Da estante – Too High to Die (1994), Meat Puppets

Too High to Die (1994): até quando penderam pro "rock de FM" os Meat Puppets conseguiram mostrar por que são uma das bandas mais originais da virada dos anos 80 para os 90

Too High to Die (1994): até quando penderam pro "rock de FM" os Meat Puppets conseguiram mostrar por que são uma das bandas mais originais da virada dos anos 80 para os 90

 Se você não conhece absolutamente nada sobre os Meat Puppets, talvez seja melhor começar lendo o verbete deles no All Music. Mas vou dar uma contextualizada, já que adoro a banda. Eles começaram no ano de 1980, no estado norte-americano do Arizona, fazendo hardcore/punk rock alternativo com levíssimas pitadas de country music. O debute homônimo do trio, formado pelos irmãos Curt (guitarra) e Cris (baixo) Kirkwood mais o baterista Derrick Bostrom (responsável também pela maioria das artes das capas dos discos da banda) e lançado em 1982, ao mesmo tempo em que casava com o momento musical daquele país, já saía bastante da forma (o que viria a ser uma marca registrada dos Puppets). Nos anos seguintes, a banda lançou os seminais Meat Puppets II (e guarde esse nome) e Up on the Sun já mostrando a cara amadurecida de seu som – uma mistura psicodélica de rock alternativo com folk, country e punk – entre outros elementos. E apesar de conquistar espaço entre os artistas mais influentes e originais do rock do final dos anos 1980 (ao lado de bandas como Husker Dü e Minutemen, por exemplo), o trio acabou ficando à margem do sucesso na indústria fonográfica e radiofônica.

Pois bem. A luta canhestra dos Puppets contra a sina do underground (declarações do baterista Derrick Bostrom dão conta de que em 1989 a banda já tinha tentado pender pro rock de arena [“Well, we’re not getting any younger”] ‘and we’re not making any money’ – eu ousaria completar – teria considerado, na época, Curt Kirkwood] até o fatídico ano de 1994. Naquele ano, morria outro ‘Kurt’ – o Cobain, do Nirvana. Coincidentemente ou não – em termos comerciais -, após a morte da estrela maior do grunge, saiu o MTV Unplugged Nirvana (em novembro), gravado no ano anterior, 1993. Como era tradição do formato, o Nirvana tinha espaço pra tocar alguns covers e chamar músico convidados ao palco do show registrado em Nova York. Muita gente esperava alguém do naipe de Eddie Vedder (do Pearl Jam) ou Chris Cornell (Soundgarden) pra uma espécie de celebração ao estilo gestado em Seattle. Porém, Cobain – um mestre voluntarioso na arte da provocação, e com influências até obscuras demais para sua legião de fãs – convocou ao tablado dois cabeludos misteriosos muito parecidos entre si. Eram os irmãos Kirkwood. E foi então que o Nirvana, em pleno recheio de seu próprio acústico, (re) apresentou os Meat Puppets ao mundo da música. Naquela noite lúgubre, a banda executou – com a ajuda dos irmãos, que assumiram temporariamente baixo e violão – TRÊS canções do álbum Meat Puppets II (1984): “Plateau”, “Oh, me” e “Lake of Fire”. Até hoje há quem pense que essas músicas SÃO DO NIRVANA. Outros tantos – incluindo o musicólogo aqui, alguns anos depois, é verdade – aproveitaram a oportunidade pra ir atrás da desconhecida dupla que tinha merecido tamanho destaque no que seria a última aparição pública relevante de Cobain – leia mais sobre a participação dos Meat Puppets no acústico Nirvana em post aqui do blog. Ah, e como valeu a pena…

Bom, mas chega de digressão. Fato é que no mesmíssimo ano de lançamento do acústico do Nirvana – 1994 (em janeiro, porém) – os Puppets (talvez tentando capitalizar a relação com Cobain – e eu não os julgaria por isso) colocaram na praça o álbum Too High to Die. Não sei se por conta da palhinha no show desplugado do Nirvana (o álbum traz uma suspeitíssima regravação de “Lake of Fire”) ou pela vocação mais pop (comparando-se com a obra da banda como um todo), o disco alcançou certo destaque na cena musical comercial dos EUA, chegando ao 62° lugar na Billboard 200, e levando disco de ouro (pela primeira vez na carreira dos Puppets) – nada mal pra uma banda que começou a carreira tomando cusparadas de plateias punk no Arizona- segundo depoimento do mesmo Derrick Bostrom. Foi também a primeira – e única? – vez em que a banda emplacou um hit de rádio, com a roqueira-melodiosa “Backwater” (ver vídeo abaixo, neste post – muito, muito boa). Porém, mesmo com isso tudo – talvez até POR ISSO TUDO -, Too High to Die ainda é bastante desprezado quando se fala de Meat Puppets. O que é uma tremenda injustiça. Obviamente, Meat Puppets II e Up on the Sun (e, pra mim, especialmente este último) são gemas que representam o ponto máximo da produção de Curt e Cris. Mas o álbum lançado em 1994 é um PUTA DISCO, que pode agradar tanto os mais enjoadinhos indies saudosos do alt-rock embrionário norte-americano quanto os rockers mais ‘guitarrófilos’.

Do começo ao fim, Too High to Die traz uma pegada pesada e envolvente, além  de um instrumental extremamente trabalhado – marca registrada dos Puppets, principalmente por conta da virtuose de Curt, um dos guitarristas mais originais de sua geração. O registro também surpreende por mostrar que os irmãos Kirkwood devem mesmo ter combinado fingir ser desafinados nos vocais em todos os discos anteriores (e confiem: os vocais nos álbuns anteriores são quase sempre pavorosos, embora não comprometam de forma alguma a experiência). Ali, Curt e Cris cantam de forma muito bem comportada (longe de performances impressionantes, claro) e “adequada” às canções (mais uma pista de um esforço “eminentemente pop”?). E ao longo de suas 13 faixas Too High to Die mostra como os Puppets ainda tinham – e têm, aguarde algumas linhas – muito a contribuir com a música alternativa. A tal mistura de rock com country, punk e psicodelia continua ali – um pouco mais pasteurizada, tenho que concordar, mas surpreendentemente vibrante e viçosa, ainda que mais de uma década depois. Definitivamente um disco pra se devorar do começo ao fim, preferencialmente em uma tarde abafada de verão subtropical, um pouco antes da  chuva cair. Uma cerveja cai bem como acompanhamento. Talvez um “cigarrinho de artista”, como dizem algumas senhoras de mais idade, para aqueles que curtem. E depois, faça me o favor, procure baixar ou comprar por aí os primeiros discos dos caras. Garanto que vão figurar entre os preferidos da prateleira dos interessados em música.

Em tempo: no final dos anos 2000 os Meat Puppets voltaram a tocar e a gravar. O último álbum deles, Lollipop (2011), vale muito a pena. Pega uma amostrinha aqui.

 

 

 

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Novidadeiro – Patrick Stump

Patrick Stump: gente, como esse moço emagreceu!

Patrick Stump: gente, como esse moço emagreceu!

Se você não reconheceu pela foto, sugiro que dê uma olhadinha no frontman dessa banda aqui. Pois é! Patrick Stump é mais conhecido como o vocalista/guitarrista da banda pop punk Fall Out Boy, que, ironicamente, tem no baixista emo Pete Wentz sua maior estrela. Ao que parece, a banda está num hiato e Stump, que é a verdadeira engrenagem criativa do FOB (como a banda é chamada pelos fãs), resolveu que era hora de brilhar sozinho. E, gente, como esse moço emagreceu, não? Será que foi premeditado pra se lançar na carreira solo?

Bom, fato é que Soul Punk, debute do moço, saiu no finalzinho de 2011 e surpreendeu muita gente pela guinada sonora. Já dava perceber no FOB que Stump tinha uma queda pelo pop dançante e performances vocais acrobáticas de, digamos, Michael Jackson, mas com esse disco solo é que ele pode deixar transparecer sem medo sua veia pista de dança. Mas tanto o nome quanto a arte do disco mostram que a molecada da idade de Stump deve ter mesmo uma concepção meio diferente do que seria soul e punk. Quando poderia-se pensar em Marvin Gaye encontra os Ramones, fica-se com Justin Timberlake encontra, bem… o Fall Out Boy! E coloque um temperão de 1980 aí, com sintetizadores hiper retrô e uma estética pseudo vintage-modernosa (?).

De qualquer forma, o álbum é muito bom, e se Stump continuar no caminho certo pode ser um baita artista daqui uns anos. Voz pra isso ele tem! E determinação – como o emagrecimento parece mostrar – também! Boa sorte pra ele!



Vídeo da semana – Fiery Furnaces – Show completo em Athens, Georgia (2005)

Fiery Furnaces: 1h22 de show em Athens, Georgia, em 2005

Fiery Furnaces: 1h22 de show em Athens, Georgia, em 2005

Às vezes a gente topa com pedras preciosas como essa. Navegando no YouTube descobri um show completo do Fiery Furnaces em Athens, Georgia, nos EUA. Gravado por um fã em 2005, o vídeo capta bem a época do lançamento do disco Rehearsing My Choir. Apesar de esse não ser o meu álbum favorito dos irmãos Matthew e Eleanor Friedberger, a apresentação é irrepreensível. O show contempla várias das (muitas) facetas da banda. Do straight foward indie rock ao experimental. E assistir Eleanor cantando ao vivo é uma realização à parte. Aproveite! Você está na primeira fila dessa viagem no tempo (e espaço)!

Da estante – Real Gone (2004), Tom Waits

Real Gone: álbum de 2004 mostra que Tom Waits tá muito mais ligado que muito moleque por aí

Real Gone: álbum de 2004 mostra que Tom Waits tá muito mais ligado que muito moleque por aí

Real Gone é um álbum meio perdido na discografia de Tom Waits. Em 2004, ano do lançamento, Waits já tinha conquistado o privilégio de chamar a atenção da crítica e do público ainda que gravasse um disco de covers do Cat Stevens, mas sua última obra então pareceu não conquistar muitos corações. Diga o que quiser, eu ainda acho Real Gone um dos melhores – e mais corajosos discos – do velho Tom.

Com seu vocal gutural – que segundo alguns foi livremente inspirado no Captain Beefheart – já transformado em marca registrada da música contemporânea, Waits deixou de lado uma de suas maiores redes de segurança – os teclados/piano. Não se ouve o instrumento nenhuma vez em Real Gone. Em seu lugar, guitarras distorcidas, percussão pesada e até mesmo beat boxes e turntables (operadas ocasionalmente pelo filho de Tom, Casey Waits, também responsável pela percussão). O resultado é tribal e contagiante. A poesia de sarjeta de Waits também atinge um ponto ótimo durante boa parte do disco e combina perfeitamente com a ambientação, que faz pensar em algo como uma selva beatnick, por conta da gravação bastante crua e com cara de “ao vivo”.

Enfim, um disco pra se ouvir de uma vez, de preferência sorvendo um bourbon. Ao final dos vídeos inclui uma entrevista de Tom no Late Show with David Letterman, da época do lançamento do disco. Ele também toca uma das músicas do álbum ao vivo. Vale assistir. O cara, além de tudo, é muito engraçado.





Novidadeiro – “Metals”, o disco novo da Feist

Feist: a Cat Power afrancesada lançou um baita disco

Feist: a Cat Power afrancesada lançou um baita disco

Tá, a Feist (pronuncia-se Fáist, ok?) não é, ou não deveria ser, novidade pra ninguém. A canadense que parece uma Cat Power afrancesada e mais langanha (mas bem sexy, talvez até por isso mesmo) conquistou o mundo com hits como “Mushaboom” e “1,2,3,4”, e até partiu pra um lado mais comercialzão com o disco The Reminder (quem não lembra da grudenta “My Moon My Man“?). Mas o último disco da moça – Metals (2011) – ainda tá quente e começando a bombar por aqui, então fica a dica de sempre: ouça antes que aquele seu colega de mau gosto comece a escutar! Ah, a Rolling Stone Brasil falou mal, então, se você precisava de mais algum motivo pra correr atrás, tá aí. Aqui dá pra ver umas vinhetas em vídeo do Metals em streaming. E tem também alguns vídeos que separei pra você aí embaixo! Enjoy!