Resenha – Cat Power, Sun (2012)

Cat Power versão 2012: minha voz ainda é a mesma, mas os meus cabelos - e os meus arranjos -, quanta diferença!

Cat Power versão 2012: minha voz ainda é a mesma, mas os meus cabelos – e os meus arranjos -, quanta diferença!

Capa de Sun (2012), novo álbum de Cat Power

Capa de Sun (2012, Matador), novo álbum de Cat Power

Depois de seis anos sem lançar um disco de canções autorais e pouco tempo depois de terminar um relacionamento de longa data com o ator Giovanni Ribisi, Chan Marshall – mais conhecida pelo seu stage name Cat Power – botou na praça Sun (03 de setembro, Matador), nono álbum de estúdio de sua carreira. E se em 2012 Chan renovou a vida afetiva e até o visual (dá uma olhada nos cabelinhos curtos na foto acima ou no vídeo promocional da faixa “Ruin” abaixo), o que dizer de seu som?

Bem, não seria exagero dizer que Sun é uma das coisas mais originais e contemporâneas que Cat Power já produziu até hoje dentro de sua própria estética particular. Se em The Greatest (2006) era o southern soul que banhava o seu indie rock confessional e melancólico, em Sun são as texturas, programações e efeitos eletrônicos que dão a tônica. Mas tudo sem soar como modismo (se bem que, convenhamos, estamos em 2012) ou frivolidade, e com as composições de Marshall (que, aliás, gravou praticamente tudo sozinha e ainda produziu e mixou, com a ajuda de Philippe Zdar – do Cassius) no centro do show, como de costume. A guinada no formato gerou canções ora perfeitamente dançantes, ora atmosféricas e algo experimentais. A voz da moça continua bela e ronronada como nunca, e a produção se aproveita disso, brincando com overdubs que, por vezes, dão a impressão de que estamos diante de um coral de Chans. E guitarra sempre providencial de Judah Bauer (The Jon Spencer Blues Explosion, com quem Cat Power vem tocando desde 2006) é a cereja do bolo.

Mais uma vez, quem estranhou a mudança de direção de The Greatest vai, de novo, demorar a se habituar com Sun. Mas quem acredita que um artista naturalmente muda de rumos em diferentes momentos de sua trajetória vai, muito provavelmente, curtir as novas paisagens pintadas por Cat Power. O álbum é surpreendentemente mais feliz e otimista do que a média da discografia de Chan, talvez por estar quase finalizado à época do rompimento com Ribisi, que, aliás, apenas dois meses após o fim do relacionamento com a cantora, se casou com a modelo britânica Agyness Deyn – boatos dão conta de que ela apressou o lançamento do disco depois da separação.

Uma última nota a respeito da vida pessoal da força criativa por trás de Cat Power: “Nothin’ But Time”, uma das mais poderosas canções do novo trabalho – com seus épicos 10 minutos e 55 segundos e a participação discreta de Iggy Pop nos vocais lá pelas tantas -, é dedicada à filha adolescente de Ribisi, com quem Chan, que não tem filhos, teria desenvolvido uma relação bastante maternal. “You got nothin’ but time/And it ain’t got nothin’ on you”, diz parte da letra, que parece um grande – e belo – discurso de mãe, sem ser piegas.

Em suma, Sun é o retrato de uma artista que cresceu e que – tudo indica – continuará amadurecendo bem. Chan já tem 40 anos, passou por muita coisa desde que saiu de Atlanta (Georgia, EUA) para se tornar a queridinha dos indies de boa parte do mundo, incluindo aí o alcoolismo, as agruras da fama, a depressão e um (quase) casamento que não deu certo. Nesse ponto da carreira é bom vê-la ainda experimentando e buscando novas sonoridades, mas com a segurança de quem já encontrou sua própria voz.


Originais & Originados – Jorge Ben x Rod Stewart – “Taj Mahal” / “Da Ya Think I’m Sexy”

Jorge Ben em 1972: "Tê Tê Tê, Têtêretê" virou "If you want my body and you think I'm sexy Come on sugar let me know" na boca de Rod Stewart

Jorge Ben em 1972: “Tê Tê Tê, Têtêretê” virou “If you want my body and you think I’m sexy come on sugar let me know” na boca de Rod Stewart

Ok, esse não é exatamente um caso de composição original e sua(s) versão(ões) – oficialmente creditadas ou não. Trata-se, na verdade, de um dos casos mais famosos de (suposto) plágio da música pop mundial. Em 1972, sob o sol escaldante das terras tupiniquins, Jorge Ben lançava o semi-homônimo Ben e, com ele, um dos mais famosos hits de sua prolífica carreira, “Taj Mahal”. A música, que narra “a mais linda história de amor que me contaram e agora eu vou contar, do amor do príncipe Shah-Jahan pela princesa Mumtaz Mahal”, ainda ganhou uma nova roupagem gravada pelo próprio pai do samba-rock (ou samba-jazz como preferem alguns) para o álbum Solta o Pavão (1976). Até aí pouca novidade pra quem nasceu no País Tropical.

Acontece que, em 1978 (ou seja, seis anos após o lançamento da canção de Ben), sai Blondes Have More Fun, nono disco do ex-vocalista da banda de Jeff Beck e do Small Faces, o roqueiro escocês Rod Stewart. O álbum marcou a passagem definitiva do artista para o mundo do pop/disco e vendeu mais de 14 milhões de cópias no mundo todo, puxado pelo sucesso de faixas como a divertida “Da Ya Think I’m Sexy” e seu refrão contagiante. Mas aí o bicho pegou. “Peraí, já não ouvi essa melodia em algum lugar antes?”, devem ter pensado algumas centenas de fãs de Stewart e do nosso Jorge Ben. Pois é. Eis que o “Tê Tê Tê, Têtêretê (ad eternum)” de Ben virara “If you want my body and you think I’m sexy / come on sugar let me know /If you really need me just reach out and touch me /come on honey tell me so, tell me so baby” na boca de Stewart.

Coincidência? Inspiração? Cópia descarada? Não se sabe. Mas, Ben (que também teve que, eventualmente, mudar de nome artístico por questões semelhantes a essa) meteu um processo e muito provavelmente teria ganho de causa, só que acabou sem levar um tostão. Isso porque, no fim da pendenga, Stewart – que negou a cópia desde o início – acabou jogando a culpa no co-autor da música, o baterista Carmine Appice, e cedeu os lucros do hit ao Unicef em um show beneficente na sede da ONU, em Nova York.

Bom, pelo menos ganharam as criancinhas. E nós, que, ao invés de uma grande canção, acabamos com duas (embora eu tenha uma favorita disparada entre elas – consegue adivinhar qual?).

Solta o som!

ORIGINAL – JORGE BEN – TAJ MAHAL (1972/1976)


PLAGI…, QUER DIZER, ORIGINADA – ROD STEWART – DA YA THINK I’M SEXY (1978)