Resenha – Christopher Owens, Lysandre (2013)

Christopher Owens (ex-Girls): antes de qualquer coisa, ele queria ser um legítimo songwriter

Christopher Owens (ex-Girls): antes de qualquer coisa, ele queria ser um legítimo songwriter

Capa de Lysandre, de Christopher Owens (2013): uma história de amor sincera com final algo agridoce como a conversa risonha de um amigo na madrugada e à meia luz

Capa de Lysandre, de Christopher Owens (2013): uma história de amor sincera com final algo agridoce como a conversa risonha de um amigo na madrugada e à meia luz

Na segunda metade de 2012, o compositor, vocalista e guitarrista Christopher Owens deixou o Girls, banda que havia formado com o amigo multi-instrumentista Chet “JR” White apenas alguns anos antes. A notícia chocou as audiências indie ao redor do globo, uma vez que Father, Son, Holy Ghost, segundo disco do duo – lançado em meados de 2011 – conquistou crítica e público com sua mistura de rock alternativo/progressivo e soul, e gerou muita expectativa sobre o que a parceria  da dupla de músicos residentes em São Francisco (EUA) produziria a seguir [ouça aqui “Vomit“, uma das mais aclamadas canções do segundo álbum do Girls].

Owens, cuja história de vida renderia bem mais que um único post neste blog, anunciou em julho de 2012 – por meio de sua conta no Twitter – que estava deixando a banda por motivos pessoais, mas que continuaria compondo e produzindo música.  Já em outubro do mesmo ano o músico divulgava que o primeiro disco solo viria em 2013.

Em janeiro de 2013, Lysandre ganhava as ruas. E, embora algumas declarações à imprensa e apresentações informais de parte novo material já dessem pistas, só mesmo escutando para sacar um pouco melhor o rumo que o rapaz escolheu para esse primeiro capítulo de sua vida pós-Girls. Pra quem conhece bem sua antiga banda não é segredo que, com toda a sua terna ingenuidade como pessoa e como compositor, Owens quer, antes de qualquer coisa, ser um legítimo songwriter ou storyteller. E em seu debute isso fica ainda mais evidente. Desde a escolha por um primeiro álbum eminentemente conceitual – Lysandre trata do brevíssimo, mas profundo, romance entre o então frontman do Girls em sua primeira turnê com a banda e uma garota francesa (a Lysandre do título) -, até as letras ainda mais narrativas e confessionais do que nos tempos de banda, passando pelos arranjos elegantes porém concisos – servindo sempre à história contada por Owens com sua voz frágil e doce e seus dedilhados românticos.

Assim, ao longo de pouco menos de 30 minutos, o disco faz o ouvinte passear por uma história de amor sincera (ainda que possa parecer exagerada) com final algo agridoce como se escutasse à conversa risonha de um amigo na madrugada e à meia luz. E como essa conversa imaginária, Lysandre é inconstante, engasgada em alguns momentos, mas cheia de uma beleza simples e arrebatadora em outros. Uma audição que vale a pena e que cresce a cada repetição. Um bom (re)começo para o garoto simples que só queria compor canções bonitas.

Ouça o disco na íntegra aqui, cortesia do selo responsável pelo lançamento de Lysandre, Turnstile Music.

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Time Capsule – Françoise Hardy, “Le Temps de L’Amour” (1962)

Françoise Hardy: "o tempo do amor"

Françoise Hardy: “o tempo do amor”

Essa chanson pegada da década de 1960 (sente o baixo, só sente…) acabou trazida de volta à pauta por integrar a trilha sonora do filme Moonrise Kingdom (2012), de Wes Anderson – embora eu esteja aqui me rasgando tentando lembrar em qual outro filme/série atual eu ouvi esse som esses dias (com certeza não foi no Moonrise Kingdom porque eu sei [com a confirmação de testemunhas] que dormi antes da cena em que a música se faz presente na película do diretor do ótimo A Vida Marinha com Steve Zissou). De qualquer maneira, vale o remember/confere.

Le Temps De L’Amour

C’est le temps de l’amour
Le temps des copains
Et de l’aventure
Quand le temps va et vient
On ne pense à rien
Malgré ses blessures
Car le temps de l’amour
C’est long et c’est court
Ça dure toujours
On s’en souvient
On se dit qu’à vingt ans
On est le roi du monde
Et qu’éternellement
Il y aura dans nos yeux
Tout le ciel bleu
C’est le temps de l’amour
Le temps des copains
Et de l’aventure
Quand le temps va et vient
On ne pense à rien
Malgré ses blessures
Car le temps de l’amour
Ça vous met au cœur
Beaucoup de chaleur
Et de bonheur
Un beau jour c’est l’amour
Et le cœur bat plus vite
Car la vie suit son cours
Et l’on est tout heureux
D’être amoureux
C’est le temps de l’amour
Le temps des copains
Et de l’aventure
Quand le temps va et vient
On ne pense à rien
Malgré ses blessures
Car le temps de l’amour
C’est long et c’est court
Ça dure toujours
On s’en souvient
On s’en souvient
On s’en souvient
Car le temps de l’amour
C’est long et c’est court
Ça dure toujours
On s’en souvient
On s’en souvient
On s’en souvient


O Tempo do Amor

É o tempo do amor
O tempo dos amigos
E da aventura
Quando o tempo vai e vem
Nós não pensamos de nada
Apesar das feridas dele
Porque o tempo do amor
É longo e é curto
Que sempre último
Nós nos lembramos disto
Nós dizemos a nós mesmos que em vinte anos
Nós somos o rei do mundo
E que eternamente
Haverá em nossos olhos
Todo o céu azul
É o tempo do amor
O tempo dos amigos
E da aventura
Quando o tempo vai e vem
Nós não pensamos de nada
Apesar das feridas dele
Porque o tempo do amor
Isso o põe no coração
Muito calor
E de felicidade
Um dia bonito é o amor
E o coração bate mais rapidamente
Porque a vida continua
E nós estamos bastante contentes
Para estar apaixonado
É o tempo do amor
O tempo dos amigos
E da aventura
Quando o tempo vai e vem
Nós não pensamos de nada
Apesar das feridas dele
Porque o tempo do amor
É longo e é curto
Que sempre último
Nós nos lembramos disto
Nós nos lembramos disto
Nós nos lembramos disto
Porque o tempo do amor
É longo e é curto
Que sempre último
Nós nos lembramos disto
Nós nos lembramos disto
Nós nos lembramos disto

Vídeo da semana – Strange Music, “Run, King, Run” (2011/2012)

Strange Music na gravação da música "Run, King, Run" no LabMIS: rock eletrônico/orgânico experimental e uma colher de chá pro musicólogo aqui

Strange Music na gravação da música “Run, King, Run” no LabMIS: rock eletrônico/orgânico experimental e uma colher de chá pro musicólogo aqui

Antes de mais nada, já deixa eu me explicar: sim, a Strange Music É a banda d’O musicólogo – afinal, eu mereço uma colher de chá pro meu segundo emprego de vez em quando, né? Bom, esclarecimentos feitos, deixa eu falar sobre o vídeo da semana da vez.

Convidada pelo MIS (Museu da Imagem e do Som – São Paulo) a registrar fonograficamente uma música de sua autoria em meados de 2011, como participação no projeto LabMIS, a Strange Music (trio paulistano de rock eletrônico/orgânico experimental em atividade desde 2006) decidiu aproveitar a ocasião e tirar dali uma faixa acabada (que viria a integrar o terceiro disco da banda, Música Estranha [2011/2012] – álbum independente lançado faixa a faixa direto na web e disponível para download gratuito aqui: http://bit.ly/MusicaEstranhaFullAlbum) e uma espécie de videoclipe que relatasse o processo de produção da música.

E é isso que o vídeo da semana traz dessa vez: o registro honesto e cru de uma banda independente contemporânea em estúdio tentando dar forma a toda a sua energia criativa e sonora. Enjoy. E, mais uma vez, se gostar do som, baixe gratuitamente o Música Estranha, terceiro álbum da Strange Music lançado direto na web: é só clicar no link http://bit.ly/MusicaEstranhaFullAlbum.

E não deixe de acompanhar a banda no Facebook (http://facebook.com/musicaestranha), no Twitter (http://twitter.com/musicaestranha) e pelo site oficial (http://strangemusic.com.br).

Strange Music – Run, King, Run (Live on LabMIS) from Estúdio Bloco on Vimeo.

Originais & Originados – George Clinton x Snoop Dogg – “Atomic Dog” (1982) / “Who Am I (What’s My Name)?” (1993)

George Clinton em toda sua exuberância multicolor: a história sobre um "cachorro atômico" serviu, uma década mais tarde, de cartão de visita pra um dos grandes nomes do rap norte-americano

George Clinton em toda sua exuberância multicolor: a despretensiosa história de um “cachorro atômico” contada pelo ex-mentor do Parliament/Funkadelic nos anos 1980 serviu, uma década mais tarde, de base para o cartão de visita de um dos grandes nomes do rap norte-americano

O caso em questão diz respeito mais a uma homenagem/referência/releitura do que a uma versão propriamente dita. Bem, o lance todo começa assim: em 1982, após a dissolução da entidade funk por ele capitaneada (as fodidíssimas bandas irmãs siamesas Parliament/Funkadelic – das quais vou falar qualquer hora com certeza), George Clinton lança seu primeiro disco solo, Computer Games e, com ele, a faixa mezzo eletrônica oitentista mezzo funk “Atomic Dog“, uma música alegre, dançante, sacolejante e aparentemente bobinha (a canção versa, numa análise superficial, sobre o comportamento dos cães – que correm atrás de gatos e de suas próprias caudas -, e que tem como personagem central um tal de “atomic dog” [cachorro atômico], que é o sujeito do refrão contagiante da música).

Ok.

Fast foward para a década seguinte e eis que, em 1993, o hoje popularíssimo rapper norte-americano Snoop Dogg, então um iniciante na cena revisita o som de Clinton em “Who Am I (What’s My Name)“, uma das músicas mais populares de Doggystyle, seu disco de estréia, e que rendeu um clipe (veja abaixo) exibido à exaustão na MTV brasileira (e, imagino, gringa) na época. É claro que, como é peculiar do rap e do hip-hop, a faixa – apesar de apoiada em uma canção já existente – ganhou personalidade própria com a narrativa e as rimas de Snoop Dogg. Mas é quando chega o refrão que fica claro a fonte na qual o rapper bebeu. E aí a linha vocal executada pelos backing vocals de George Clinton nos anos 1980 – entoando o mantra “Atomic doooooog / Atomic doooooog” – se transmuta, em plena década de 1990, na resposta cantarolada em coro “Snoop Dogg / doooooogg / Snoop Dogg / doooooogg” (além de outras pequenas semelhanças com a original) para a insistente pergunta “What’s my motherfuckin’ name?“, proferida por Snoop ao longo da música (a faixa ainda conta com alguns outros samples de músicas do Parliament e do Funkadelic, talvez uma pista de que rolou mesmo uma homenagem a Clinton).

Uma bela apropriação histórica da nata da música black em um dos hits que ajudou a botar o rap no mapa da música pop nos anos 1990. E, naquele momento, muito mais que uma referência explícita e despropositada causada pela falta de inspiração (como viria a acontecer com vários medalhões do rap no final da década), um certo atestado de qualidade e bom gosto para o então neófito Snoop Dogg. Embarcando na máquina do tempo: com esse gabarito, seja muito bem-vindo.

ORIGINAL – GEORGE CLINTON – ATOMIC DOG (1982)

ORIGINADA – SNOOP DOGG – WHO AM I (WHAT’S MY NAME)? (1993)

Arqueologia sonora – Pixies

Pixies: os mentores acidentais do assalto protagonizado pelo "rock alternativo" ao imaginário coletivo da música pop nos anos 1990

Pixies: os mentores acidentais do assalto protagonizado pelo “rock alternativo” ao imaginário coletivo da música pop nos anos 1990

Não é sem considerável pesar – na condição de musicólogo – que admito ter ignorado até muito recentemente – e quase em sua totalidade – a importância do Pixies nos autos da música pop (ou comercial) recente. Obviamente que eu já estava a par da existência da banda comandada por Black Francis ou Frank Black (compositor/guitarrista/vocalista) e já havia balançado – em inúmeros episódios de minha trajetória de “pessoa musical” – ao som das composições mais “palatáveis” da trupe que também incluía a baixista/vocalista Kim Deal, o guitarrista Joey Santiago e o baterista Dave Lovering. Mas é que foi só muito recentemente que parei pra analisar produção/contexto e reconhecer a banda norte-americana formada no final dos anos 1980 como algo maior que um clássico – ainda que competente e interessante – clichê indie anacrônico. E então fecha-se (em meu folclore pessoal, antes ou depois de mais nada) a conta registrando o Pixies como um dos mais representativos mentores acidentais da tal “revolução” do rock alternativo yankee que tomou de assalto as rádios, as paradas de sucesso, a mídia especializada (ou nem tanto) e o imaginário do público consumidor de música durante boa parte da década de 1990 na forma de movimentos improváveis (porém absolutamente compreensíveis – ainda que não tão exatamente organizados como querem fazer crer) como o grunge e na consolidação de um nicho viável de produção relativamente distanciado do que se convencionou chamar de “rock” durante e logo após os anos 1980.

Com suas construções canhestras, lógica e execuções tipicamente amadoras (e de maneira alguma procuro destacar isso como um aspecto negativo – ao contrário) e energia produtiva tipicamente desligada da engrenagem músico-corporativo de sua época, o quarteto criado em Boston (Massachusetts) acabou inspirando, graças a sua estética (resumidamente baseada na espontânea, porém fresca – para a época -, alternância de dinâmica sonora [passagens mais “calmas” e trechos mais “explosivos”]) e conteúdo (as letras quase – se não completamente – surrealistas de Francis Black) absolutamente descompromissada com a agenda do “rock corporativo” (uma tentativa inata da indústria de, desconjuntadamente, ‘cercar’ o chamado ‘rock ‘n’ roll’ em um chiqueirinho povoado por mulheres, drogas e rebeldia de snooker bar) da época, o Pixies acabou fornecendo combustível intelectual (ainda que acidental, frise-se) para bandas embrionárias – à época – como o Nirvana. Basta pesquisar um pouco pra saber que – a despeito de influências um tanto óbvias quanto Melvins e o rock setentista – foi a tentativa (confessa, segundo minha pesquisa) de emular o som do Pixies que levou Kurt Cobain (só pra ficar em um exemplo que contempla o expoente “máximo” do grunge) a criar o hino “Smells Like Teen Spirit“. Isso posto, contemplemos o Pixies como uma das pedras fundamentais da liberdade criativa que, hoje, quase 30 anos depois de seu surgimento, se consolida no espectro praticamente ilimitado de bandas fazendo o que querem fazer a partir do “ponto de largada” do “rock”.

Originais & Originados – Rick James x Mc Hammer – “Super Freak”/“U Can’t Touch This”

Mc Hammer: numa rotina comum nos anos 1990 o cara pegou um sucesso de 20 anos antes e fez seu próprio hit

Mc Hammer: numa rotina comum nos anos 1990 o cara pegou um sucesso de 10 anos antes e fez seu próprio hit

Hoje em dia é difícil encontrar alguém que não conheça o sacolejante hit “U Can’t Touch This” (1990) do Mc Hammer. Na real, por experiência própria,  é só botar a referida canção no PLAY que todo mundo sai tremelicando magicamente. Pois acho que você – que, com certeza, já tremelicou ao som desse hit – gostaria de saber que o digníssimo Mc precursor das calças saruel pegou essa base poderosa emprestada do compositor/cantor de soul/funk Rick James e seu hit dos anos 1980Super Freak“. E a música pop é isso aí mesmo. Uma reciclagem permanente daquilo que faz a galera balançar. Não importa o tipo de calça que você escolha usar…

ORIGINAL – RICK JAMES – SUPER FREAK (1981)

ORIGINADA – MC HAMMER – U CAN’T TOUCH THIS (1990)

Originais & Originados – Joe South x Inner Circle – “Games People Play”

Inner Circle: uma das trupes mais animadas do reggae mundial revitalizou uma grande canção de crítica social do final dos anos 1960

Inner Circle: uma das trupes mais animadas do reggae mundial revitalizou uma grande canção de crítica social do final dos anos 1960

Uma das coisas que mais admiro quando olho para a história da música é a capacidade que as grandes canções parecem ter de se manter vivas ao longo do tempo por meio de covers, versões, citações e desconstruções. Aqui temos um bom exemplo disso, desconhecido por muita gente, inclusive.

Em 1968, o cantor e compositor norte-americano Joe South “estourou”  com a faixa “Games People Play” de seu álbum de estreia Introspect. Foi tanto sucesso que o single foi reeditado em um álbum homônimo em 1969, rendendo a South um Grammy no ano seguinte. Inspirada em um livro de mesmo nome lançado em 1964 pelo psiquiatra  Eric Berne, a canção (bem como o livro) trata dos “jogos” que as pessoas fazem em suas interações sociais e traz uma letra bastante acima da média.

Bem, eis que quase 30 anos depois, em 1994, a crítica social de “Games People Play” foi revisitada por uma das entidades mais festivas do reggae mundial: o Inner Circle em sua segunda encarnação (com o vocalista Calton Coffie), época de hits contagiantes como “Sweat (A La La Long)“. Embora o clima praiano da versão possa aparentemente esvaziar o peso dramático da composição original, a maneira como o Inner Circle de certa forma transformou a angústia de Joe South em uma celebração dos nossos problemas – condicionada extra-textualmente, pelo clima alegre, ao nosso potencial de efetivamente resolvê-los como sociedade [e não seria isso uma marca do reggae?] – é o que mais abrilhanta essa leitura da canção.

Em suma, uma autocrítica que envelheceu muito bem (infelizmente, se pararmos para pensar na atualidade da mensagem) em forma de música ao longo de quase três décadas.

ORIGINAL – JOE SOUTH – GAMES PEOPLE PLAY (1968)

ORIGINADA – INNER CIRCLE – GAMES PEOPLE PLAY (1994)