Vídeo da semana – Commander Chris Hadfield, “Space Oddity” (2013) – Uma versão de David Bowie gravada em pleno espaço sideral

O astronauta canadense Comandante Chris Hadfield - atual tripulante da Estação Espacial Internacional - resolveu registrar, em pleno espaço, uma comovente versão da canção "Space Oddity", composta originalmente por David Bowie

O astronauta canadense Comandante Chris Hadfield – atual tripulante da Estação Espacial Internacional – resolveu registrar, em pleno espaço, uma comovente versão da canção “Space Oddity”, composta originalmente por David Bowie

Esse aí obviamente já era pra ter sido escolhido e publicado como “Vídeo da semana” logo que saiu (no dia 12/05/13). No entanto, alguns contratempos acabaram me atrasando, e o registro ficou só para agora. Bem, não importa. Dada a magnitude do lance todo, bora corrigir – antes tarde do que nunca.

Pois bem: acontece que dia desses o astronauta canadense Comandante Chris Hadfield – atual tripulante da Estação Espacial Internacional – resolveu registrar (em pleno espaço sideral, gravitando em torno da órbita da Terra) uma comovente (ainda mais levando-se em conta as circunstâncias) versão da canção Space Oddity“, composta originalmente por David Bowie para o álbum homônimo Space Oddity (de 1969).

O vídeo gravado por Hadfield, além de impressionar pelas circunstâncias características da rotina de uma estação espacial (como a ausência de gravidade e a impressionante e bela visão do globo terrestre registrada do espaço, por exemplo), emociona por conta da entrega do astronauta à interpretação (que eu chego a considerar melhor que a original, pra você ter uma ideia) e, enfim, pela colocação no contexto “apropriado” – atualmente, pela evolução da tecnologia exploratória espacial terrestre – da música que, há mais de 40 anos, versava sobre as agruras das viagens espaciais.

Enfim, coisa belíssima de se ver! Tenho certeza que o Bowie ficou orgulhoso!

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Resenha – Queens of the Stone Age, …Like Clockwork (2013)

Queens of the Stone Age em sua formação mais recente (Josh Homme é o segundo da direita para a esquerda): novo álbum é difícil de analisar, mas parece deixar pistas do caminho que a banda pode seguir

Queens of the Stone Age em formação recente (Josh Homme é o segundo da direita para a esquerda): novo álbum é difícil de analisar, mas parece deixar pistas do caminho que a banda pode seguir

...Like Clockwork (2013): novo álbum soa surpreendentemente mais como uma pista confiável dos caminhos que o Queens parece disposto a seguir daqui pra frente do que como mais uma extravagância naturalmente circunstancial

…Like Clockwork (2013): novo álbum soa surpreendentemente mais como uma pista confiável dos caminhos que o Queens parece disposto a seguir daqui pra frente do que como mais uma extravagância naturalmente circunstancial

Desde que foi anunciado, o novo álbum do Queens of the Stone Age já estava empatado no páreo pelo título de “disco mais esperado do ano” com o Random Access Memories, do duo francês Daft Punk (também falarei dele em breve). Talvez tenha sido por isso que …Like Clockwork, o ainda vindouro (oficialmente) trabalho de Josh Homme e companhia (previsto para sair no início de junho), tenha vazado exatamente um dia depois que o mais recente disco da dupla robótica de música eletrônica acabou se multiplicando – antes da hora – feito gripe pela rede (era pra sair em 20 de maio, mas uma semana antes disso já era possível encontrá-lo para download em sites diversos). Talvez nada disso tenha sido planejado e ambas as bandas só tenham acabado mesmo  tendo que lidar com um expediente pra lá de comum em tempos de conexões de banda larga.

De qualquer maneira, é preciso dizer que, nos últimos meses, tanto o Daft Punk quanto o Queens of the Stone Age já estavam dando um show de comunicação e marketing pré-lançamento, utilizando principalmente a internet. Estes últimos fizeram um uso magistral de seu canal no YouTube, publicando diversos vídeos – animações – “sonorizados” por algumas das faixas então inéditas e amarrados por um aparente conceito único, tanto em estilo quanto em narrativa. Ao mesmo tempo em que aumentavam a expectativa dos fãs, esses teasers (muitos dos quais estão publicados ao longo deste post para apresentar as faixas já divulgadas oficialmente pela banda) deixavam no ar a impressão de que o novo trabalho seria mais um álbum pesado, complexo e conceitual na discografia do QOTSA (tal qual o celebradíssimo Songs for the Deaf, de 2002, guardadas as devidas proporções).

Some-se a isso declarações intrigantes da banda à imprensa especializada e a divulgação de que o álbum contaria mais uma vez com Dave Grohl (Foo Fighters, Nirvana) na bateria (como em Songs for the Deaf) e com a participação de convidados do calibre de Nick Oliveri (ex-baixista e vocalista da banda), Trent Reznor (Nine Inch Nails), Alex Turner (Arctic Monkeys) e (pasme!) Sir Elton John, e tinha-se aí um fenômeno discográfico só esperando para nascer.

Bom, já que consegui botar a mão na massa antecipadamente, vamos de uma vez à análise do produto final (e que fique a recomendação: se você é fã de verdade, compre o oficial! Apoie as bandas de que você gosta! Seja em formato físico, seja no iTunes ou similares):

… Like Clockwork, sexto álbum de estúdio do QOTSA, é difícil de se comentar superficialmente. Um bocado mais difícil que o restante da discografia da banda (o que já não é pouca coisa). A primeira impressão mais nítida que se tem depois de algumas audições é a de que, após cinco discos bastante diferentes entre si – mas que parecem, de certa forma, dar a deixa um para o outro -, a inconstante trupe capitaneada pelo vocalista, guitarrista e compositor absoluto Josh Homme continua em uma espécie de busca interminável por um formato no qual se encaixar, em um prolífico e bem-vindo desconforto com aquilo que poderíamos chamar de “sua identidade”. Em retrospecto, apesar do “sotaque” facilmente identificável, a banda nunca conseguiu se acomodar – e talvez esteja aí o seu maior mérito.


Relembremos rapidamente (ou quase; você pode pular este e os três próximos parágrafos, se quiser, sem prejuízo nenhum), e com propósitos eminentemente pedagógicos, essa trajetória: Queens of the Stone Age (1998), o debute que veio três anos após Homme e Oliveri deixarem o finado Kyuss – um dos grandes representantes daquilo que chamaríamos de stoner rock -, era o retrato empolgante, vigoroso e imaturo de um novo grupo tentando mostrar ao mundo seu estilo, sua proposta, que, apesar de ainda dever muito às origens de seus membros fundadores, já era um pouco mais intrigante que a média, bem ao gosto de um novo milênio na história da música. O sucessor Rated R (2000) já mostrava uma banda mais confortável com suas raízes, embora igualmente disposta a experimentar – seja com a constante e por vezes impenetrável auto-referência, seja com violentas cutucadas na membrana que parecia definir os “limites” do rock -, e que ia conquistando silenciosamente o respeito da crítica e do público mais predispostos.

Foi então que o terceiro trabalho, Songs for the Deaf (2002), que, embora estivesse longe de ser uma unanimidade pop ou mesmo um disco de fácil absorção – como eu já disse, mesmo sem parecer tanto tratava-se de um álbum conceitual, cujas suítes psicodélicas, pesadas e hipnóticas até hoje são praticamente ignoradas pelos fãs de última hora -, acabou ganhando a simpatia generalizada e ainda mais ampla de público e crítica e chegou a ser encarado como o som do Queens of the Stone Age “em estado puro” depois de duas esforçadas tentativas anteriores de destilação em formato de disco. Pra ajudar, Homme convidara Dave Grohl, que já gozava de prestígio praticamente inabalável por sua história com o Nirvana e com o Foo Fighters, para assumir, em estúdio, as baquetas (coisa que o tal cidadão sempre fez MUITO BEM, melhor que qualquer outra, na minha modesta opinião), além de contar com palhinhas vocais de Mark Lanegan (ex-Screaming Trees) aqui e ali. Não tinha como dar errado. O álbum chocou (no sentido mais positivo da palavra) todo mundo e colocou a banda definitivamente no mapa do rock contemporâneo.

Foi logo depois disso que, na minha opinião, a beleza da inconstância característica do QOTSA deu sinais mais altos, claros e definitivos. Passados três anos, em 2005, a banda colocava na praça Lullabies to Paralyze, disco que deve ter dado uma rasteira considerável naqueles que esperavam uma continuação óbvia de Songs for…. Porque, em vez de simplesmente se repetir, ali os músicos somavam aos mais poderosos contornos de sua obra anterior uma aparente vontade de testar ainda mais os limites do gênero ímpar que acabavam de criar para eles mesmos. Ao peso contagiante, venenoso e algo psicodélico dos álbuns anteriores (em especial ao disco imediatamente anterior), a banda adicionou um experimentalismo ainda mais desvairado e um admirável descompromisso com as fórmulas às quais já havia recorrido. De certa forma, Lullabies… foi uma prova de que Homme e seus comparsas estavam decididos a não permanecer por muito tempo no mesmo lugar.

Comprovando, de certa forma, toda a tese exposta anteriormente, em 2007 o QOTSA veio com Era Vulgaris, uma veloz, suja e sacana negação frontal do patamar que eles mesmos haviam alcançado dois anos antes. Para alguns, o disco foi uma revigorante “volta às origens”, uma visita – protagonizada por um time evidentemente mais maduro – aos supostos “fundamentos” do som que, aparentemente, caracterizaria o “estilo” da banda. Discordo. Enxergo ali – haja vista que considero Era… um dos álbuns menos interessantes da discografia do Queens – uma relaxada, escandalosa e gratuita (na medida, apertada, em que é possível atribuir tal adjetivo à trajetória do grupo) ruptura (possivelmente premeditada?) com quaisquer expectativas que pairassem naquele momento sobre o bando de Homme. Teriam eles feito de propósito? Será que bolaram intencionalmente – para o lançamento que marcaria justamente o fim de um longevo contrato com a gravadora Interscope – uma obra difusa, áspera e absolutamente despreocupada com qualquer prognóstico comercial e de crítica? Talvez… Com a balada sexy “Make It Wit Chu” (e seu clipe carregado de hormônios) encarregada de fazer a frente radiofônica do disco e a esquizofrênica “Sick, Sick, Sick” (e seus ecos que remetiam ao já saudoso diamante stoner “Feel Good Hit of the Summer” – de Rated R) carregando a responsa de legitimar o álbum para uma parcela mais “conservadora” da audiência cativa (em que se pese o conhecido, imprevisível e extravagante composto sonoro que poderia se esperar do Queens), o lançamento se safou consideravelmente bem, principalmente – na minha opinião – por parecer, paradoxalmente, um sinal de que o QOTSA (apesar de configurar uma clara guinada estética em aparente marcha ré acelerada) havia, finalmente, abraçado uma fórmula confortável sobre a qual se estabelecer. Isso sem mencionar a evidente preguiça da crítica especializada, muito mais lenta em demolir um mito criado por ela mesma do que em sagrar um novo medalhão da indústria cultural.

Ok, já passa da hora de voltarmos a …Like Clockwork e seus méritos. Sigamos. No fim das contas vai acabar sendo pano rápido, que já gastei teclado demais nessa inchada (ainda que justificável, musicologicamente necessária, até) viagem no tempo. Confirmando a única constante aparente na obra do Queens of the Stone Age, o novo álbum cristaliza, uma vez mais, o retrato de uma entidade musical desesperadamente desconfortável com a ideia de repetição e continuidade. O novo disco, com suas 10 faixas e pouco mais de 45 minutos de duração, se descortina como um terreno absolutamente simpático à criatividade sempre efervescente de Homme (representante único da formação inicial da banda – e, nesse ponto, “dono” incontestável do “projeto” QOTSA) e à proposta absolutamente experimental, descompromissada, e volátil do compositor.

No entanto, por qualquer que seja a razão (ainda que puro palpite ou mera intuição), …Like Clockwork soa surpreendentemente mais como uma pista confiável dos caminhos que o Queens (e seu mentor) parece disposto a seguir daqui pra frente do que como mais uma extravagância naturalmente circunstancial. Levando-se em consideração que Josh Homme acaba de mergulhar nos 40,  já acumula passagens musicais memoráveis no currículo, além de ter vivido tudo e mais um pouco daquilo que seu estilo de vida pode proporcionar durante mais de duas décadas (embora também tenha, nesse meio tempo, arranjado tempo para constituir família), é de se compreender o clima mais sedimentado (embora ainda aventureiro) da obra. Do ponto de vista puramente formal, …Like Clockwork não chega a rasgar as blueprints arregimentadas pela banda durante seus 15 anos de trajetória. Ao contrário, o apanhado de canções de agora parece se beneficiar com extrema maestria e renovada ousadia dos caminhos trilhados anteriormente pelo grupo. Assim, o disco parece uma grande e diversificada celebração da trajetória do QOTSA até agora, ao mesmo tempo em que ainda permite que Homme coloque para fora, brilhantemente e na condição definitiva de bandleader, costuras líricas confessionais nunca antes suportadas de forma tão natural pelas narrativas intensas, de certa forma maníacas e hedonistas gestadas por ele mesmo e por seus comandados.

E, a propósito de tal entrega lírica intensa, sem sombra de dúvida o ruivo grandalhão (Homme) se torna o protagonista absoluto aqui – e já não era mesmo a hora, numa levada completamente natural e compreensível? – e com merecido louvor. O papel naturalmente dominante do frontman é tão evidente, merecido e cuidadosamente trabalhado no álbum que – bem ao gosto do espírito coletivo do QOTSA, aqui fatalmente exacerbado – as tão incensadas participações especiais das quais já falamos (incluindo Elton John, não se esqueça!) passam quase que completamente despercebidas, absolutamente a serviço do contexto  (fica aí o desafio: procure distingui-las no contexto do disco).

Trocando em miúdos, … Like Clockwork pode ser apenas mais um álbum para engrossar a discografia do Queens of the Stone Age, ainda que definitivamente não o seja. Minha aposta pessoal com relação a esse disco, que fica melhor a cada audição (o que, de forma alguma, significa que ele é ruim ou fraco, como se poderia pensar depois de tal qualificação), é que, contrariando toda a história construída até aqui, ele marca, de forma contundente, um novo capítulo na história da banda. Talvez uma passagem a  partir da qual Josh e sua gangue se vejam, finalmente, preparados para agarrar com determinação um pedaço seguro de rocha e, a partir dele, construir um caminho mais coerente e confortável – sem nunca deixar, como se espera, que a obviedade  se instale -, um caminho que apenas beneficie o potencial que eles já provaram ter. Até porque, olhando para …Like Clockwork, não consigo deixar de acreditar que possamos esperar, daqui pra frente, inesquecíveis, belos e comoventes manifestos gestados a partir daquilo que convencionamos chamar de música contemporânea. Vida longa ao QOTSA!

Originais & Originados – Ben E. King (1961) x John Lennon (1975) x Sean Kingston (2007) – “Stand by Me”(x2)/”Beatiful Girls”

Ben E. King: obviamente dá pra apostar que ele não imaginava que seu maior hit, "Stand by Me", seria revisitado por John Lennon e transformado por Sean Kingston em uma canção completamente nova e com a cara do terceiro milênio

Ben E. King: obviamente dá pra apostar que ele não imaginava que seu maior hit, “Stand by Me”, seria revisitado por John Lennon e transformado por Sean Kingston em uma canção completamente nova e com a cara do terceiro milênio

É óbvio que, em 1961, quando Ben E. King lançou a canção “Stand by Me” em formato de single para suceder seu primeiro disco solo, o cantor de soul recém-saído do grupo The Drifters sequer imaginava o enorme e inusitado caminho que sua mais famosa criação percorreria pelas décadas seguintes. Composta pelo norte-americano King, junto com os co-autores Jerry Leiber e Mike Stoller, a música fez tanto sucesso na época que acabou reeditada no álbum Ben E. King Sings for Soulful Lovers, de 1962. Pudera: até hoje é difícil explicar a mágica da canção, que, de tão romântica, parece falar de amor enquanto, na verdade, versa sobre a amizade – não por acaso, ela acabou como trilha do aclamado filme adolescente Conta Comigo (Stand by Me, no original; 1986). Isso sem falar na melodia e na levada, ambas simples, porém hipnotizantes, elegantemente decoradas com um arranjo orquestrado que dá um tom sublime ao produto final. E o que dizer da inconfundível linha de baixo que conduz toda a canção e que acabou se tornando uma marca registrada? E da voz  de King, poderosa e ao mesmo tempo doce? Enfim, um clássico absoluto que agradou, agrada e continuará a agradar às mais variadas audiências.

ORIGINAL – BEN E. KING – STAND BY ME (1961)

Ponto.

Abre parágrafo.

Estamos agora em 1975, e o ex-Beatle John Lennon, já vivendo em Nova York desde 1971, decide lançar um disco composto apenas por versões, recheado de músicas que gravitavam relativamente próximas à órbita do rock (passeando descompromissadamente também pelo soul e pelo R&B). Honestamente intitulado Rock ‘n’ Roll, o álbum trazia, entre outras interpretações pitorescas e preciosas (como “Be-Bop-A-Lula” e “Sweet Little Sixteen”), uma releitura bastante visceral de Lennon para a já (à época) clássica “Stand by Me“. Apesar do arranjo bem mais econômico e da performance vocal/emocional  puxada para o agridoce de Lennon, a homenagem do ilustre cidadão de Liverpool (que, ao início da faixa, confessa saber a letra de cor desde seus 15 anos de idade) a King saiu tão boa que até hoje provoca dúvidas em muita gente sobre a verdadeira autoria da canção.

ORIGINADA – JOHN LENNON – STAND BY ME (1975)

Próximo capítulo.

Ao longo das décadas posteriores, “Stand by Me” seguiu ocupando confortável e merecidamente seu posto entre os inúmeros clássicos da música pop a figurar, em tempos mais recentes, naquelas coletâneas do tipo oldies but goodies. Isso até o ano de 2007 (talvez antes mesmo disso, mas sigamos com o exemplo), quando se juntou à incomensurável lista de produtos da indústria cultural abraçados pela dimensão mais, digamos, reinterpretativa, dessa nossa cultura de terceiro milênio. Naquele momento da história, sabe-se lá como, a canção que pintava uma amizade inabalável nos anos 1960 serviu de alicerce para um lamento pra lá de contemporâneo (e extremamente grudento) sobre as tendências suicidas que supostamente se apossam dos garotos “comunzinhos” que conseguem provar a sensação de estar com uma garota bonita até que ela, eventualmente, lhes dá um vigoroso pé na bunda.

A cena escalafobética é cortesia do garoto jamaicano Sean Kingston, que, retrabalhando levemente a base instrumental de “Stand by Me“, deu à luz o hit “Beautiful Girls“, presente em seu debute homônimo Sean Kingston (2007), lançado quando o cantor de rap pop tinha apenas 17 anos. E, pensando especialmente na idade do rapaz, tenha ele sido ajudado por produtores mais experientes ou não, a música resultante do cruzamento entre uma sequência de samplers nascidos 50 anos antes e o talento malaco-prodígio e a letra inteligente do estreante tem mais que só um punhadinho de méritos. Na época em que ganhou as ruas (e até por um bom tempo depois disso), “Beautiful Girls” foi um estandarte pop virtualmente onipresente em rádios comerciais e nas infames coletâneas “queimadas” de qualquer jeito em CD-R e reproduzidas (geralmente) em altíssimo volume por sistemas de som automotivos exageradamente dimensionados – coisa que não se alcança somente com jabá ou com a insistência dos departamentos comerciais das FMs.

É claro que hoje chega a ser vergonhoso (para quem se importa com a vida útil dos singles comerciais, seja lá o que for isso) escutar publicamente o sucesso de Kingston (que, por sinal, nunca mais emplacou nada digno de nota), mas isso não minimiza, de maneira alguma, o poder pop da canção que, intencionalmente ou não, trotou alegremente por uma trilha em que já pisara John Lennon e o próprio “pai da criança”, Ben E. King. A vida é mesmo uma loucura.

ORIGINADA – SEAN KINGSTON – BEAUTIFUL GIRLS (2007) – Sampleou a canção original

Fim.

Postscript.

Em 2008, um ano depois de Sean Kingston, a “Stand by Me” original ganhou outra homenagem, muito mais literal, mas igualmente adaptada aos tempos atuais. Em uma iniciativa organizada pelo movimento Playing for Change – criado para “inspirar, conectar, e trazer paz ao mundo através da música” -, primeiro projeto do grupo, aliás, a canção ganhou a forma de uma versão constituída pela combinação de trechos da música executados por diversos músicos de vários lugares do mundo (de profissionais a artistas de rua), munidos de inúmeros instrumentos. O resultado, além de extremamente competente do ponto de vista musical, é pra lá de emocionante. Dá uma conferida aí embaixo.

BÔNUS TRACK – PLAYING FOR CHANGE – STAND BY ME (2008) – Projeto colaborativo com músicos do mundo todo

Até a próxima!

É ruim, mas eu gosto – 50 Cent, “In Da Club” (2003)

Cena do clipe de "In Da Club", do rapper 50 Cent: além de me levar a uma enorme digressão sócio-cultural sobre o rap, a canção se encaixa perfeitamente na categoria de músicas ruins mas gostáveis

Cena do clipe de “In Da Club”, do rapper 50 Cent: além de me levar a uma enorme digressão sócio-cultural sobre o rap, a canção se encaixa perfeitamente na categoria de músicas ruins mas gostáveis

Pessoalmente, tenho mais do que algumas reservas a respeito da música rap comercial produzida recentemente, especialmente com relação à variante gangsta. Daria pra ficar horas aqui escrevendo por que acho que algumas correntes do rap (especialmente aquela que acabei de citar) acabaram, conscientemente ou não, transformando uma admirável expressão artística da realidade enfrentada por grupos historicamente marginalizados em uma deturpada, surreal e nociva reprodução do ideário que mantém o status quo (o mesmo status quo parcialmente culpado pelo processo de exclusão social desses mesmíssimos grupos marginalizados). No meu ponto de vista, tal apropriação temática da onipresente receita neoliberal de vida por artistas egressos das camadas mais desfavorecidas da população – possibilitada pela veloz lógica do êxito comercial no mundo da música pop -, apesar de plenamente justificável (afinal, vivemos em uma sociedade que rejeita o fracasso e glorifica o êxito – personificado pela capacidade de se ganhar dinheiro e consumir), é, no mínimo, desanimadora do ponto de vista da contribuição sociológica daqueles que “venceram” para com o substrato social do qual emergiram. Bem, como eu disse, é uma conversa longa e polêmica. Vamos pular de uma vez para a parte divertida.

In Da Club” é a música que botou o rapper norte-americano 50 Cent (nascido Curtis James Jackson III) no mapa do rap comercial dos EUA. Presente em seu debute fonográfico Get Rich or Die Tryin’ (2003) [depois desse título, que tal reler o parágrafo anterior?] – lançado e divulgado com ostensiva ajuda dos padrinhos Dr. Dre e Eminem, que inclusive aparecem no clipe da canção (veja abaixo) – a faixa celebra uma luxuosa ida a um nightclub da moda, e o voluptuoso flerte encenado pelo protagonista com o objetivo de seduzir uma bela garota (a tal “shawty”, gíria adaptada de “shorty” [pessoa de baixa estatura, em inglês] repetida várias vezes na letra e que pode se referir a uma mulher bonita). Mais uma vez fica a sugestão de reler o primeiro parágrafo do post.

De qualquer maneira, seja ou não uma contribuição para o estereótipo muitas vezes perpetrado pelos artistas do gangsta rap (diversão, dinheiro, mulheres, armas, drogas, crimes e coisas caras em geral), “In Da Club” é uma gema pop com a cara do nosso tempo (mesmo 10 anos depois): indubitavelmente pobre do ponto de vista musical e lírico (não deixe de dar uma espiada na versão uncensored da música), mas extremamente carregado de uma irresistível vibe sacolejante e divertida. Sem dúvida é ruim, ainda mais se você quiser considerar minhas divagações sócio-culturais, mas, ao mesmo tempo, é inegavelmente boa, especialmente se executada em ambientações “dançantes” diversas.

Acerta o PLAY e deixa isso tudo aí em cima descer pelo sistema digestivo. É a recomendação sincera do musicólogo.

In Da Club – 50 Cent (2003)

Go, go, go, go
Go, go, go shawty
It’s your birthday
We gon’ party like it’s your birthday
We gon’ sip Bacardi like it’s your birthday
And you know we don’t give a fuck
It’s not your birthday!
[Chorus] (2x)
You can find me in the club, bottle full of bub
Look mami I got the X if you into taking drugs
I’m into having sex, I ain’t into making love
So come give me a hug if you into to getting rubbed
[Verse]
When I pull out up front, you see the Benz on dubs
When I roll 20 deep, it’s 20 knives in the club
Niggas heard I fuck with Dre, now they wanna show me love
When you sell like Eminem, and the hoes they wanna fuck
But homie ain’t nothing change, hoe’s down, G’s up
I see Xzibit in the cut hey nigga roll that weed up
If you watch how I move you’ll mistake me for a playa or pimp
Been hit wit a few shells but I dont walk wit a limp
In the hood, in L.A. they saying “50 you hot”
They like me, I want them to love me like they love ‘Pac
But holla in New York them niggas’ll tell ya I’m loco
And the plan is to put the rap game in a choke hold
I’m fully focused man, my money on my mind
I got a mill out the deal and I’m still on the grind
Now shawty said she feeling my style, she feeling my flow
Her girlfriend willin to get bi and they ready to go
[Chorus] (2x)
[Bridge]
My flow, my show brought me the doe
That bought me all my fancy things
My crib, my cars, my pools, my jewels
Look nigga I done came up and I ain’t changed
[Verse]
And you should love it, way more then you hate it
Nigga you mad? I thought that you’d be happy I made it
I’m that cat by the bar toasting to the good life
You that faggot ass nigga trying to pull me back right?
When my joint get to pumpin in the club it’s on
I wink my eye at ya bitch, if she smiles she gone
If the roof on fire, let the motherfucker burn
If you talking bout money homie, I ain’t concerned
I’m a tell you what Banks told me cause go ‘head switch the styleup
If the niggas hate then let ‘em hate
Watch the money pile up
Or we go upside they wit a bottle of bub
They know where we fuckin be
[Chorus] (2x)
[Talking]
(laughing) Don’t try to act like you ain’t know where we beeneither nigga
In the club all the time nigga, its about to pop off nigga

Time capsule – Smokey Robinson, “Cruisin'” (1979)

Smokey Robinson: apesar de ter feito considerável sucesso tanto com seu primeiro grupo, a banda The Miracles, quanto em sua carreira solo, além do belo trabalho "por trás dos holofotes" na condição de produtor e eventual vice-presidente da lendária gravadora Motown, o compositor e cantor norte-americano ainda hoje é mais conhecido por seu grande hit soul-romântico "Cruisin'" (1979)Smokey Robinson: apesar de ter feito considerável sucesso tanto com seu primeiro grupo, a banda The Miracles, quanto em sua carreira solo, além do belo trabalho "por trás dos holofotes" na condição de produtor e eventual vice-presidente da lendária gravadora Motown, o compositor e cantor norte-americano ainda hoje é mais conhecido por seu grande hit soul-romântico "Cruisin'" (1979)

Smokey Robinson: apesar de ter feito considerável sucesso tanto com seu primeiro grupo, a banda The Miracles, quanto em sua carreira solo, além do belo trabalho “por trás dos holofotes” na condição de produtor e eventual vice-presidente da lendária gravadora Motown, o compositor e cantor norte-americano ainda hoje é mais conhecido por seu grande hit soul-romântico “Cruisin'” (1979)

Apesar de ter feito considerável sucesso tanto com seu primeiro grupo, a banda de soul e R&B The Miracles, quanto em sua carreira solo, além do belo trabalho “por trás dos holofotes” na condição de produtor e eventual vice-presidente da lendária gravadora Motown, o compositor e cantor norte-americano Smokey Robinson ainda hoje é mais conhecido por seu grande hit soul-romântico “Cruisin’” (1979). Presente no disco Where There’s Smoke…, a canção foi regravada um número considerável de vezes, incluindo versões utilizadas em filmes hollywoodianos (qualquer hora entra no Originais & Originados deste blog), e até hoje é uma das mais imediatas referências quando se fala no artista. Antes de qualquer coisa, no entanto, a música é uma baita canção pop que merece ser relembrada hoje e sempre. Enjoy!

Smokey Robinson – Cruisin’ (1979)

Baby, let’s cruise away from here
Don’t be confused, the way is clear
And if you want it you got it forever
This is not a one night stand, babe, yeah
So let the music take your mind, whoa
Just release and you will find

Your gonna fly away, glad your going my way
I love it when we’re cruisin’ together
The music is playing for love
Cruisin’ is made for love
I love it when we’re cruisin’ together

Babe, tonight belongs to us
Everything’s right, do what you must
And inch by inch we get closer and closer
To every little part of each other
Ooh, babe, yes
Let the music take your mind, babe
Just release and you would find

Your gonna fly away, glad you’re going way
I love it when we’re cruisin’ together
Music is playin’ for love
Cruisin’ is made for love
I love it when we’re cruisin’ together

(Cruise with me, babe)

(Cruise with me, babe)

Cruuuuuuuuuise

Oh, oh, babe, yeah
Oooooh, babe
Oooooh, ooooooh
Aaaah, Babe
So good to cruise with you, babe
So good to cruise with you
Ooooooh, yeah
You need me, babe
Aaaaah, babe loves crusin’
Let’s flow, let’s glide
Ooooh let’s open up, and go inside
And if you want it you got it forever
I can just stay there inside you
And love you, babe, oh
Let the music take your mind
Just release and you would find

Your gonna fly, yeah, glad you’re going way
I love it when we’re cruisin’ together
The music is for love, cruisin’ is made for love
I love it when we’re cruisin’ together
Oh, babe
We gonna fly away
Ohhh, yeah
Plan to go my way
I love it when we’re cruisin’ together
The music is for love, cruisin’ is made for love
I love it, I love it, I love it, I love it

Originais & Originados – Mose Allison (1962) x Jorge Drexler (2010) – “I Don’t Worry About a Thing”

O uruguaio Jorge Drexler (à direita) e o norte-americano Ben Sidran (desfocado em primeiro plano): releitura bonita de se ver e ouvir para a canção “I Don’t Worry About a Thing”, de Mose Allison

O uruguaio Jorge Drexler (à direita) e o norte-americano Ben Sidran (desfocado em primeiro plano): releitura bonita de se ver e ouvir para a canção “I Don’t Worry About a Thing”, de Mose Allison

Em 1962, o compositor, cantor e pianista norte-americano de blues e jazz Mose Allison lançava seu 12° álbum e, com ele, uma de suas mais conhecidas canções. “I Don’t Worry About a Thing” (com o opcional subtítulo “Cause nothing’s gonna be alright”) é um belo e animado swing-blues com a cara de seu autor, além de ser uma canção com uma letra (veja ao final do post) quase zen sobre a realidade do mundo em que vivemos (note que, 50 anos depois, o retrato não desbotou quase nada).

Talvez tenha sido justamente por essa aparente atemporalidade da canção que o compositor e cantor uruguaio Jorge Drexler tenha decidido revisitá-la recentemente. Drexler – que ganhou o Oscar de Melhor Canção Original em 2005 por “Al otro lado del río“, trilha do filme Diários de Motocicleta (Walter Salles, 2004); pavorosamente interpretada ao vivo por Santana e pelo ator Antonio Banderas na noite da premiação (afinal, por que a Academia não chamou o próprio uruguaio?) – incluiu “I Don’t Worry About a Thing” também em seu 12° disco (coincidência?), o belíssimo e muito bem acabado Amar la Trama (2010), corajosamente registrado inteiramente em takes ao vivo (os vídeos estão todos disponíveis no canal de Drexler no YouTube).

Em sua nova encarnação, a canção de Mose Allison ganhou uma roupagem ainda mais solta, com uma execução banhada pelas correntes mais “latinas” dos mesmos blues e jazz perpetrados por seu criador original. É coisa bonita de se ver e ouvir – particularmente, essa segunda versão é a que mais me agrada. Ah, importante registrar que Drexler convidou o pianista norte-americano Ben Sidran (que já tocou com Van Morrison, Diana Ross, entre outros) para dar uma graciosa e decisiva forcinha, o que abrilhanta ainda mais a releitura.

Enjoy!

ORIGINAL – MOSE ALLISON – I DON’T WORRY ABOUT A THING (1962) [o vídeo abaixo é uma gravação ao vivo de 1975]

ORIGINADA – JORGE DREXLER (FEAT. BEN SIDRAN) – I DON’T WORRY ABOUT A THING (2010)

Mose Allison – I Don’t Worry About a Thing (1962)

If this life is driving
You to drink
You sit around and wondering
Just what to think
Well I got some consoloation
I’ll give it to you
If I might
Well I don’t worry bout a thing
Cause I know nothings gonna be alright

You know this world is just one big 
Trouble spot because
Some have plenty and 
Some have not
You know I used to be trouble but I finally 
Saw the light
Now I don’t worry bout a thing
Cause I know nothings gonna be alright

Don’t waste you time trying to 
Be a go getter
Things will get worse before they 
Get any better
You know there’s always somebody playing with 
Dynamite
But I don’t worry about a thing 
Cause I know nothing’s gonna be alright

Vídeo da semana – Tamara Bryak e Tatiana Panaioti, “Roda Viva” (2013) – Chico Buarque ganhou sotaque russo

A bela cena final do vídeo em que a garota russa Tamara Bryak (Тома Бусинка) homenageia "Roda Viva", de Chico Buarque: suingue eslavo e um genuíno tributo à música brasileira

A bela cena final do vídeo em que as garota russas Tatiana Panaioti e Tamara Bryak homenageiam “Roda Viva”, de Chico Buarque: suingue eslavo e um genuíno tributo à música brasileira

Depois de saber dessa – e isso foi hoje/ontem -, tive que abrir uma leve exceção e publicar mais um Vídeo da semana. Acontece que uma garota russa que recentemente passou cerca de dois meses em São Paulo – no esquema do couchsurfing, mais especificamente na casa de uns amigos de uns amigos meus – resolveu, tendo conhecido um pouco melhor a produção musical brasileira dos anos 1960/1970 -, registrar, já de volta a sua terra natal, uma versão bastante particular e eslava de “Roda Viva“, de Chico Buarque (1967) (relembre aqui a original).

Apesar da relativamente previsível rigidez rítmica, a releitura conduzida por Tamara Bryak (Тома Бусинка; a tal garota russa – primeira da esquerda para a direita na primeira tomada do vídeo), duas amigas (que provavelmente também estiveram em São Paulo) e mais alguns músicos russos convidados (destacando-se o guitarrista, que caprichou na tentativa de suingue), agrada pela devoção à estatura da gema musical que resolveram homenagear. Não deixa de ser engraçado e adorável vê-las, em certas cenas mais prosaicas do vídeo, visivelmente empenhadas em render genuíno tributo a algumas das porções mais significativas e tocantes da letra matutada por Chico.

– UPDATE em 04/05: um dos amigos de uns amigos meus que hospedaram as meninas – o Alex, citado no vídeo – me explicou que apesar da participação da Tamara, quem conduziu a coisa toda foi a Tatiana Panaioti (a garota do meio, na cena de abertura), que, por sinal, é grande fã de Chico e já havia registrado uma versão de “Sem Compromisso” (de Nelson Trigueiro e Geraldo Pereira, gravada por Chico no disco Sinal Fechado, de 1974). O Alex também me disse que, segundo elas, aprender a falar português não é tão difícil para os russos, assim como também não seria para nós aprendermos o russo, por causa de similaridades nos chiados e zumbidos das palavras. “Mas é foda”, confessou, mesmo assim. Valeu, Alex!

Vale o PLAY, seja pra ver como as moças aprenderam rápido os fundamentos do português brasileiro (apesar ou exatamente por conta da divertida pronúncia de palavras como “pião”), seja pra perceber como a música brasileira (de ontem, hoje e sempre) tem potencial para encantar, seduzir e influenciar “cidadãos musicais” do mundo todo.

Um beijo carregado de latinidade e brasilidade para Tamara, Tatiana e seus comparsas! Voltem sempre! Nú zdrástvuy, mílaya!