Vídeo da semana – O clipe de “Cherokee”, de Cat Power

Chan Marshall (a Cat Power) em cena do clipe de "Cherokee": loira, meio cósmica, meio indianista, meio Mad Max

Chan Marshall (a Cat Power) em cena do clipe de “Cherokee”: loira, meio cósmica, meio indianista, meio Mad Max

Enfim saiu o clipe do primeiro single do ótimo Sun (2012), de Cat Power. No vídeo de “Cherokee”, que tem uma trama e uma estética meio cósmica, meio indianista e meio Mad Max (como lembrou o pessoal do Trilhando), Chan aparece loira e metida com uma gangue armada com rifles platinados que parecem ter saído da ficção científica mais chulé. Se a história é bizarra demais, vale pelo som e pelas belas imagens no melhor estilo road movie pós-apocalíptico. Que venham outros!

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Resenha – Dave Matthews Band, Away from the World (2012)

Dave Matthews (Band) em 2012: confortável para repetir, inovar ou confundir, e é isso aí

Dave Matthews (Band) em 2012: confortável para repetir, inovar ou confundir, e é isso aí

A capa de Away from the World (2012): a DMB em condições normais de temperatura e pressão na segunda década do terceiro milênio e uma espécie de "volta às origens" sem sabor de nostalgia

A capa de Away from the World (2012): a DMB em condições normais de temperatura e pressão na segunda década do terceiro milênio em uma espécie de “volta às origens” sem sabor de nostalgia

A Dave Matthews Band é uma das maiores entidades da música pop em atividade atualmente. Uma prova disso é que com o lançamento de Away from the World (RCA, 11 de setembro de 2012), oitavo disco de estúdio da turma capitaneada pelo vocalista/violonista/compositor que dá nome ao grupo, a banda pode atingir uma marca respeitável e até então inédita: emplacar o sexto álbum consecutivo no primeiro posto da Billboard na semana de estréia (atualização às 14h12, 19/09: eles conseguiram! Quebraram o recorde!). Fora a comoção a cada lançamento, a devoção dos milhões de daveheads (fãs hardcore) espalhados pelo mundo todo, e os verdadeiros happenings em que se transformam as (muitas) apresentações ao vivo – que, para alguns, são a verdadeira epítome das principais qualidades da DMB (como é chamada pelos “iniciados”).

A despeito de, mas sem se esquecer disso, Away from the World, chega às lojas (e, consequentemente, à web) após uma longa gestação, sucedendo Big Whiskey & the GrooGrux King (RCA; 2 de junho de 2009), álbum marcado pela morte do saxofonista e membro fundador LeRoi Moore (que faleceu em decorrência de um acidente com um ATV – espécie de quadriciclo motorizado – em 2008, com o disco ainda em produção) e que acabou virando uma grande homenagem póstuma ao músico – ele seria o GrooGrux King do título, entre tantas outras referências, declaradas, nesse sentido.

Isso posto, para ouvintes de ocasião o novo álbum é uma boa coleção de canções pop. Belas, acima da média e transmutadas em som dentro de um contexto bastante particular perceptível – “Podia ter mais refrões aí, né? E, ai, a voz desse cara é meio irritante, anasalada, sabe? Difícil de definir o som deles. É rock?” eu consigo imaginar como quick reviews de rodinha por aí. E é isso. Ponto. Definitivamente Away from the World não é um disco para “descobrir” a DMB. Isso já foi – com a oportunidade expirando muito provavelmente na gema Before These Crowded Streets, de 1998. Não, o álbum é – quer queira, quer não – para iniciados. Pra quem ouviu Everyday (2001) e Stand Up (2005), despretensiosas guinadas pro pop rock de FM (aquele mais, este menos, e do jeito DMB de ser, claro), com uma alegria contemplativa, documental e sem cobranças por um bobo “stay real” ou algo que o valha. Não necessariamente apenas para os supracitados daveheads, mas pra quem encara o ato de descobrir cada novo registro da banda como uma viagem viva pelo passado, presente e o repertório particular de Dave, Stefan, Boyd, Carter e LeRoi (in memorian) – o núcleo da DMB.

Concebido tempos depois da condição absolutamente determinante registrada em GrooGrux…, o disco acabou – imagino eu, que não sou membro da banda, conhecido de nenhum deles e nem muito afeito a esmiuçar entrevistas com os músico, por mais que eu goste deles – sendo uma oportunidade de retratar a Dave Matthews Band em condições normais de temperatura e pressão na segunda década do terceiro milênio, quatro anos após a morte de um de seus principais membros e quase 20 anos depois de seu primeiro registro fonográfico (o debute independente Remember Two Things, de 1993). Então agora os membros da banda estão beirando os 50 (quando já não passaram disso), milionários, amplamente reconhecidos, bem resolvidos quanto a suas marcas registradas musicais, sem muito compromisso com agradar ninguém que não eles mesmos (excetuando-se aí a possibilidade sempre presente de um contrato leonino com a gravadora) e naturalmente inclinados a afirmações e questionamentos com contornos mais definidos do que “Could I have been a parking lot attendant?” (“Dancing Nancies“, 1994)  – não que essa não seja uma pergunta válida até o fim da vida de qualquer um. E, mais importante, absolutamente livres para deixar fluir a influência de seja qual for a musa que inspirou tanta coisa boa (e nem sempre de fácil digestão) nas últimas décadas.

O fato é que Dave Matthews e seus comparsas talharam aqui uma espécie peculiar de “volta às origens” (como eu odeio essa classificação, tão cara a tantos críticos de música) sem sabor de nostalgia. Vê-se (ouve-se) aí indícios cristalinos de uma banda confortável com seu legado, ainda que disposta a seguir experimentando e trilhando caminhos não tão óbvios. Como é bom, na condição de admirador – comedido – da banda, sentir isso! E, nessa toada, Away from the World é uma peça que soa mais coerente e encantadora – e que se encaixa cada vez melhor na biografia/discografia da DMB – a cada audição (e, NÃO, isso não é um eufemismo para um disco chato, difícil, ou ruim, para colocar de uma maneira simplória). O álbum é foda – especialmente relevando-se tudo o que tentei enumerar anteriormente -, para colocar de forma simples.

Num faixa-a-faixa pra lá de rasteiro dá pra dizer que:

“Broken Things”, “Belly Belly Nice” e “Mercy” (primeiro single do disco) – as três faixas iniciais do álbum – chegam chegando e agradam de primeira, soando (cada uma com suas particularidades, evidentemente) como uma visita à vibe do que a banda produziu nos anos 1990 temperada pelo amadurecimento dos caras e decorada discretamente com os arroubos mais FM da discografia do grupo. E aqui preciso dizer que, de uma maneira não tão óbvia, “Belly Belly Nice” me lembrou – de uma forma muito saudável e difícil de explicar – What Would You Say” e “So Much to Say” (dois hits dos anos 1990).

Seguindo, “Gaucho” é coisa nova, mas com a cara da DMB ao mesmo tempo. Algo que transita entre Before These Crowded StreetsBusted Stuff (ou, como eu prefiro, Lillywhite Sessions) e Everyday (só pra ter por onde comparar). E aí vem a primeira grande cisão.

“Sweet”, como o nome adianta, é uma doce balada de voz e ukelele (instrumento inédito, até onde sei, em gravações/apresentações da banda). Boa ponte para “The Riff”, “Belly Full” e “If Only” que, com suas construções menos familiares – por assim dizer – poderiam ser definidas como um núcleo mais representativo de Dave Matthews e companheiros se arriscando em territórios não tão conhecidos (a “assinatura” mais visível dessa época, desse registro em particular, talvez).

Daí para a frente é um pouco mais confortável ver a banda brincando (magistralmente) com “Rooftop” (cujo riff inicial parece um convite para nos lembrarmos que estamos diante de uma banda com bagagem) e  Snow Outside“.

E é aí que, não mais que de repente, chega “Drunken Soldier”, o ato final, faixa que poderia ser colocada em uma moldura como uma continuação inata de Don’t Drink the Water” e sua irmã quase gêmea Bartender” – épicos maiores da carreira da DMB.

Então, meu amigo, em algum momento perto do fim, quando você ainda está assimilando tudo o que aconteceu e se perguntando sobre uma referência – proposital ou não – ao Pink Floyd nessa última carta de intenções que é o encerramento do mais recente trabalho da banda do Dave Matthews, é que bate: “Puta que o pariu. Imagina só o próximo”.

E é isso.

Ah, que mancada! Quase esqueci de dizer que o álbum foi produzido magistralmente (pra variar) pelo incrível Steve Lillywhite, de volta depois de trabalhar com a DMB em discos como os fundamentais “Under the Table and Dreaming”, “Crash” e “Before these Crowded Streets” (além do belíssimo e não-oficial “Lillywhite Sessions”, que depois virou “Busted Stuff” na discografia oficial da banda). Aplausos para o cara. Mesmo. 

Ainda é preciso falar que, embora seja fácil e natural sentir falta dele, o buraco deixado por LeRoi Moore nos instrumentos de sopro aqui é preenchido de forma competentíssima por Jeff Coffin, do Bela Fleck & The Fleck Tones (banda meio irmã mais velha da DMB que, inclusive, dividiu os palcos com os caras por mais de uma vez em performances pra lá de inesquecíveis).




Originais & Originados – Labelle x All Saints x Christina Aguilera, Lil’ Kim, Mya e Pink – “Lady Marmalade”

Labelle em foto de Bob Gruen: o "Voulez-vous coucher avec moi (ce soir)?" sobreviveu por décadas

Labelle em foto de Bob Gruen: o “Voulez-vous coucher avec moi (ce soir)?” sobreviveu por décadas

Não é sempre que uma canção atinge a primeira posição na parada da Billboard por duas vezes em um período de cerca de 25 anos. Mas aconteceu com “Lady Marmalade” e sua pegada suingada e atmosfera burlesca. Inicialmente lançada em 1974, no álbum Nightbirds do trio vocal feminino Labelle (e atingindo o topo das paradas no ano seguinte), a música foi regrava da pelo grupo inglês All Saints (lembra?) em 1998 e, mais tarde, em 2001, por Christina Aguilera, Lil’ Kim, Mya, Pink – com produção de Missy Elliott – para a trilha do filme Moulin Rouge!, ocupando o primeiro lugar da Billboard por cinco semanas seguidas no mesmo ano.

É, o verso “Voulez-vous coucher avec moi (ce soir)?” – algo como “Você quer ir para a cama comigo (esta noite)?” – sobreviveu bem a pelo menos três décadas. Será que qualquer hora surge uma nova versão? Por enquanto, confira as três que já habitaram o mundo do pop:

ORIGINAL – LABELLE – LADY MARMALADE (1974)

 

ORIGINADA – ALL SAINTS – LADY MARMALADE (1998)

 

ORIGINADA – CHRISTINA AGUILERA, LIL’ KIM, MYA E PINK – LADY MARMALADE (2001)

Da estante – Bleach (1989), Nirvana

Bleach (1989): debute da banda que viria a ser a representante maior do grunge e uma das grandes responsáveis pela popularização do rock alternativo ao redor do globo

Bleach (1989): debute da banda que viria a ser a representante maior do grunge e uma das grandes responsáveis pela popularização do rock alternativo ao redor do globo

Ouvir uma banda que mudaria a história do rock dando seus primeiros passos é realmente uma experiência única. Até hoje, Bleach (1989), debute fonográfico do Nirvana, é um dos meus discos preferidos – não só da banda, mas de toda a história do rock alternativo. Gravado em Seattle ao longo de apenas alguns dias entre dezembro de 1988 e janeiro de 1989, o disco custou cerca de US$ 600,00 para ser registrado – grana emprestada pelo guitarrista Jason Everman, que em troca foi creditado no álbum, embora não tenha tocado nada. A produção ficou a cargo de Jack Endino, lendário e veterano nome da cena de Seattle.

Retrato do nascimento de uma lenda, Bleach mostra o Nirvana em sua primeira formação, com Kurt Cobain (guitarra e voz), Krist Novoselic (baixo) e Chad Channing (bateria – Dave Grohl entraria apenas na época de Nevermind [1991]). A atmosfera é crua, áspera e muito mais ancorada no heavy metal do que no soft punk polido de Nervermind. Registrado em uma moldura fria e algo tosca, o disco parece ser o retrato do que deveria mesmo ser o Nirvana, não fosse a explosão pop que a banda viria a protagonizar. A lírica pessimista, beatnic e, de certa forma, nonsense de Cobain mostram aqui as suas raízes, bem como o vocal desolado e rasgado.

No tracklist, um punhado de sons de respeito, entre eles “About a Girl” (posteriormente eternizado no MTV Unplugged in New York, 1994), o cover pesado de “Love Buzz” (da banda holandesa Shocking Blue) e pancadas como “Negative Creep”, além de construções inusitadas como “Sifting” e “Big Cheese”. Pra quem colocou o Nevermind no topo da lista de discos mais originais de todos os tempos, é audição obrigatória. Quem sabe não sobe um degrau na sua compilação de favoritos?





Originais & Originados – King Floyd x Marvin Gaye x Shaggy – “Baby Let me Kiss You” / “Let’s Get it On” / “Boombastic”

Shaggy: nem adianta falar "It wasn't me" - a gente sabe que "Boombastic" tá longe de ser original

Shaggy: nem adianta falar “It wasn’t me” – a gente sabe que “Boombastic” tá longe de ser original

Mais um caso que não se trata exatamente de uma versão pura e simples. Lançada junto com o álbum homônimo em 1995, “Boombastic” fez a cama do jamaicano Shaggy nas paradas de sucesso mundo afora. O ritmo gingado, a voz algo inumana do cantor e o clipe, sensualíssimo para a época, cravaram o lugar do hit na memória de quase todo mundo que tinha acesso à MTV na segunda metade da década de 1990. O que muita gente não percebeu – até hoje -, no entanto, é que esse fenômeno da música pop está longe de ser uma gema completamente original. Excetuando-se a melodia vocal e a letra, “Boombastic” é uma grande colagem de sons criados por grandes artistas de épocas bem anteriores à da Music Television.

Falando cronologicamente, o grosso da canção é sustentado por um sample da base funkeada de “Baby Let Me Kiss You”, música do soulman King Floyd lançada em 1971. Além disso – e o mais surpreendente -, a intro (presente em algumas versões divulgadas da música, mas não a do álbum) e o contagiante refrão são completamente chupinhados de “Let’s Get it On”, a música universal da foda e uma das mais conhecidas canções do troubleman Marvin Gaye. Até os indefectíveis backing vocals “Ooooh, aaaahh” da original estão lá pra comprovar – fora a guitarrinha famosíssima da introdução.

Será que você consegue perceber o “empréstimo” feito por Shaggy? Ouça as três faixas abaixo e tire suas próprias conclusões:

ORIGINAL – BABY LET ME KISS YOU – KING FLOYD (1971)

ORIGINAL – LET’S GET IT ON – MARVIN GAYE (1973)

 

ORIGINADA – BOOMBASTIC – SHAGGY (1995)

Vídeo da semana – Mashup – Elis Regina x Amy Winehouse – “Rehab de Março”

Elis Regina: décadas depois, o registro definitivo de "Águas de Março" em vídeo encontrou-se com "Rehab", hit de outra diva afeita aos excessos

Elis Regina: décadas depois, o registro definitivo de “Águas de Março” em vídeo encontrou-se com “Rehab”, hit de outra diva afeita aos excessos

Esse aí apareceu já tem algum tempo, mas topei com ele só agora e achei um tanto genial. Afeiçoado aos mashups, um rapaz chamado Rafael Nelvam resolveu juntar a “Pimentinha” Elis Regina cantando “Águas de Março” (Tom Jobim), em 1973 no programa Ensaio da TV Cultura, com imagens (e o som) de Amy Winehouse executando seu mega-hit “Rehab”, resultando em um vídeo intitulado “Rehab de Março”. A coisa toda ficou muito mais bacana do se poderia imaginar. E a ideia de juntar duas grandes cantoras que partiram desse mundo após uma (curta) vida de sucesso e excessos é, no mínimo, instigante. Confira: