio-estilizado (zef, afinal) que fica lindo e hipnotizante.

Não era de se esperar menos, afinal, desde isso aqui (meio que um manifesto filmado do tal do zef), cada lançamento do Die Antwoord promete nos deixar alegremente atônitos. Mal posso esperar pelos próximos.

FOK JULLE NAAIERS from Die Antwoord on Vimeo.

Arqueologia sonora – Clarence Carter

Clarence Carter: não tão famoso quanto Stevie Wonder ou Ray Charles

Clarence Carter: não tão famoso quanto Stevie Wonder ou Ray Charles

Falei do Clarence Carter outro dia e deu vontade de continuar. Afinal, o cara faz parte do seleto grupo de músico negros norte-americanos que, apesar da cegueira (de nascença, no caso dele) conseguiu trilhar uma brilhante carreira. Assim como Ray Charles e Stevie Wonder – mas bem menos famoso que os dois – Carter produziu muito soul bom de ouvir. Não dá pra dizer que o cara revolucionou a música, mas ele definitivamente criou alguns clássicos do gênero. Como muitos artistas dessa seara, Carter, que nasceu no Alabama em 1936,  sofreu amargamente com a chegada da disco nos anos 1970 e posteriormente o pop sintetizado dos anos 1980. O músico chegou inclusive a dar uma baita guinada em seu estilo, numa tentativa de soar mais contemporâneo, sofrendo bastante influência oitentista, mas com resultados mais curiosos do que efetivamente bacanas (veja o último vídeo). Está vivo até hoje, mas já não produz. Fica aqui mais uma contribuição ao seu legado.


Só uma observação: saber que Carter é cego de nascença aumenta consideravelmente a carga dramática dessa canção aqui debaixo, não?


Da estante – Here, My Dear (1978), Marvin Gaye

Here, My Dear (1978) - Marvin Gaye

Here, My Dear (1978) - Marvin Gaye: no divórcio do soulman quem mais lucrou foram os fãs

Pouca gente conhece a história desse álbum, mais uma pérola da multiplatinada discografia  do soulman troublemaker Marvin Gaye. Em 1978, em meio ao processo de divórcio de sua primeira mulher (Anna Gordy, filha do fundador da Motown – e patrão de Marvin – Berry Gordy), o cantor arranjou uma saída inusitada pra arcar com os gastos da separação: resolveu gravar um disco cujos dividendos iriam diretamente para sua futura ex-cônjuge (daí o nome “Here, My Dear”, “Aqui, querida” em português).
Diz a lenda que, a princípio, Marvin quis gravar qualquer merda, justamente pra encalhar o disco e pode dar o troco em Anna financeiramente. Mas sua integridade artística falou mais alto e ele decidiu dar tudo de si e ainda usar as músicas para contar a história de sua separação. O resultado foi um dos melhores (e mais subestimados) álbuns de sua carreira – uma obra conceitual sobre o começo, meio e fim de um relacionamento, com canções escancaradamente autobiográficas inicialmente românticas (o começo do relacionamento, no começo do disco) depois raivosas e pessimistas (o meio, o processo conturbado de divórcio, com acusações de traição e brigas pela guarda do filho) e, finalmente, otimistas (0 final, a descoberta de um novo amor – o relacionamento com Janis Hunter, anos mais nova que Gaye, e mulher que inspirou “Let’s Get it On”, antes mesmo do fim do casamento com Anna).
O miolo do encarte (figura abaixo) entrega o clima e a raiva de Marvin à época: um tabuleiro estilo Monopoly ou Banco Imobiliário ilustra o divórcio. De um lado, uma mão  masculina entrega um “disco” e mantém instrumentos musicais e aparelhos de gravação (Gaye) e do outro, uma mão feminina fica com dinheiro, casa e carro (Anna).
Encarte de Here, My Dear (1978): Toma que o disco é seu, "querida".

Encarte de Here, My Dear (1978): Toma que o disco é seu, "querida".

Já pensou se os artistas de hoje fossem assim tão explícitos? Talvez a indústria da música ainda fosse minimamente interessante…


Originais & Originados – Ann Peebles x Paul Young – “I’m Gonna Tear Your Playhouse Down”

Ann Peebles: nada mais perigoso que a fúria de uma mulher traída

Ann Peebles: nada mais perigoso que a fúria de uma mulher traída

Em 1973 a cantora Ann Peebles alcançou as paradas norte-americanas de R&B com essa molemolente canção sobre uma mulher que ameaça metaforicamente botar abaixo a “casa de brinquedo” (seria o cafofo?) do cara que a está traindo por aí. E então, nos anos 1980, o cantor britânico Paul Young fez sua própria versão sintetizada do lamento – adaptando, evidentemente, o gênero da sacana para o feminino. Se a versão de Young é inferior à original (como costumam ser as versões oitentistas), pelo menos tem o mérito de manter vivo esse pequeno clássico da música negra. Coincidência ou não, encontrei um vídeo da senhora Peebles cantando “I’m Gonna Tear Your Playhouse Down” ao vivo em 1989. Fica como bônus. Enjoy!

ORIGINAL – ANN PEEBLES – I’M GONNA TEAR YOUR PLAYHOUSE DOWN (1973)

 

ORIGINADA – PAUL YOUNG – I’M GONNA TEAR YOUR PLAYHOUSE DOWN (1984)

 

ORIGINAL – ANN PEEBLES – I’M GONNA TEAR YOUR PLAYHOUSE DOWN (LIVE – 1989)

Novidadeiro – Other Lives

Other Lives: hippie chic e folk atmosférico

Other Lives: hippie chic e folk atmosférico

O que falar dessa invasão de bandas neo hippie? Já não basta o Edward Sharpe and The Magnetic Zeros e a hipercompartilhada “Home“. Agora me surgem esses tipos aí de cima (até que bem cortados, no click em questão).  Mas não se engane pela foto arrumadinha: a Other Lives podia muito bem ser uma banda da fase mais psicodélica dos anos 1970. Norte-americanos, eles começaram em 2004, como uma banda instrumental chamada Kunek, e eventualmente, colocaram vocais na parada – do bandleader e violonista/tecladista Jesse Tabish (diz aí se não é nome Flower Power?).

O primeiro disco – homônimo – saiu em 2009, mas foi só com Tamer Animals (2011) que ganharam atenção dos novidadeiros de plantão. O som dos caras é meio folk mas com uma pegada bastante atmosférica, que faz muitas das canções parecerem feitas sob encomenda para a trilha sonora de algum filme ambientado em campos ou montanhas norte-americanas. E pra se ter uma ideia de como eles estão com bala na agulha, ouvi dizer que o Radiohead chamou os caras pra abrir os shows da última turnê. Precisa de mais motivos pra ouvir, nem que seja pra torcer o nariz?




Vídeo da semana – Cat Power (featuring Manny Pacquiao), “King Rides By”

Imagem do clipe King Rides By, de Cat Power, com o boxeador Manny Pacquiao

Imagem do clipe King Rides By, de Cat Power, com o boxeador Manny Pacquiao: porrada cadenciada

A lindíssima Cat Power, dona do ronronado mais hipnotizante ao norte do Equador, deu mais uma dentro. Pegou uma música esquecida de sua discografia (“King Rides By”, do disco What Would the Community Think, 1996) deu uma bela repaginada, chamou o boxeador-sensação filipino Manny Pacquiao e montou um dos clipes mais belos dos últimos tempos. Nada além de Pacquiao espancando (em câmera lenta) um speed ball ao som marcial e espectral da música. A faixa e o vídeo saíram em dezembro de 2011, e o lançamento tem caráter filantrópico – a faixa pode ser baixada por US$ 0,99 (valor mínimo) no site da cantora, e toda a verba arrecada será revertida a instituições apoiadas por Chan Marshal (nome verdadeiro de Cat) e Pacquiao. Ouça também a versão original da música pra ver os efeitos da plástica.

Arqueologia sonora – KC & The Sunshine Band

KC & The Sunshine Band: banda funk disco comandada por um norte-americano branco

KC & The Sunshine Band: disco funk comandado por um norte-americano branco

Não tem como saber qual foi a reação das pessoas ao verem um norte-americano branco comandando uma banda majoritariamente negra de funk e disco em plena década de 1970. Fato é que a KC & The Sunshine Band, fundada por Harry Wayne Casey (“KC”, branco em questão) em 1973 caiu como uma luva nas paradas de sucesso da década disco. Nem dá pra falar muito da banda, só que o som vibrante e suingado foi um mega sucesso nos tempos das calças boca de sino e penteados afro, caiu no ostracismo a partir dos sisudos anos 1980, mas continua por aí em clima de revival em festinhas dos mais variados calibres (a banda, aliás, continua em atividade, comandada pelo próprio KC, talvez o único membro original em atividade). Duas curiosidades engraçadas: “Keep It Comin’ Love” foi, durante muito tempo, a música tema do programa Amaury Jr. aqui no Brasil (trocada provavelmente quando o Programa Pânico começou a satirizá-la em seus quadros), e “I’m Your Boogie Man” foi regravada pela banda de rock industrial White Zombie (do músico, diretor de cinema e produtor Rob Zombie).

Aproveite a oportunidade aí e dance como se não houvesse amanhã.