Originais & Originados – Gloria Jones (1965/1976) x Soft Cell (1981) x Marilyn Manson (2001) – “Tainted Love”

Gloria Jones e Marc Bolan  em registro dos anos 1970: e não é que ela é a mãe do hit (gravado duas vezes) que eu creditava ao Soft Cell?

Gloria Jones e Marc Bolan em registro dos anos 1970: e não é que ela é a mãe do hit (gravado duas vezes) que eu creditava ao Soft Cell?


Eis aí uma música que me surpreendeu quando descobri que se tratava de uma versão. Eu podia jurar que era uma composição original do Soft Cell (1981), mas na verdade a confessional “Tainted Love” é uma canção de Gloria Jones (1965), regravada novamente pela artista com uma pegada disco em 1976 para aproveitar uma onda súbita de popularidade. A música ainda foi revisitada por Marilyn Manson para a trilha do filme de comédia besteirol Not Another Teen Movie (2001) – pelo menos as gerações mais novas puderam conhecer essa pérola pop.

ORIGINAL – GLORIA JONES – TAINTED LOVE (1965)

 

ORIGINAL – GLORIA JONES – TAINTED LOVE (1976)

 

ORIGINADA – SOFT CELL – TAINTED LOVE (1981)

 

ORIGINADA – MARILYN MANSON – TAINTED LOVE (2001)

Originais & Originados – Aphex Twin (1992) x Die Antwoord (2014) – “Ageispolis” / “Ugly Boy”

Com "Ugly Boy", do disco Donker Mag (2014), o duo sul-africano calculadamente freaky Die Antwoord ressuscitou a paulada de ambient techno do mago Aphex Twin "Ageispolis" (Selected Ambient Works 85-92; 1992).

Com “Ugly Boy”, do disco Donker Mag (2014), o duo sul-africano calculadamente freaky Die Antwoord ressuscitou a paulada de ambient techno do mago Aphex Twin “Ageispolis” (Selected Ambient Works 85-92; 1992).

Com “Ugly Boy”, do disco Donker Mag (2014), o duo sul-africano calculadamente freaky Die Antwoord ressuscitou a paulada de ambient techno do mago Aphex Twin “Ageispolis” (Selected Ambient Works 85-92; 1992). As rimas de Ninja e Yo-Landi ViSSer temperam a cama eletrônica arrumada há quase 20 anos pelo inglês Richard D. James. E Não posso dizer que a combinação não funcionou. Será que as demais criações de Aphex Twin poderiam se beneficiar desse update?

ORIGINAL – APHEX TWIN – AGEISPOLIS (1992)

 

ORIGINADA – DIE ANTWOORD – UGLY BOY (2014)

Originais & Originados – Fergie (2006) x Vários (mesmo) – “Fergalicious” – Ou Nada se cria, tudo se copia

Fergie em cena do clipe de "Fergalicious": Ufa, desde "The Rockafeller Skank" eu não tinha tanto trabalho. Parece uma monografia fonográfica.

Fergie em cena do clipe de “Fergalicious”: Ufa, desde “The Rockafeller Skank” eu não tinha tanto trabalho. Parece uma monografia fonográfica.

Há muito tempo quero falar desse exemplar. Longe de ser uma crítica moralista e anacrônica, a análise que segue está mais para constatação da pertinência da máxima “everything is a remix” do que um lamento boboca pela suposta ideia de originalidade no universo da música pop/comercial (e se você clicou no link que deixei ali atrás, já sabe o porquê).

“Fergalicious”, single carro-chefe do disco solo de Fergie (The Dutchess; 2006), uma das vocalistas do grupo Black Eyed Peas, exemplifica perfeitamente a noção de que a colagem/apropriação/reconfiguração se tornou instrumento comum da música contemporânea. Dependendo do contexto, dá até pra argumentar que, para além de recurso estético, essa prática pressupõe certa dose de picaretagem (especialmente se considerarmos que em muitos casos os autores originais dos trechos sampleados ou recriados não são devidamente creditados), mas não é isso que está em questão aqui, até porque não consegui encontrar o encarte completo do álbum da Fergie pra checar se há menção aos samples.

Voltando à canção: uau, que colcha de retalhos. Pelo menos não podemos acusar will.i.am (produtor da maior parte do álbum, inclusive da faixa em questão, e também membro fundador do Black Eyed Peas) de não ter suado a camisa. “Fergalicious”, que, como o título já adianta,  basicamente é uma ode aos, digamos, “encantos” de Fergie, habilmente mistura várias “citações” (pra ser simpático) de diversas outras músicas pra mandar seu recado. Aliás, é possível dizer sem exagero que a letra – simplista e, em certa medida, divertida – é o único componente totalmente original do produto.

Dá até preguiça de cavar e listar aqui as fontes nas quais essa gemazinha pop bebeu pra vir ao mundo. Até mesmo – e é aí que as coisas ficam ainda mais interessantes – porque boa parte das tais “originais” também rende “tributos” (sendo simpático mais uma vez) a outros tantos sons pioneiros. É remix em cima de remix. Com tantas camadas eu já estou me sentindo em um musical dirigido pelo David Lynch. Mas deixa eu tentar explicar. Vá seguindo as referências e revise tudo com os vídeos ao final do post.

Bem, pra começar, a introdução de “Fergalicious” usa o início de “Give It All You Got (Doggy Style)” de Afro-Rican (1987) e emenda a melodia vocal de “Throw the D” de 2 Live Crew (1986), que por sua vez sampleou “Planet Rock” de Afrika Bambaataa & Soulsonic Force (1982). Na sequência, a levada dos versos – que constituem o “grosso” da canção – é uma releitura bem literal de “Supersonic”, de J.J. Fad (1987). Certo tempo depois entra a ponte, emprestada de outro trecho de “Give It All You Got (Doggy Style)”, que por sua vez recicla “Night Train”, de James Brown (1962) e “It’s More Fun to Compute”, do Karftwerk (1981). E então o repertório de referências está finalmente  completo, já que o resto da música é basicamente uma repetição de tudo o que já se apresentou até então. Ufa, desde “The Rockafeller Skank” eu não tinha tanto trabalho. Parece uma monografia fonográfica.

E aí? O que você acha da cultura do remix e dos frutos dessa prática na produção pop?

ORIGINADA – FERGIE – FERGALICIOUS (2006)

 

ORIGINAL (?) – AFRO-RICAN – GIVE IT ALL YOU GOT (DOGGY STYLE) (1987)

 

ORIGINAL – JAMES BROWN – NIGHT TRAIN (DOGGY STYLE) (1962)

 

ORIGINAL – KRAFTWERK – IT’S MORE FUN TO COMPUTE (1981)

 

ORIGINAL (?) – 2 LIVE CREW – THROW THE D (1986)

 

ORIGINAL – AFRIKA BAMBAATAA & THE SOULSONIC FORCE – PLANET ROCK (1982)

 

ORIGINAL – J.J. FAD – SUPERSONIC (1987)

 

Originais & Originados – The Zutons (2006) x Mark Ronson & Amy Winehouse (2007) – “Valerie”

Amy Winehouse: junto com o músico e produtor inglês Mark Ronson a cantora registrou uma versão ainda mais atraente de "Valerie", da banda The Zutons

Amy Winehouse: junto com o músico e produtor inglês Mark Ronson a cantora registrou uma versão ainda mais atraente de “Valerie”, da banda The Zutons

Mais um caso daqueles em que parece que a música original estava só esperando um outro intérprete registrar sua versão definitiva. Segundo single do segundo disco da banda britânica The Zutons (Tired of Hanging Around; 2006), a divertida “Valerie” ganhou uma roupagem ainda mais atraente e grudenta na regravação gestada pelo músico e produtor inglês Mark Ronson, que convidou a saudosa Amy Winehouse para assumir os vocais na faixa que faz parte de seu segundo álbum (Version; 2007). E aí, de qual das encarnações da canção você gosta mais?

ORIGINAL – THE ZUTONS – VALERIE (2006)

 

ORIGINADA – MARK RONSON & AMY WINEHOUSE – VALERIE (2007)

 

BÔNUS: AMY WINEHOUSE CANTANDO “VALERIE” AO VIVO 

Originais & Originados – Los Kjarkas (1981) x Kaoma (1989) x Jennifer Lopez (2011) – “Llorando Se Fue”/ “Lambada [Chorando Se Foi]”/ “On The Floor”

Jennifer Lopez em cena do clipe de "On the Floor": eis aí a história de um hit latino que passou do castelhano boliviano para o português brasileiro e daí para o inglês das paradas de sucesso pop

Jennifer Lopez em cena do clipe de “On the Floor”: eis aí a história de um hit latino que passou do castelhano boliviano para o português brasileiro e daí para o inglês das paradas de sucesso pop

Eis aí a história de um hit latino que passou do castelhano boliviano para o português brasileiro e daí para o inglês das paradas de sucesso pop. A canção “Llorando Se Fue” (1981), dos bolivianos do Los Kjarkas, transformada em “Lambada”/”Chorando Se Foi” (1989) pela banda brasileira Kaoma, acabou como inspiração para Jennifer Lopez (feat. Pitbull) em sua “On The Floor” (2011).

ORIGINAL – LOS KJARKAS – LLORANDO SE FUE (1981)

ORIGINADA – KAOMA – LAMBADA/CHORANDO SE FOI (1989)

ORIGINADA – JENNIFER LOPEZ (FEAT. PITBULL) – ON THE FLOOR (2011)

Originais & Originados – Ben E. King (1961) x John Lennon (1975) x Sean Kingston (2007) – “Stand by Me”(x2)/”Beatiful Girls”

Ben E. King: obviamente dá pra apostar que ele não imaginava que seu maior hit, "Stand by Me", seria revisitado por John Lennon e transformado por Sean Kingston em uma canção completamente nova e com a cara do terceiro milênio

Ben E. King: obviamente dá pra apostar que ele não imaginava que seu maior hit, “Stand by Me”, seria revisitado por John Lennon e transformado por Sean Kingston em uma canção completamente nova e com a cara do terceiro milênio

É óbvio que, em 1961, quando Ben E. King lançou a canção “Stand by Me” em formato de single para suceder seu primeiro disco solo, o cantor de soul recém-saído do grupo The Drifters sequer imaginava o enorme e inusitado caminho que sua mais famosa criação percorreria pelas décadas seguintes. Composta pelo norte-americano King, junto com os co-autores Jerry Leiber e Mike Stoller, a música fez tanto sucesso na época que acabou reeditada no álbum Ben E. King Sings for Soulful Lovers, de 1962. Pudera: até hoje é difícil explicar a mágica da canção, que, de tão romântica, parece falar de amor enquanto, na verdade, versa sobre a amizade – não por acaso, ela acabou como trilha do aclamado filme adolescente Conta Comigo (Stand by Me, no original; 1986). Isso sem falar na melodia e na levada, ambas simples, porém hipnotizantes, elegantemente decoradas com um arranjo orquestrado que dá um tom sublime ao produto final. E o que dizer da inconfundível linha de baixo que conduz toda a canção e que acabou se tornando uma marca registrada? E da voz  de King, poderosa e ao mesmo tempo doce? Enfim, um clássico absoluto que agradou, agrada e continuará a agradar às mais variadas audiências.

ORIGINAL – BEN E. KING – STAND BY ME (1961)

Ponto.

Abre parágrafo.

Estamos agora em 1975, e o ex-Beatle John Lennon, já vivendo em Nova York desde 1971, decide lançar um disco composto apenas por versões, recheado de músicas que gravitavam relativamente próximas à órbita do rock (passeando descompromissadamente também pelo soul e pelo R&B). Honestamente intitulado Rock ‘n’ Roll, o álbum trazia, entre outras interpretações pitorescas e preciosas (como “Be-Bop-A-Lula” e “Sweet Little Sixteen”), uma releitura bastante visceral de Lennon para a já (à época) clássica “Stand by Me“. Apesar do arranjo bem mais econômico e da performance vocal/emocional  puxada para o agridoce de Lennon, a homenagem do ilustre cidadão de Liverpool (que, ao início da faixa, confessa saber a letra de cor desde seus 15 anos de idade) a King saiu tão boa que até hoje provoca dúvidas em muita gente sobre a verdadeira autoria da canção.

ORIGINADA – JOHN LENNON – STAND BY ME (1975)

Próximo capítulo.

Ao longo das décadas posteriores, “Stand by Me” seguiu ocupando confortável e merecidamente seu posto entre os inúmeros clássicos da música pop a figurar, em tempos mais recentes, naquelas coletâneas do tipo oldies but goodies. Isso até o ano de 2007 (talvez antes mesmo disso, mas sigamos com o exemplo), quando se juntou à incomensurável lista de produtos da indústria cultural abraçados pela dimensão mais, digamos, reinterpretativa, dessa nossa cultura de terceiro milênio. Naquele momento da história, sabe-se lá como, a canção que pintava uma amizade inabalável nos anos 1960 serviu de alicerce para um lamento pra lá de contemporâneo (e extremamente grudento) sobre as tendências suicidas que supostamente se apossam dos garotos “comunzinhos” que conseguem provar a sensação de estar com uma garota bonita até que ela, eventualmente, lhes dá um vigoroso pé na bunda.

A cena escalafobética é cortesia do garoto jamaicano Sean Kingston, que, retrabalhando levemente a base instrumental de “Stand by Me“, deu à luz o hit “Beautiful Girls“, presente em seu debute homônimo Sean Kingston (2007), lançado quando o cantor de rap pop tinha apenas 17 anos. E, pensando especialmente na idade do rapaz, tenha ele sido ajudado por produtores mais experientes ou não, a música resultante do cruzamento entre uma sequência de samplers nascidos 50 anos antes e o talento malaco-prodígio e a letra inteligente do estreante tem mais que só um punhadinho de méritos. Na época em que ganhou as ruas (e até por um bom tempo depois disso), “Beautiful Girls” foi um estandarte pop virtualmente onipresente em rádios comerciais e nas infames coletâneas “queimadas” de qualquer jeito em CD-R e reproduzidas (geralmente) em altíssimo volume por sistemas de som automotivos exageradamente dimensionados – coisa que não se alcança somente com jabá ou com a insistência dos departamentos comerciais das FMs.

É claro que hoje chega a ser vergonhoso (para quem se importa com a vida útil dos singles comerciais, seja lá o que for isso) escutar publicamente o sucesso de Kingston (que, por sinal, nunca mais emplacou nada digno de nota), mas isso não minimiza, de maneira alguma, o poder pop da canção que, intencionalmente ou não, trotou alegremente por uma trilha em que já pisara John Lennon e o próprio “pai da criança”, Ben E. King. A vida é mesmo uma loucura.

ORIGINADA – SEAN KINGSTON – BEAUTIFUL GIRLS (2007) – Sampleou a canção original

Fim.

Postscript.

Em 2008, um ano depois de Sean Kingston, a “Stand by Me” original ganhou outra homenagem, muito mais literal, mas igualmente adaptada aos tempos atuais. Em uma iniciativa organizada pelo movimento Playing for Change – criado para “inspirar, conectar, e trazer paz ao mundo através da música” -, primeiro projeto do grupo, aliás, a canção ganhou a forma de uma versão constituída pela combinação de trechos da música executados por diversos músicos de vários lugares do mundo (de profissionais a artistas de rua), munidos de inúmeros instrumentos. O resultado, além de extremamente competente do ponto de vista musical, é pra lá de emocionante. Dá uma conferida aí embaixo.

BÔNUS TRACK – PLAYING FOR CHANGE – STAND BY ME (2008) – Projeto colaborativo com músicos do mundo todo

Até a próxima!

Originais & Originados – Mose Allison (1962) x Jorge Drexler (2010) – “I Don’t Worry About a Thing”

O uruguaio Jorge Drexler (à direita) e o norte-americano Ben Sidran (desfocado em primeiro plano): releitura bonita de se ver e ouvir para a canção “I Don’t Worry About a Thing”, de Mose Allison

O uruguaio Jorge Drexler (à direita) e o norte-americano Ben Sidran (desfocado em primeiro plano): releitura bonita de se ver e ouvir para a canção “I Don’t Worry About a Thing”, de Mose Allison

Em 1962, o compositor, cantor e pianista norte-americano de blues e jazz Mose Allison lançava seu 12° álbum e, com ele, uma de suas mais conhecidas canções. “I Don’t Worry About a Thing” (com o opcional subtítulo “Cause nothing’s gonna be alright”) é um belo e animado swing-blues com a cara de seu autor, além de ser uma canção com uma letra (veja ao final do post) quase zen sobre a realidade do mundo em que vivemos (note que, 50 anos depois, o retrato não desbotou quase nada).

Talvez tenha sido justamente por essa aparente atemporalidade da canção que o compositor e cantor uruguaio Jorge Drexler tenha decidido revisitá-la recentemente. Drexler – que ganhou o Oscar de Melhor Canção Original em 2005 por “Al otro lado del río“, trilha do filme Diários de Motocicleta (Walter Salles, 2004); pavorosamente interpretada ao vivo por Santana e pelo ator Antonio Banderas na noite da premiação (afinal, por que a Academia não chamou o próprio uruguaio?) – incluiu “I Don’t Worry About a Thing” também em seu 12° disco (coincidência?), o belíssimo e muito bem acabado Amar la Trama (2010), corajosamente registrado inteiramente em takes ao vivo (os vídeos estão todos disponíveis no canal de Drexler no YouTube).

Em sua nova encarnação, a canção de Mose Allison ganhou uma roupagem ainda mais solta, com uma execução banhada pelas correntes mais “latinas” dos mesmos blues e jazz perpetrados por seu criador original. É coisa bonita de se ver e ouvir – particularmente, essa segunda versão é a que mais me agrada. Ah, importante registrar que Drexler convidou o pianista norte-americano Ben Sidran (que já tocou com Van Morrison, Diana Ross, entre outros) para dar uma graciosa e decisiva forcinha, o que abrilhanta ainda mais a releitura.

Enjoy!

ORIGINAL – MOSE ALLISON – I DON’T WORRY ABOUT A THING (1962) [o vídeo abaixo é uma gravação ao vivo de 1975]

ORIGINADA – JORGE DREXLER (FEAT. BEN SIDRAN) – I DON’T WORRY ABOUT A THING (2010)

Mose Allison – I Don’t Worry About a Thing (1962)

If this life is driving
You to drink
You sit around and wondering
Just what to think
Well I got some consoloation
I’ll give it to you
If I might
Well I don’t worry bout a thing
Cause I know nothings gonna be alright

You know this world is just one big 
Trouble spot because
Some have plenty and 
Some have not
You know I used to be trouble but I finally 
Saw the light
Now I don’t worry bout a thing
Cause I know nothings gonna be alright

Don’t waste you time trying to 
Be a go getter
Things will get worse before they 
Get any better
You know there’s always somebody playing with 
Dynamite
But I don’t worry about a thing 
Cause I know nothing’s gonna be alright

Originais & Originados – Baby Huey (1971) x Curtis Mayfield (1975) x John Legend & the Roots (2010) – “Hard Times”

Baby Huey, morto precocemente aos 26 anos: "Hard Times" acabou sobrevivendo aos anos como um libelo soul

Baby Huey, morto precocemente aos 26 anos: “Hard Times” acabou sobrevivendo aos anos como um libelo soul

Eis aí outra inusitada história de uma canção que viajou no tempo para ser descoberta por diferentes gerações em suas diversas encarnações ao longo do desabrochar da música pop. “Hard Times“, poderoso libelo soul composto pelo mago Curtis Mayfield, foi originalmente gravado pelo prodígio vocal Baby Huey – uma espécie de Tim Maia do soul setentista norte-americano – e lançado no álbum póstumo The Baby Huey Story: The Living Legend, de 1971 (o cantor morreu precocemente aos 26 anos, em outubro de 1970, antes mesmo de debutar oficialmente em disco, por conta de um ataque cardíaco relacionado ao consumo de drogas – heroína, mais especificamente).

Mesmo marcada pela atmosfera trágica, a canção acabou revisitada pelo próprio Curtis Mayfield anos depois, no interessantíssimo álbum There’s No Place Like America Today (1975), em uma versão extremamente easy going. Quem a ouvisse sem saber da história jamais relacionaria a canção ao mórbido debute fonográfico de Baby Huey.

E então, mais de três décadas depois, o cantor John Legend decidiu – sabe-se lá porquê – fazer de “Hard Times” a faixa de abertura de seu disco gravado em colaboração com a banda The Roots (Wake Up!, 2010). Com uma versão bastante próxima à interpretação original de Baby Huey, Legend acabou – intencionalmente ou não – apresentando a uma audiência consideravelmente mais nova um pedacinho importante da história da soul music norte-americana. Ainda bem!

ORIGINAL/ORIGINADA – BABY HUEY – HARD TIMES (1971)

ORIGINADA/ORIGINAL – CURTIS MAYFIELD – HARD TIMES (1975)

ORIGINADA – JOHN LEGEND & THE ROOTS – HARD TIMES (2010)

Originais & Originados – The Dubliners (1967) x Thin Lizzy (1973) x Metallica (1998) – “Whiskey in the Jar”

Metallica em 1998, época do Garage Inc.: "Whiskey in the Jar", canção tradicional irlandesa, atravessou gerações e veio parar no disco-tributo da banda às suas influências

Metallica em 1998, época do Garage Inc.: “Whiskey in the Jar”, canção tradicional irlandesa, atravessou gerações e veio parar no disco-tributo da banda às suas influências

Eis aí outro exemplo de canção que (de forma improvável, no mínimo) atravessou gerações.

A tradicional canção irlandesa “Whiskey in the Jar” – que, em suma, narra uma bela de uma traição – foi originalmente divulgada para o mundo em 1967, através do registro realizado pelo grupo de folk celta/irlandês The Dubliners.

Em 1973, a música foi ressuscitada – e devidamente adaptada – pela bastante subestimada banda irlandesa de hard rock Thin Lizzy, que a incluiu em seu terceiro álbum, Vagabonds of the Western World.

Mais de duas décadas depois, em 1998, a canção foi resgatada pelo Metallica em seu álbum de covers Garage Inc., que pretendia homenagear algumas das principais influências da banda (e ali “Whiskey in the Jar” contava como tributo ao Thin Lizzy, e não ao The Dubliners, que fique claro).

A tal versão do Metallica, aliás, rendeu um “polêmico” videoclipe na época (veja abaixo), o que, inclusive, contribuiu para que muita gente achasse (até hoje) que o som era de autoria de Hetfield e companhia (apesar da ostensiva divulgação de Garage Inc. como um álbum de covers).

Bem, apesar das confusões, está aí mais um interessantíssimo capítulo da história da música e de sua incrível capacidade de reincidência. Brindemos! “Tem whiskey na jarra”, meu amigo!

ORIGINAL – THE DUBLINERS – WHISKEY IN THE JAR (1967)

ORIGINADA – THIN LIZZY – WHISKEY IN THE JAR (1973)

ORIGINADA – METALLICA – WHISKEY IN THE JAR (1998)

Originais & Originados – Harry Chapin (1974) x Ugly Kid Joe (1992) – “Cat’s in the Cradle”

Ugly Kid Joe: a banda californiana de hard rock/pop resgatou o grande sucesso do cantor folk Harry Chapin quase duas décadas depois

Ugly Kid Joe: a banda californiana de hard rock/pop resgatou o grande sucesso do cantor folk Harry Chapin quase duas décadas depois

Originalmente incluída no disco Verities & Balderdash (1974) do cantor norte-americano de folk rock Harry Chapin, a balada acústica “Cat’s in the Cradle” foi um grande sucesso em sua época. Composta por Chapin com base em um poema escrito por sua esposa Sandy, a canção atingiu a Billboard Hot 100, tornando-se o maior sucesso e o mais conhecido trabalho do músico.

Quase duas décadas depois, em 1992, a música acabou recuperada pelo grupo californiano de hard rock/pop Ugly Kid Joe, que a transformou – após uma discreta, porém providencial, atualização – em um dos carros-chefes de seu primeiro álbum oficial de estúdio, America’s Least Wanted (junto à jocosa e despreocupada “Everything About You“). E assim, da forma mais improvável possível – como em tantas outras histórias já relatadas aqui -, a pequena joia musical de Chapin ganhou vida nova, além da oportunidade de despertar curiosidade em uma audiência totalmente nova.

Pelo jeito, a chance não foi desperdiçada. Afinal, o que mais estamos fazendo aqui além de relembrar mais essa passagem da história da música?

ORIGINAL – HARRY CHAPIN – CAT’S IN THE CRADLE (1974)

ORIGINADA – UGLY KID JOE – CAT’S IN THE CRADLE (1992)