Da estante – Ventura (2003), Los Hermanos – ESPECIAL 10 ANOS

Los Hermanos: banda carioca ganhou seu lugar no rol dos "artistas respeitáveis" da música brasileira

Los Hermanos (da esq. para a dir.: Rodrigo Amarante, Marcelo Camelo, Rodrigo Barba e Bruno Medina): banda carioca ganhou seu lugar no rol dos “artistas respeitáveis” da música brasileira

Ventura (2003): aos 10 anos, o terceiro trabalho dos Los Hermanos descansa confortavelmente, com seus inevitáveis mas escassos pontos baixos, como um dos melhores e mais importantes discos de toda a produção brasileira

Ventura (2003): aos 10 anos, o terceiro trabalho dos Los Hermanos descansa confortavelmente, com seus inevitáveis mas escassos pontos baixos, como um dos melhores e mais importantes discos de toda a produção brasileira

Lançado em 2003 – e, portanto, completando uma década de prateleiras neste ano de 2013 – Ventura é o terceiro disco do quarteto carioca Los Hermanos. Lançado pouco depois de Bloco do Eu Sozinho (2001), registro que foi praticamente ignorado pela Abril Music – talvez porque a então gravadora do grupo esperasse uma nova “Anna Júlia” e tenha acabado com um “Todo Carnaval Tem Seu Fim” -, o álbum passou certo perrengue até ganhar as ruas. Ventura seria  igualmente lançado pela Abril Music, mas a gravadora acabou falindo no final de 2002, bem na época em que a banda já estava com o novo trabalho praticamente pronto para ser entregue.

Surpreendidos pela notícia, a banda formada na essência pelos compositores, guitarristas e vocalistas Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante, o baterista Rodrigo Barba e o tecladista Bruno Medina acabaria assinando com a BMG (atual Sony Music) e, enfim, em 2003, o disco seria comercializado. Mas não sem antes se tornar o primeiro álbum nacional da história a vazar na web sem estar completamente finalizado (até hoje é possível encontrar na internet essa versão ligeiramente diferente em termos de arranjos e letras e mais grosseira sonoramente do que o produto que chegou às lojas). Até então, mais peso pro lado negativo da ventura (que significa sorte, boa ou má) dos Hermanos (curiosidade: um primeiro nome foi cogitado para o trabalho – Bonança, de interpretação bem mais otimista).


A sorte do quarteto, no entanto, começou a mudar bem rápido. Com a atenção da gravadora (ao menos alguma atenção) e da imprensa (boa parte dela interessada no rescaldo da infame faixa que popularizou a banda, é verdade), o enxuto embora providencial tempo em rádios comerciais mais alternativas (lembre-se que estamos falando de 2003), a ajuda do pequeno mas entusiasmado culto indie que se formou em torno do grupo durante o ocaso pós-Anna Júlia e uma vigorosa turnê de shows de lançamento sem muitas pirotecnias mas com desempenho exemplar dos músicos no palco (incluindo o baixista Bubu e o simpatissíssimo naipe de metais que emoldura porção considerável do disco), o Los Hermanos se lançava – sem saber, muito provavelmente – em um dos voos mais interessantes e intensos protagonizado por uma banda brasileira nos últimos anos. Mas falemos do disco.

Com 15 faixas, produção assinada por Kassin, e pouco menos de uma hora de duração, Ventura parece destilar com maestria o produto sofisticado e intrigante – além de bastante diferente do que se estava fazendo no País naquele momento – que o quarteto começou a fermentar em Bloco do Eu Sozinho (que, por falar nisso, durante a meteórica projeção do novo disco, passou a ser procurado por fãs sedentos que haviam acabado de [re]descobrir o som dos cariocas), extremamente distinto, diga-se, da sonoridade registrada no primeiro álbum (Los Hermanos, 1999, Abril Music) . E não é que o hardcore com roupa de ska, abrasileirado e meio carnavalesco (de marchinha, não avenida) – pra ser bem resumitivo -,  que predominava no primeiro álbum (Los Hermanos, 1999) tenha simplesmente desaparecido do discurso musical da trupe capitaneada por Camelo e Amarante, mas é quase como se ele mesmo tivesse amadurecido extremamente rápido – e com um disco no percurso – sob a batuta da banda e se transmutado em um amálgama bastante escorregadio de rock alternativo, samba, bossa nova e “MPB” (se é que dá pra chamar isso de estilo) com uma assinatura bastante particular e que ainda ecoava, naturalmente, traços de seus tempos mais joviais aqui e ali.

E, já que estamos no campo “sonoridade”, embora o álbum tenha canções tão diferentes entre si quanto a faixa de abertura, o gostoso sambinha de guitarra “Samba a dois” (Camelo), e o rock mambembe “Um Par” (Amarante), Ventura mantém uma coesão impressionante – seria o “tempero” tão característico em ação? – e se impõe elegantemente no PLAY do início ao fim em boa parte das audições, por mais casuais que possam ser, a que é submetido. Com a licença de um reducionismo prosaico aqui, da “forma” ao “conteúdo”, o “universo” pintado pelos Hermanos em suas letras é outro fator que colabora para a “amarração” do disco, além de ter se calcificado ali como um dos principais atributos do grupo – embora a característica remonte, mais timidamente, claro, ao início da carreira e tenha sido grande responsável pelo fermento em Bloco. Transbordam nas canções de Camelo uma poética muito acima da média, bastante sonora e levemente lamuriosa enquanto se descortinam o amor e outras forças humanas e/ou “divinas”, enquanto as composições de Amarante se erguem em uma espécie surreal de labirinto simbólico sem paredes para o qual tampouco parecem existir entrada e saída definidas e no qual transcorrem – e se agigantam – múltiplas fotografias do cotidiano. E assim a dupla vai meio que dialogando entre si – como fazem na onipresente e quase  perfeita simbiose de suas guitarras, aliás (ops, voltamos à “forma”)  -, enquanto leva daqui pra lá, gentilmente, pelo braço e sem desvios bruscos, quem os escuta, até a nova instauração do silêncio – ou da próxima faixa da playlist, se for o caso.

Ao terminar, Ventura descansa confortavelmente, com seus inevitáveis mas escassos pontos baixos, até a próxima execução como um dos melhores e mais importantes discos de toda a produção brasileira (na opinião de críticos e listas diversas, incluindo ranking com curadoria da versão tupiniquim da Rolling Stone e votação aberta pela rádio Eldorado, de São Paulo, capital). De quebra, na conta do álbum também está pendurado (com a ajuda de fatores já mencionados) o frenético crescimento do culto ao quarteto (comparável, em dedicação e, segundo muitos, chatice, àquele  que cercou em outros tempos o Legião Urbana)  que, se colaborou – e muito – para a consagração da banda, também acabou provocando ojeriza em muitos, fechando,como consequência, bem mais do que alguns pares de ouvidos para o som do grupo.

O terceiro trabalho do Los Hermanos, que completa 10 anos em 2013, criou mais um espacinho no rol dos “artistas respeitáveis” da nossa música, lugar ocupado até hoje por “aqueles quatro caras do Rio” de maneira progressivamente mais propensa a dividir opiniões – de público e crítica – enquanto decorada com adereços como a postura da banda frente à imprensa (encarada frequentemente como “arrogante”), a morna, quase fria, recepção da mídia ao disco subsequente (4, de 2005), o hiato sem hora pra acabar que se prolonga desde 2007, quando os músicos resolveram “dar um tempo” interrompido até hoje apenas para alguns shows, e a consequente atenção dada na sequência aos projetos paralelos de cada um dos integrantes. Mas isso já é outra história. Por hora, você está convidado a celebrar comigo esse aniversário ao som de músicas que continuam tão vibrantes e ricas quanto no dia em que foram tocadas pela primeira vez. Parabéns, Ventura!


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