Arqueologia sonora – The White Stripes

Jack e Meg White, o White Stripes: dupla de blues rock garageiro deixou sua marca na música pop contemporânea

Jack e Meg White, o White Stripes: dupla de blues rock garageiro deixou sua marca na música pop contemporânea

O White Stripes foi, sem sombra de dúvida, um dos fenômenos mais curiosos da música pop contemporânea. Formado em Detroit (EUA), em 1997, fruto da parceria entre o compositor, guitarrista e vocalista Jack White e a baterista Meg White, o duo viria – em pouco mais de uma década – a conquistar o mundo com sua mistura crua, suja e amalucada de rock, blues, punk e country.

Apresentando-se a princípio como irmãos (mais tarde descobriu-se que os dois podem ter sido casados no passado), Jack, com sua voz esganiçada e potente e sua virtuose bruta na guitarra, e Meg, cujo estilo na bateria já foi definido educadamente como “minimalista”, chamaram a atenção do público logo de cara, ao excursionar com Pavement e Sleater-Kinney pelos Estados Unidos.

Na onda da relativa popularidade recém-adquirida na época, a dupla debutou em 1999 com o disco homônimo The White Stripes. O álbum de estreia soava como um belo revival do garage rock, econômico e cheio de energia, estabelecendo os fundamentos da sonoridade que a dupla iria aperfeiçoar nos lançamentos seguintes. “Jimmy the Exploder“, a faixa de abertura, funciona como uma carta de intenções – sujona e blueseira -, enquanto a calminha “Do” mostrava que também havia um lado mais terno nos White.

The White Stripes (1999): o debute da dupla

The White Stripes (1999): o debute da dupla


Um ano depois, em 2000, veio De Stijl (que significa “o estilo” em holandês, uma homenagem à vanguarda artística holandesa neoplasticista). Em consonância com o título, o segundo álbum mostrava um White Stripes mais disposto a experimentar com diferentes formatos. Tanto que havia espaço, ali, para que a estranha, bonitinha e romântica “You’re Pretty Good Looking (For a Girl)” fosse escolhida para abrir o disco. No entanto, os “irmãos” White deixavam bem claro que não arredariam pé dos pantanosos terrenos do blues, como logo provava a cativante “Hello Operator“, pontuada por pequenas exibições de habilidade guitarrística de Jack nos intervalos da narrativa. Até uma gaita dava as caras a certa altura da canção!

De Stijl (2000): segundo álbum da banda foi batizado em homenagem à vanguarda artística holandesa neoplasticista

De Stijl (2000): segundo álbum da banda foi batizado em homenagem à vanguarda artística holandesa neoplasticista

Embora já não pudessem ser considerados completos desconhecidos na cena musical norte-americana após lançar dois álbuns muito bem recebidos por crítica e público, ainda faltava ao White Stripes um salto significativo em direção à grande audiência. Mas ele veio. Em 2001, Jack e Meg botaram na praça White Blood Cells, disco que os tornou uma das bandas mais aclamadas da época, rendendo à dupla a capa da revista Rolling Stone, entre outras demonstrações de apreço da mídia e do público. O álbum retratava um White Stripes mais maduro, com uma produção polida na medida exata para torná-los um sucesso pop sem aparar as arestas que conquistaram os primeiros fãs do duo, ainda no underground. Alavancado pelo sucesso quase instantâneo da enérgica e garageira “Fell in Love with a Girl” e seu clipe feito com Lego dirigido por Michel Gondry (veja abaixo), o terceiro disco dos “irmãos White” era bom do início ao fim, condensando com eficiência a energia primária da banda ao mesmo tempo em que abria espaço para os habituais desvios de percurso estético caros à dupla – como o apressado passeio country de “Hotel Yorba“. White Blood Cells acabaria vendendo mais de 500 mil cópias.

White Blood Cells (2001): terceiro disco alçou o White Stripes ao sucesso

White Blood Cells (2001): terceiro disco alçou o White Stripes ao sucesso

Em 2003, provando ser bem mais do que uma das inúmeras novidades passageiras do rock surgidas nos anos 2000, o White Stripes lançou Elephant, primeiro disco a sair por uma grande gravadora e considerado por muitos a obra-prima definitiva da dupla. O quarto trabalho de estúdio refletia o momento vivido pela banda e a forma como Jack e Meg (bastante avessos à exposição pública desenfreada, como já se tinha percebido)  lidavam com o estrondoso sucesso.

Ao mesmo tempo em que trazia hits de “gente grande” como a épica “Seven Nation Army” (maior sucesso da história do duo) e seu riff hipnótico e dançante, além da poderosa releitura de “I Just Don’t Know What to Do with Myself“, canção de Burt Bacharach que ganhou um clipe sensual estrelado pela modelo Kate Moss, duas músicas que pareciam intencionalmente selecionadas para agradar à massa, Elephant também registrava com primazia a personalidade sonora sui generis do White Stripes, carregando versões bem produzidas de canções que poderiam muito bem – conceitualmente – figurar nos primeiros lançamentos álbuns da dupla.

Embora muitas vezes soasse consideravelmente mais sombrio e difícil que seu antecessor – talvez uma forma inconsciente de Jack e Meg repelirem o apelo pop que cercava a banda -, o disco vendeu muito bem, ocupou o topo das paradas de sucesso e foi aclamado pela crítica e pelo público, conquistando até mesmo o Grammy de Melhor Álbum de Música Alternativa em 2004. Querendo ou não, estava claro que o White Stripes havia atingido o topo.

Elephant (2003): considerado a obra-prima do White Stripes, álbum mesclava hits "de gente grande" com canções dignas dos primeiros registros da banda

Elephant (2003): considerado a obra-prima do White Stripes, álbum mesclava hits “de gente grande” com canções dignas dos primeiros registros da banda

Em 2005, apenas um ano após Elephant, a banda já não tinha nada a provar pra ninguém. Talvez por isso mesmo Jack White tenha decidido, seguindo a prolífica tradição do White Stripes, gravar Get Behind Me Satan (álbum lançado no mesmo ano) em sua própria casa, experimentando com todo tipo de instrumento – de piano a marimba. Embora soasse como uma esforçada tentativa de se distanciar da sonoridade “clássica” da banda, ao reunir uma coleção de  canções repletas de elementos novos e com uma postura criativa bastante relaxada e ousada (ainda que bastante sólida), o disco se revelou o sucessor perfeito para Elephant, caindo mais uma vez nas graças do público e da crítica mesmo sem ter o mesmo apelo comercial.

Dado o contexto, “Blue Orchid“, primeiro single do álbum, já indicava que se tratava de um momento diferente e marcante na trajetória da banda. Em seguida, “My Doorbell“, segunda escolhida para representar comercialmente o novo trabalho, aprofundava essa mesma percepção com seu piano alegre e levada contagiante. Era o White Stripes aproveitando a vida suavemente depois de garantir seu lugar entre os custódios da “nova cara” do rock.

Get Behind Me Satan (2005): sem ter que provar mais nada a ninguém, a banda embarcou no experimentalismo tentando se distanciar de sua clássica assinatura sonora

Get Behind Me Satan (2005): sem ter que provar mais nada a ninguém, a banda embarcou no experimentalismo tentando se distanciar de sua clássica assinatura sonora

O ano de 2007 trouxe consigo um retrato bastante particular – e, como descobriria-se mais tarde, extremamente significativo – da trajetória do White Stripes. Na época, as duas metades do grupo já haviam deixado Detroit, sua cidade natal. Meg White foi para Los Angeles enquanto Jack (casado novamente) se estabeleceu em Nashville, tendo lançado com considerável sucesso a banda The Racounteurs, com quem havia excursionado durante boa parte do ano anterior, além de ter se ocupado com diversos projetos paralelos na condição de músico e produtor – a hiperatividade do rapaz chegou a fazer com que os fãs suspeitassem de um silencioso fim de sua primeira banda.

Contrariando as suspeitas mais pessimistas, naquele mesmo ano o White Stripes botou na praça Icky Thump, gravado na cidade do Tennessee em que Jack escolhera morar. Responsável pela conquista de mais um Grammy, o álbum parecia seguir a tendência experimental de seu antecessor, embora também marcasse um “retorno” da guitarra como ponto de referência – em contraste com o aparente abandono do instrumento registrado em Get Behind Me Satan. No fim das contas, o novo disco soava – apesar dos vários momentos de arrojo formal, tal qual a fragrância hispânica de “Conquest” – como um vigoroso e áspero retorno às origens do duo, mas um retorno impregnado de toda a experiência, auto-confiança e coragem conquistadas ao longo do caminho.

Embora pudesse ser considerado – sem desprezar sua evidente qualidade – pouco mais do que outra consistente adição à já substancial discografia da banda, Icky Thump também carregava, secretamente, um grande motivo para diferenciação: ainda não era sabido, talvez nem mesmo pela própria banda, mas o álbum seria o último registro de estúdio do White Stripes.

Icky Thump (2007) - um "retorno às origens" que acabaria sendo o canto do cisne do White Stripes

Icky Thump (2007) – um “retorno às origens” que acabaria sendo o canto do cisne do White Stripes

Os anos seguintes mostraram um Jack White cada vez mais ocupado com outros projetos – como o segundo disco do The Racounteurs (2008) e a formação de uma nova banda, The Dead Weather, que também contava com a vocalista Alison Mosshart (The Kills). Daquela vez, ficava cada vez mais aparente que o White Stripes estava relegado ao segundo plano entre as prioridades do compositor. No entanto, a eventual dissolução da banda nascida em Detroit ainda não passava de suposição – pode-se imaginar que, a esta altura, acreditava-se que quando menos se esperasse a dupla se reuniria novamente.

Em 2010, enquanto o White Stripes completava um inédito hiato de 2 anos, saiu Under Great White Northern Lights, um belo (e inédito) registro em áudio e vídeo da experiência arrebatadora que era presenciar uma apresentação da dupla ao vivo. Composto por gravações da turnê da banda pelo Canadá em 2007, o material resumia de forma bastante competente a discografia do duo, representada ali por uma coleção de 16 canções executadas, nos palcos, com evidente entusiasmo por Jack e Meg White. Destaque absoluto para a indefectível performance na comovente versão de “Jolene” (de Dolly Parton), espécie de clássico informal da banda.

Under Great White Northern Lights (2010): um registro em áudio e vídeo da experiência arrebatadora que era presenciar uma apresentação da dupla ao vivo

Under Great White Northern Lights (2010): um registro em áudio e vídeo da experiência arrebatadora que era presenciar uma apresentação da dupla ao vivo

 

Em fevereiro de 2011 a banda finalmente anunciou, através de seu site oficial, o fim do White Stripes. A notícia surpreendeu muita gente, apesar das muitas dúvidas que já haviam se instalado a respeito do futuro do duo. Após 13 anos e seis discos de estúdio, se encerrava “por uma miríade de razões” e para “preservar o que há de bonito e especial na banda”, segundo comunicado publicado no site, a inusitada colaboração de Jack e Meg White, responsável por deixar uma inconfundível marca na história da música pop e influenciar inúmeras bandas iniciantes, algumas delas bastante promissoras.

Após o fim do White Stripes, Meg e Jack tomaram caminhos diferentes. Ela seguiu discretamente com sua vida, enquanto ele continuou ativo como sempre no mundo da música – seu primeiro álbum solo, o elogiado Blunderbuss, sairia em 2012.

De qualquer forma, hoje, dois anos depois de uma separação que tem toda a pinta de ser definitiva, continuam muito bem traçados os contornos do impacto cultural causado pelo White Stripes, bem como se mantem acesa entre os fãs a esperança de que a dupla volte a se encontrar para chacoalhar – como de costume – as estruturas da produção musical da atualidade. E mesmo que tal reunião seja improvável, torcida é o que não falta!

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Arqueologia sonora – Traveling Wilburys

Traveling Wilburys (da esquerda para a direita: Bob Dylan, Jeff Lynne, Tom Petty, George Harrison e Roy Orbison): "supergrupo" é pouco

Traveling Wilburys (da esquerda para a direita: Bob Dylan, Jeff Lynne, Tom Petty, George Harrison e Roy Orbison): “supergrupo” é pouco

Em 1988 o mundo viu acontecer uma improvável – no mínimo – reunião de estrelas do mais alto escalão da música pop. Na contramão daquilo que costuma acontecer – uma banda acaba se separando e dá lugar às carreiras solos de seus antigos membros -, cinco músicos já plenamente realizados com suas trajetórias individuais resolveram “brincar de banda”. E assim nasceu a Traveling Wilburys, formada por nada menos que George Harrison (quase 20 anos após o fim dos Beatles), Roy Orbison (dispensa apresentações), Bob Dylan (idem), Tom Petty (recém-separado de seus Heartbreakers) e Jeff Lynne (ex-líder da Electric Light Orchestra) – algo como o maior “supergrupo” que já existiu.

De acordo com a história, os cinco – que já se conheciam há tempos – se juntaram no ano em questão para gravar o B-side de um single de Harrison, mas acabaram produzindo um disco inteiro. Time bom e entrosado dá nisso, né? O álbum, The Traveling Wilburys, Vol. 1, saiu ainda em 1988 e fez bastante sucesso com sua musicalidade amigável e que parecia um amálgama da personalidade sonora de cada um dos envolvidos – “Handle With Care” e “End Of The Line” foram os grandes hits (veja os vídeos abaixo). Além de tudo, devia ser bonito demais, na época,  ver tantos figurões ocupando natural e pacientemente seus respectivos espaços – inclusive dividindo os vocais – a serviço de uma canção. Ainda é.

Em 1990 a banda voltou a se reunir sob o peso da ausência de Roy Orbison, que morreu ainda em 1988, pouco depois do primeiro lançamento, e botou na praça um álbum curiosamente intitulado The Traveling Wilburys, Vol. 3 (onde foi parar o Vol.2?). Apesar de, de certa forma, repetir a receita do disco anterior, o segundo registro dos “Wilburys viajantes” soa um pouco menos empolgante e um tanto mais flácido, talvez até mesmo por não se beneficiar do elemento surpresa que contaminara a estreia. A fórmula teria se desgastado rápido demais? De qualquer maneira, o trabalho tem seus bons momentos – incluindo “Inside Out” e “She’s My Baby“, cujos vídeos você encontra abaixo. 

Depois disso cada integrante do grupo seguiu seu caminho e nunca mais, até agora, a Traveling Wilburys produziu algo novo – até porque George Harrison também já não está mais entre nós. Bem, já dava pra imaginar esse desfecho. Se o simples fato de eles se reunirem já foi surreal, o que dizer de um segundo disco? Não dava pra exigir mais. Fiquemos com a memória que já está de ótimo tamanho!    

Arqueologia sonora – Pixies

Pixies: os mentores acidentais do assalto protagonizado pelo "rock alternativo" ao imaginário coletivo da música pop nos anos 1990

Pixies: os mentores acidentais do assalto protagonizado pelo “rock alternativo” ao imaginário coletivo da música pop nos anos 1990

Não é sem considerável pesar – na condição de musicólogo – que admito ter ignorado até muito recentemente – e quase em sua totalidade – a importância do Pixies nos autos da música pop (ou comercial) recente. Obviamente que eu já estava a par da existência da banda comandada por Black Francis ou Frank Black (compositor/guitarrista/vocalista) e já havia balançado – em inúmeros episódios de minha trajetória de “pessoa musical” – ao som das composições mais “palatáveis” da trupe que também incluía a baixista/vocalista Kim Deal, o guitarrista Joey Santiago e o baterista Dave Lovering. Mas é que foi só muito recentemente que parei pra analisar produção/contexto e reconhecer a banda norte-americana formada no final dos anos 1980 como algo maior que um clássico – ainda que competente e interessante – clichê indie anacrônico. E então fecha-se (em meu folclore pessoal, antes ou depois de mais nada) a conta registrando o Pixies como um dos mais representativos mentores acidentais da tal “revolução” do rock alternativo yankee que tomou de assalto as rádios, as paradas de sucesso, a mídia especializada (ou nem tanto) e o imaginário do público consumidor de música durante boa parte da década de 1990 na forma de movimentos improváveis (porém absolutamente compreensíveis – ainda que não tão exatamente organizados como querem fazer crer) como o grunge e na consolidação de um nicho viável de produção relativamente distanciado do que se convencionou chamar de “rock” durante e logo após os anos 1980.

Com suas construções canhestras, lógica e execuções tipicamente amadoras (e de maneira alguma procuro destacar isso como um aspecto negativo – ao contrário) e energia produtiva tipicamente desligada da engrenagem músico-corporativo de sua época, o quarteto criado em Boston (Massachusetts) acabou inspirando, graças a sua estética (resumidamente baseada na espontânea, porém fresca – para a época -, alternância de dinâmica sonora [passagens mais “calmas” e trechos mais “explosivos”]) e conteúdo (as letras quase – se não completamente – surrealistas de Francis Black) absolutamente descompromissada com a agenda do “rock corporativo” (uma tentativa inata da indústria de, desconjuntadamente, ‘cercar’ o chamado ‘rock ‘n’ roll’ em um chiqueirinho povoado por mulheres, drogas e rebeldia de snooker bar) da época, o Pixies acabou fornecendo combustível intelectual (ainda que acidental, frise-se) para bandas embrionárias – à época – como o Nirvana. Basta pesquisar um pouco pra saber que – a despeito de influências um tanto óbvias quanto Melvins e o rock setentista – foi a tentativa (confessa, segundo minha pesquisa) de emular o som do Pixies que levou Kurt Cobain (só pra ficar em um exemplo que contempla o expoente “máximo” do grunge) a criar o hino “Smells Like Teen Spirit“. Isso posto, contemplemos o Pixies como uma das pedras fundamentais da liberdade criativa que, hoje, quase 30 anos depois de seu surgimento, se consolida no espectro praticamente ilimitado de bandas fazendo o que querem fazer a partir do “ponto de largada” do “rock”.

Arqueologia sonora – Misfits

Misfits: que outra banda começaria uma música com "Eu tenho algo a dizer. Hoje eu matei o seu bebê"?

Misfits: que outra banda começaria uma música com “Eu tenho algo a dizer. Hoje eu matei o seu bebê”?

Os Misfits são realmente geniais. Perdoem-me os desprovidos de senso de humor mas, que outra banda começaria uma música com “Eu tenho algo a dizer. Hoje eu matei o seu bebê“? Ou faria uma balada que versa sobre um cara que assassina a namorada e depois se sente sozinho “no banco de trás do carro, no drive in“? Bem, eles fizeram. E não para por aí. “Angelfuck”, “Mommy, can I go out and kill tonight?” e “Astro Zombies” são alguns dos nomes que eles usaram para batizar suas composições.

A trupe, formada em 1977 e comandada até hoje pelo baixista Jerry (Caiafa) Only, teve um importante papel na concepção e disseminação do chamado horror punk. Advindo do estilo gestado pelos Ramones e parido pelos infames Sex Pistols, essa vertente “Filme B” se diferenciou do original pela temática trash (assassinatos, sangue, zumbis canibais) e bem-humorada, mas manteve as características essencialmente musicais (canções curtas, com três acordes na média, e gravações/execuções toscas).

Apesar do fôlego de seus primeiros discos de estúdio – Walk Among Us (1982) e Earth A.D. (1983) – no final de 1984 a banda se desmanchou com a saída do vocalista e frontman Glen Danzig (que seguiu uma carreira solo de sucesso razoável, pelo que me consta). O legado dos punks que faziam shows usando sombras pesadíssimas nos olhos e franjas no estilo moicano esticadas para baixo em frente ao rosto (lembra alguma coisa?) estava fadado ao limbo.

Ou não…


A volta dos mortos-vivos

Ainda no final dos anos 1980 apareceram algumas coletâneas da banda e em 1987  o Metallica colocaria “Last Caress/Green Hell” em sua pequena lista de homenageadas no lendário disquinho de começo de carreira The $5.98 E.P.: Garage Days Re-Revisited. Até que em 1993 o Gun ‘n’ Roses incluiu a música “Attitude” em seu álbum de covers The Spaghetti Incident?, o que despertou o interesse tardio de muita gente. Finalmente, em 1995, saiu o (até então) inédito Static Age, com gravações feitas pelo Misfits em 1978 e, em 1996, após algumas pendengas judiciais entre Only e Danzig pelo direito de usar o nome da banda, o grupo voltou à ativa – sem o vocalista original.

Com o desconhecido Michale Graves à frente do microfone (para desespero dos adoradores hardcore de Danzig), os Misfits lançaram American Psycho (1997) e Famous Monsters (1999). Os detratores (incluindo aí parte considerável da imprensa especializada) não pouparam munição para detonar trabalho e line-up novos: Graves era técnico demais e carismático de menos (hey, qual o problema com alcançar notas altas e limpas enquanto se canta sobre cortar os braços e pernas de alguém?); a sonoridade tinha mais de hard rock que de punk (alguém aí notou que não estamos mais em 1977?) entre outras abobrinhas. É claro que outros tantos defendiam a volta da banda e, evidentemente, compravam discos (lembra como era isso?) – tanto que Famous Monsters chegou a ocupar a 2ª posição do topHeatseekers da Billboard em 1999.

O assunto para a briga de fãs que não têm mais o que fazer logo ganhou outro foco, no entanto. Em 2003, Graves (e o resto da banda) já estavam na rua há algum tempo, e Only (único membro remanescente do Misfits) lançou um álbum no mínimo peculiar. Intitulado Project 1950, o disco reuniu Dez Caneda, do Black Flag, na guitarra e (uou!) Marky Ramone na bateria, além, é claro, do baixista (e agora vocalista), para uma coleção de versões de músicas antigas (“oldies”) como “Great Balls of Fire” (!), eternizada por Jerry Lee Lewis, “Runaway” de Del Shannon e (pasmem)!, o mega-hit “Diana” do Paul Anka! Tudo executado com a empolgação de músicos experimentados que também são genuínos fãs da “Era de Ouro” do rock. Melhor impossível (ou simplesmente pavoroso na opinião de outros). Por um tempo depois disso, o Misfits deu uma pausa com a produção em estúdio enquanto excursionava com a última formação (incluindo visitas ao Brasil) e lançava uma coleção “caça-níqueis” de hits em versão lounge para coquetéis (!) (Fiend Club Lounge, 2005).


Estado avançado de putrefação 

Em 2011, após um hiato de oito anos – 12 sem material original -, a banda  voltou à sala de gravação e saiu dela inaugurando a “fase 3” do Misfits com The Devil’s Rain. Contando com a mesma formação do álbum anterior, exceto por Marky Ramone, substituído por Eric “Chupacabra” Arce (Murphy’s Law) – que já havia sido testado em alguns shows da turnê do Project 1950 –, o disco foi malhado pela crítica, ainda mais que Famous Monsters, e com uma boa dose de razão. O nono lançamento fonográfico oficial do (agora) projeto particular de Only sofre de um anacronismo decepcionante. Além de requentar uma fórmula que a banda ajudou a cozinhar há mais de 30 anos – pô, nesse sentido os álbuns com Graves foram, pelo menos, um ar fresco – o amontoado de canções é puxado integralmente pelo baixista/vocalista em uma performance que, se era algo amadora de uma forma empolgante e engraçada em Project 1950, ali chega a ser constrangedora de tão fraca, pouco inspirada e até mesmo inábil. A produção flat também não ajuda e no fim fica aquela sensação de “deviam ter parado no último”. Em resumo, um triste capítulo (que pode ser o final, se a vontade de ganhar dinheiro de Only não prevalecer) na história de uma grande e pioneira banda. E o que ainda vem – se é que vem – por aí com a assinatura dos Misfits cabe apenas nas conjecturas.

No fim, apesar do pessimismo, só resta recomendar aos incautos que considerem a experiência única de ouvir os roteiros mais escabrosos do terror mais vagabundo transformados em três ou mais acordes, com Danzig, Graves ou Only – exceto pelo supracitado último disco – celebrando a alegria de se estar completamente coberto de sangue. Cenográfico, claro.

Arqueologia sonora – The Platters

The Platters: o elo perdido entre o doo-wop e o rock n' roll

The Platters: o elo perdido entre o doo-wop e o rock n’ roll

O que dizer de um grupo como The Platters? Eles são o elo perdido entre o doo-wop/R&B e o rock n’ roll. Duvide de qualquer um que não se emocionar ouvindo um dos clássicos deles. E chega de conversa – vamos ouvir e nos arrepiar com o sons atemporais desse conjunto vocal que tem seu lugar garantido no espaço-tempo, seja qual for a época.


Arqueologia sonora – Roy Orbison

Roy Orbison: o "maior cantor de todos os tempos" segundo Elvis Presley

Roy Orbison: o "maior cantor de todos os tempos" segundo Elvis Presley

Uma pena que o cara que o “rei” em pessoa, Elvis Presley, definiu como “o maior cantor de todos os tempos” ainda seja conhecido basicamente pela música “Pretty Woman” (trilha do filme “Uma Linda Mulher“). A carreira de Roy Orbison está repleta de músicas lindas e de uma carga dramática incomparável. Ironicamente, Roy morreu do coração, em 1988. Mas sua obra continua viva e irrepreensível.

Arqueologia sonora – Clarence Carter

Clarence Carter: não tão famoso quanto Stevie Wonder ou Ray Charles

Clarence Carter: não tão famoso quanto Stevie Wonder ou Ray Charles

Falei do Clarence Carter outro dia e deu vontade de continuar. Afinal, o cara faz parte do seleto grupo de músico negros norte-americanos que, apesar da cegueira (de nascença, no caso dele) conseguiu trilhar uma brilhante carreira. Assim como Ray Charles e Stevie Wonder – mas bem menos famoso que os dois – Carter produziu muito soul bom de ouvir. Não dá pra dizer que o cara revolucionou a música, mas ele definitivamente criou alguns clássicos do gênero. Como muitos artistas dessa seara, Carter, que nasceu no Alabama em 1936,  sofreu amargamente com a chegada da disco nos anos 1970 e posteriormente o pop sintetizado dos anos 1980. O músico chegou inclusive a dar uma baita guinada em seu estilo, numa tentativa de soar mais contemporâneo, sofrendo bastante influência oitentista, mas com resultados mais curiosos do que efetivamente bacanas (veja o último vídeo). Está vivo até hoje, mas já não produz. Fica aqui mais uma contribuição ao seu legado.


Só uma observação: saber que Carter é cego de nascença aumenta consideravelmente a carga dramática dessa canção aqui debaixo, não?