Arqueologia sonora – The White Stripes

Jack e Meg White, o White Stripes: dupla de blues rock garageiro deixou sua marca na música pop contemporânea

Jack e Meg White, o White Stripes: dupla de blues rock garageiro deixou sua marca na música pop contemporânea

O White Stripes foi, sem sombra de dúvida, um dos fenômenos mais curiosos da música pop contemporânea. Formado em Detroit (EUA), em 1997, fruto da parceria entre o compositor, guitarrista e vocalista Jack White e a baterista Meg White, o duo viria – em pouco mais de uma década – a conquistar o mundo com sua mistura crua, suja e amalucada de rock, blues, punk e country.

Apresentando-se a princípio como irmãos (mais tarde descobriu-se que os dois podem ter sido casados no passado), Jack, com sua voz esganiçada e potente e sua virtuose bruta na guitarra, e Meg, cujo estilo na bateria já foi definido educadamente como “minimalista”, chamaram a atenção do público logo de cara, ao excursionar com Pavement e Sleater-Kinney pelos Estados Unidos.

Na onda da relativa popularidade recém-adquirida na época, a dupla debutou em 1999 com o disco homônimo The White Stripes. O álbum de estreia soava como um belo revival do garage rock, econômico e cheio de energia, estabelecendo os fundamentos da sonoridade que a dupla iria aperfeiçoar nos lançamentos seguintes. “Jimmy the Exploder“, a faixa de abertura, funciona como uma carta de intenções – sujona e blueseira -, enquanto a calminha “Do” mostrava que também havia um lado mais terno nos White.

The White Stripes (1999): o debute da dupla

The White Stripes (1999): o debute da dupla


Um ano depois, em 2000, veio De Stijl (que significa “o estilo” em holandês, uma homenagem à vanguarda artística holandesa neoplasticista). Em consonância com o título, o segundo álbum mostrava um White Stripes mais disposto a experimentar com diferentes formatos. Tanto que havia espaço, ali, para que a estranha, bonitinha e romântica “You’re Pretty Good Looking (For a Girl)” fosse escolhida para abrir o disco. No entanto, os “irmãos” White deixavam bem claro que não arredariam pé dos pantanosos terrenos do blues, como logo provava a cativante “Hello Operator“, pontuada por pequenas exibições de habilidade guitarrística de Jack nos intervalos da narrativa. Até uma gaita dava as caras a certa altura da canção!

De Stijl (2000): segundo álbum da banda foi batizado em homenagem à vanguarda artística holandesa neoplasticista

De Stijl (2000): segundo álbum da banda foi batizado em homenagem à vanguarda artística holandesa neoplasticista

Embora já não pudessem ser considerados completos desconhecidos na cena musical norte-americana após lançar dois álbuns muito bem recebidos por crítica e público, ainda faltava ao White Stripes um salto significativo em direção à grande audiência. Mas ele veio. Em 2001, Jack e Meg botaram na praça White Blood Cells, disco que os tornou uma das bandas mais aclamadas da época, rendendo à dupla a capa da revista Rolling Stone, entre outras demonstrações de apreço da mídia e do público. O álbum retratava um White Stripes mais maduro, com uma produção polida na medida exata para torná-los um sucesso pop sem aparar as arestas que conquistaram os primeiros fãs do duo, ainda no underground. Alavancado pelo sucesso quase instantâneo da enérgica e garageira “Fell in Love with a Girl” e seu clipe feito com Lego dirigido por Michel Gondry (veja abaixo), o terceiro disco dos “irmãos White” era bom do início ao fim, condensando com eficiência a energia primária da banda ao mesmo tempo em que abria espaço para os habituais desvios de percurso estético caros à dupla – como o apressado passeio country de “Hotel Yorba“. White Blood Cells acabaria vendendo mais de 500 mil cópias.

White Blood Cells (2001): terceiro disco alçou o White Stripes ao sucesso

White Blood Cells (2001): terceiro disco alçou o White Stripes ao sucesso

Em 2003, provando ser bem mais do que uma das inúmeras novidades passageiras do rock surgidas nos anos 2000, o White Stripes lançou Elephant, primeiro disco a sair por uma grande gravadora e considerado por muitos a obra-prima definitiva da dupla. O quarto trabalho de estúdio refletia o momento vivido pela banda e a forma como Jack e Meg (bastante avessos à exposição pública desenfreada, como já se tinha percebido)  lidavam com o estrondoso sucesso.

Ao mesmo tempo em que trazia hits de “gente grande” como a épica “Seven Nation Army” (maior sucesso da história do duo) e seu riff hipnótico e dançante, além da poderosa releitura de “I Just Don’t Know What to Do with Myself“, canção de Burt Bacharach que ganhou um clipe sensual estrelado pela modelo Kate Moss, duas músicas que pareciam intencionalmente selecionadas para agradar à massa, Elephant também registrava com primazia a personalidade sonora sui generis do White Stripes, carregando versões bem produzidas de canções que poderiam muito bem – conceitualmente – figurar nos primeiros lançamentos álbuns da dupla.

Embora muitas vezes soasse consideravelmente mais sombrio e difícil que seu antecessor – talvez uma forma inconsciente de Jack e Meg repelirem o apelo pop que cercava a banda -, o disco vendeu muito bem, ocupou o topo das paradas de sucesso e foi aclamado pela crítica e pelo público, conquistando até mesmo o Grammy de Melhor Álbum de Música Alternativa em 2004. Querendo ou não, estava claro que o White Stripes havia atingido o topo.

Elephant (2003): considerado a obra-prima do White Stripes, álbum mesclava hits "de gente grande" com canções dignas dos primeiros registros da banda

Elephant (2003): considerado a obra-prima do White Stripes, álbum mesclava hits “de gente grande” com canções dignas dos primeiros registros da banda

Em 2005, apenas um ano após Elephant, a banda já não tinha nada a provar pra ninguém. Talvez por isso mesmo Jack White tenha decidido, seguindo a prolífica tradição do White Stripes, gravar Get Behind Me Satan (álbum lançado no mesmo ano) em sua própria casa, experimentando com todo tipo de instrumento – de piano a marimba. Embora soasse como uma esforçada tentativa de se distanciar da sonoridade “clássica” da banda, ao reunir uma coleção de  canções repletas de elementos novos e com uma postura criativa bastante relaxada e ousada (ainda que bastante sólida), o disco se revelou o sucessor perfeito para Elephant, caindo mais uma vez nas graças do público e da crítica mesmo sem ter o mesmo apelo comercial.

Dado o contexto, “Blue Orchid“, primeiro single do álbum, já indicava que se tratava de um momento diferente e marcante na trajetória da banda. Em seguida, “My Doorbell“, segunda escolhida para representar comercialmente o novo trabalho, aprofundava essa mesma percepção com seu piano alegre e levada contagiante. Era o White Stripes aproveitando a vida suavemente depois de garantir seu lugar entre os custódios da “nova cara” do rock.

Get Behind Me Satan (2005): sem ter que provar mais nada a ninguém, a banda embarcou no experimentalismo tentando se distanciar de sua clássica assinatura sonora

Get Behind Me Satan (2005): sem ter que provar mais nada a ninguém, a banda embarcou no experimentalismo tentando se distanciar de sua clássica assinatura sonora

O ano de 2007 trouxe consigo um retrato bastante particular – e, como descobriria-se mais tarde, extremamente significativo – da trajetória do White Stripes. Na época, as duas metades do grupo já haviam deixado Detroit, sua cidade natal. Meg White foi para Los Angeles enquanto Jack (casado novamente) se estabeleceu em Nashville, tendo lançado com considerável sucesso a banda The Racounteurs, com quem havia excursionado durante boa parte do ano anterior, além de ter se ocupado com diversos projetos paralelos na condição de músico e produtor – a hiperatividade do rapaz chegou a fazer com que os fãs suspeitassem de um silencioso fim de sua primeira banda.

Contrariando as suspeitas mais pessimistas, naquele mesmo ano o White Stripes botou na praça Icky Thump, gravado na cidade do Tennessee em que Jack escolhera morar. Responsável pela conquista de mais um Grammy, o álbum parecia seguir a tendência experimental de seu antecessor, embora também marcasse um “retorno” da guitarra como ponto de referência – em contraste com o aparente abandono do instrumento registrado em Get Behind Me Satan. No fim das contas, o novo disco soava – apesar dos vários momentos de arrojo formal, tal qual a fragrância hispânica de “Conquest” – como um vigoroso e áspero retorno às origens do duo, mas um retorno impregnado de toda a experiência, auto-confiança e coragem conquistadas ao longo do caminho.

Embora pudesse ser considerado – sem desprezar sua evidente qualidade – pouco mais do que outra consistente adição à já substancial discografia da banda, Icky Thump também carregava, secretamente, um grande motivo para diferenciação: ainda não era sabido, talvez nem mesmo pela própria banda, mas o álbum seria o último registro de estúdio do White Stripes.

Icky Thump (2007) - um "retorno às origens" que acabaria sendo o canto do cisne do White Stripes

Icky Thump (2007) – um “retorno às origens” que acabaria sendo o canto do cisne do White Stripes

Os anos seguintes mostraram um Jack White cada vez mais ocupado com outros projetos – como o segundo disco do The Racounteurs (2008) e a formação de uma nova banda, The Dead Weather, que também contava com a vocalista Alison Mosshart (The Kills). Daquela vez, ficava cada vez mais aparente que o White Stripes estava relegado ao segundo plano entre as prioridades do compositor. No entanto, a eventual dissolução da banda nascida em Detroit ainda não passava de suposição – pode-se imaginar que, a esta altura, acreditava-se que quando menos se esperasse a dupla se reuniria novamente.

Em 2010, enquanto o White Stripes completava um inédito hiato de 2 anos, saiu Under Great White Northern Lights, um belo (e inédito) registro em áudio e vídeo da experiência arrebatadora que era presenciar uma apresentação da dupla ao vivo. Composto por gravações da turnê da banda pelo Canadá em 2007, o material resumia de forma bastante competente a discografia do duo, representada ali por uma coleção de 16 canções executadas, nos palcos, com evidente entusiasmo por Jack e Meg White. Destaque absoluto para a indefectível performance na comovente versão de “Jolene” (de Dolly Parton), espécie de clássico informal da banda.

Under Great White Northern Lights (2010): um registro em áudio e vídeo da experiência arrebatadora que era presenciar uma apresentação da dupla ao vivo

Under Great White Northern Lights (2010): um registro em áudio e vídeo da experiência arrebatadora que era presenciar uma apresentação da dupla ao vivo

 

Em fevereiro de 2011 a banda finalmente anunciou, através de seu site oficial, o fim do White Stripes. A notícia surpreendeu muita gente, apesar das muitas dúvidas que já haviam se instalado a respeito do futuro do duo. Após 13 anos e seis discos de estúdio, se encerrava “por uma miríade de razões” e para “preservar o que há de bonito e especial na banda”, segundo comunicado publicado no site, a inusitada colaboração de Jack e Meg White, responsável por deixar uma inconfundível marca na história da música pop e influenciar inúmeras bandas iniciantes, algumas delas bastante promissoras.

Após o fim do White Stripes, Meg e Jack tomaram caminhos diferentes. Ela seguiu discretamente com sua vida, enquanto ele continuou ativo como sempre no mundo da música – seu primeiro álbum solo, o elogiado Blunderbuss, sairia em 2012.

De qualquer forma, hoje, dois anos depois de uma separação que tem toda a pinta de ser definitiva, continuam muito bem traçados os contornos do impacto cultural causado pelo White Stripes, bem como se mantem acesa entre os fãs a esperança de que a dupla volte a se encontrar para chacoalhar – como de costume – as estruturas da produção musical da atualidade. E mesmo que tal reunião seja improvável, torcida é o que não falta!

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About O musicólogo

Musicologia é o estudo científico ou mesmo a ciência da música. Considera-se musicologia a atividade do musicólogo enquanto ofício do pesquisador em música, diferenciando-se das outras duas grandes áreas da música: a invenção (ofício do compositor) e a interpretação/performance (ofício do instrumentista, cantor ou regente).

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