Resenha – Queens of the Stone Age, …Like Clockwork (2013)

Queens of the Stone Age em sua formação mais recente (Josh Homme é o segundo da direita para a esquerda): novo álbum é difícil de analisar, mas parece deixar pistas do caminho que a banda pode seguir

Queens of the Stone Age em formação recente (Josh Homme é o segundo da direita para a esquerda): novo álbum é difícil de analisar, mas parece deixar pistas do caminho que a banda pode seguir

...Like Clockwork (2013): novo álbum soa surpreendentemente mais como uma pista confiável dos caminhos que o Queens parece disposto a seguir daqui pra frente do que como mais uma extravagância naturalmente circunstancial

…Like Clockwork (2013): novo álbum soa surpreendentemente mais como uma pista confiável dos caminhos que o Queens parece disposto a seguir daqui pra frente do que como mais uma extravagância naturalmente circunstancial

Desde que foi anunciado, o novo álbum do Queens of the Stone Age já estava empatado no páreo pelo título de “disco mais esperado do ano” com o Random Access Memories, do duo francês Daft Punk (também falarei dele em breve). Talvez tenha sido por isso que …Like Clockwork, o ainda vindouro (oficialmente) trabalho de Josh Homme e companhia (previsto para sair no início de junho), tenha vazado exatamente um dia depois que o mais recente disco da dupla robótica de música eletrônica acabou se multiplicando – antes da hora – feito gripe pela rede (era pra sair em 20 de maio, mas uma semana antes disso já era possível encontrá-lo para download em sites diversos). Talvez nada disso tenha sido planejado e ambas as bandas só tenham acabado mesmo  tendo que lidar com um expediente pra lá de comum em tempos de conexões de banda larga.

De qualquer maneira, é preciso dizer que, nos últimos meses, tanto o Daft Punk quanto o Queens of the Stone Age já estavam dando um show de comunicação e marketing pré-lançamento, utilizando principalmente a internet. Estes últimos fizeram um uso magistral de seu canal no YouTube, publicando diversos vídeos – animações – “sonorizados” por algumas das faixas então inéditas e amarrados por um aparente conceito único, tanto em estilo quanto em narrativa. Ao mesmo tempo em que aumentavam a expectativa dos fãs, esses teasers (muitos dos quais estão publicados ao longo deste post para apresentar as faixas já divulgadas oficialmente pela banda) deixavam no ar a impressão de que o novo trabalho seria mais um álbum pesado, complexo e conceitual na discografia do QOTSA (tal qual o celebradíssimo Songs for the Deaf, de 2002, guardadas as devidas proporções).

Some-se a isso declarações intrigantes da banda à imprensa especializada e a divulgação de que o álbum contaria mais uma vez com Dave Grohl (Foo Fighters, Nirvana) na bateria (como em Songs for the Deaf) e com a participação de convidados do calibre de Nick Oliveri (ex-baixista e vocalista da banda), Trent Reznor (Nine Inch Nails), Alex Turner (Arctic Monkeys) e (pasme!) Sir Elton John, e tinha-se aí um fenômeno discográfico só esperando para nascer.

Bom, já que consegui botar a mão na massa antecipadamente, vamos de uma vez à análise do produto final (e que fique a recomendação: se você é fã de verdade, compre o oficial! Apoie as bandas de que você gosta! Seja em formato físico, seja no iTunes ou similares):

… Like Clockwork, sexto álbum de estúdio do QOTSA, é difícil de se comentar superficialmente. Um bocado mais difícil que o restante da discografia da banda (o que já não é pouca coisa). A primeira impressão mais nítida que se tem depois de algumas audições é a de que, após cinco discos bastante diferentes entre si – mas que parecem, de certa forma, dar a deixa um para o outro -, a inconstante trupe capitaneada pelo vocalista, guitarrista e compositor absoluto Josh Homme continua em uma espécie de busca interminável por um formato no qual se encaixar, em um prolífico e bem-vindo desconforto com aquilo que poderíamos chamar de “sua identidade”. Em retrospecto, apesar do “sotaque” facilmente identificável, a banda nunca conseguiu se acomodar – e talvez esteja aí o seu maior mérito.


Relembremos rapidamente (ou quase; você pode pular este e os três próximos parágrafos, se quiser, sem prejuízo nenhum), e com propósitos eminentemente pedagógicos, essa trajetória: Queens of the Stone Age (1998), o debute que veio três anos após Homme e Oliveri deixarem o finado Kyuss – um dos grandes representantes daquilo que chamaríamos de stoner rock -, era o retrato empolgante, vigoroso e imaturo de um novo grupo tentando mostrar ao mundo seu estilo, sua proposta, que, apesar de ainda dever muito às origens de seus membros fundadores, já era um pouco mais intrigante que a média, bem ao gosto de um novo milênio na história da música. O sucessor Rated R (2000) já mostrava uma banda mais confortável com suas raízes, embora igualmente disposta a experimentar – seja com a constante e por vezes impenetrável auto-referência, seja com violentas cutucadas na membrana que parecia definir os “limites” do rock -, e que ia conquistando silenciosamente o respeito da crítica e do público mais predispostos.

Foi então que o terceiro trabalho, Songs for the Deaf (2002), que, embora estivesse longe de ser uma unanimidade pop ou mesmo um disco de fácil absorção – como eu já disse, mesmo sem parecer tanto tratava-se de um álbum conceitual, cujas suítes psicodélicas, pesadas e hipnóticas até hoje são praticamente ignoradas pelos fãs de última hora -, acabou ganhando a simpatia generalizada e ainda mais ampla de público e crítica e chegou a ser encarado como o som do Queens of the Stone Age “em estado puro” depois de duas esforçadas tentativas anteriores de destilação em formato de disco. Pra ajudar, Homme convidara Dave Grohl, que já gozava de prestígio praticamente inabalável por sua história com o Nirvana e com o Foo Fighters, para assumir, em estúdio, as baquetas (coisa que o tal cidadão sempre fez MUITO BEM, melhor que qualquer outra, na minha modesta opinião), além de contar com palhinhas vocais de Mark Lanegan (ex-Screaming Trees) aqui e ali. Não tinha como dar errado. O álbum chocou (no sentido mais positivo da palavra) todo mundo e colocou a banda definitivamente no mapa do rock contemporâneo.

Foi logo depois disso que, na minha opinião, a beleza da inconstância característica do QOTSA deu sinais mais altos, claros e definitivos. Passados três anos, em 2005, a banda colocava na praça Lullabies to Paralyze, disco que deve ter dado uma rasteira considerável naqueles que esperavam uma continuação óbvia de Songs for…. Porque, em vez de simplesmente se repetir, ali os músicos somavam aos mais poderosos contornos de sua obra anterior uma aparente vontade de testar ainda mais os limites do gênero ímpar que acabavam de criar para eles mesmos. Ao peso contagiante, venenoso e algo psicodélico dos álbuns anteriores (em especial ao disco imediatamente anterior), a banda adicionou um experimentalismo ainda mais desvairado e um admirável descompromisso com as fórmulas às quais já havia recorrido. De certa forma, Lullabies… foi uma prova de que Homme e seus comparsas estavam decididos a não permanecer por muito tempo no mesmo lugar.

Comprovando, de certa forma, toda a tese exposta anteriormente, em 2007 o QOTSA veio com Era Vulgaris, uma veloz, suja e sacana negação frontal do patamar que eles mesmos haviam alcançado dois anos antes. Para alguns, o disco foi uma revigorante “volta às origens”, uma visita – protagonizada por um time evidentemente mais maduro – aos supostos “fundamentos” do som que, aparentemente, caracterizaria o “estilo” da banda. Discordo. Enxergo ali – haja vista que considero Era… um dos álbuns menos interessantes da discografia do Queens – uma relaxada, escandalosa e gratuita (na medida, apertada, em que é possível atribuir tal adjetivo à trajetória do grupo) ruptura (possivelmente premeditada?) com quaisquer expectativas que pairassem naquele momento sobre o bando de Homme. Teriam eles feito de propósito? Será que bolaram intencionalmente – para o lançamento que marcaria justamente o fim de um longevo contrato com a gravadora Interscope – uma obra difusa, áspera e absolutamente despreocupada com qualquer prognóstico comercial e de crítica? Talvez… Com a balada sexy “Make It Wit Chu” (e seu clipe carregado de hormônios) encarregada de fazer a frente radiofônica do disco e a esquizofrênica “Sick, Sick, Sick” (e seus ecos que remetiam ao já saudoso diamante stoner “Feel Good Hit of the Summer” – de Rated R) carregando a responsa de legitimar o álbum para uma parcela mais “conservadora” da audiência cativa (em que se pese o conhecido, imprevisível e extravagante composto sonoro que poderia se esperar do Queens), o lançamento se safou consideravelmente bem, principalmente – na minha opinião – por parecer, paradoxalmente, um sinal de que o QOTSA (apesar de configurar uma clara guinada estética em aparente marcha ré acelerada) havia, finalmente, abraçado uma fórmula confortável sobre a qual se estabelecer. Isso sem mencionar a evidente preguiça da crítica especializada, muito mais lenta em demolir um mito criado por ela mesma do que em sagrar um novo medalhão da indústria cultural.

Ok, já passa da hora de voltarmos a …Like Clockwork e seus méritos. Sigamos. No fim das contas vai acabar sendo pano rápido, que já gastei teclado demais nessa inchada (ainda que justificável, musicologicamente necessária, até) viagem no tempo. Confirmando a única constante aparente na obra do Queens of the Stone Age, o novo álbum cristaliza, uma vez mais, o retrato de uma entidade musical desesperadamente desconfortável com a ideia de repetição e continuidade. O novo disco, com suas 10 faixas e pouco mais de 45 minutos de duração, se descortina como um terreno absolutamente simpático à criatividade sempre efervescente de Homme (representante único da formação inicial da banda – e, nesse ponto, “dono” incontestável do “projeto” QOTSA) e à proposta absolutamente experimental, descompromissada, e volátil do compositor.

No entanto, por qualquer que seja a razão (ainda que puro palpite ou mera intuição), …Like Clockwork soa surpreendentemente mais como uma pista confiável dos caminhos que o Queens (e seu mentor) parece disposto a seguir daqui pra frente do que como mais uma extravagância naturalmente circunstancial. Levando-se em consideração que Josh Homme acaba de mergulhar nos 40,  já acumula passagens musicais memoráveis no currículo, além de ter vivido tudo e mais um pouco daquilo que seu estilo de vida pode proporcionar durante mais de duas décadas (embora também tenha, nesse meio tempo, arranjado tempo para constituir família), é de se compreender o clima mais sedimentado (embora ainda aventureiro) da obra. Do ponto de vista puramente formal, …Like Clockwork não chega a rasgar as blueprints arregimentadas pela banda durante seus 15 anos de trajetória. Ao contrário, o apanhado de canções de agora parece se beneficiar com extrema maestria e renovada ousadia dos caminhos trilhados anteriormente pelo grupo. Assim, o disco parece uma grande e diversificada celebração da trajetória do QOTSA até agora, ao mesmo tempo em que ainda permite que Homme coloque para fora, brilhantemente e na condição definitiva de bandleader, costuras líricas confessionais nunca antes suportadas de forma tão natural pelas narrativas intensas, de certa forma maníacas e hedonistas gestadas por ele mesmo e por seus comandados.

E, a propósito de tal entrega lírica intensa, sem sombra de dúvida o ruivo grandalhão (Homme) se torna o protagonista absoluto aqui – e já não era mesmo a hora, numa levada completamente natural e compreensível? – e com merecido louvor. O papel naturalmente dominante do frontman é tão evidente, merecido e cuidadosamente trabalhado no álbum que – bem ao gosto do espírito coletivo do QOTSA, aqui fatalmente exacerbado – as tão incensadas participações especiais das quais já falamos (incluindo Elton John, não se esqueça!) passam quase que completamente despercebidas, absolutamente a serviço do contexto  (fica aí o desafio: procure distingui-las no contexto do disco).

Trocando em miúdos, … Like Clockwork pode ser apenas mais um álbum para engrossar a discografia do Queens of the Stone Age, ainda que definitivamente não o seja. Minha aposta pessoal com relação a esse disco, que fica melhor a cada audição (o que, de forma alguma, significa que ele é ruim ou fraco, como se poderia pensar depois de tal qualificação), é que, contrariando toda a história construída até aqui, ele marca, de forma contundente, um novo capítulo na história da banda. Talvez uma passagem a  partir da qual Josh e sua gangue se vejam, finalmente, preparados para agarrar com determinação um pedaço seguro de rocha e, a partir dele, construir um caminho mais coerente e confortável – sem nunca deixar, como se espera, que a obviedade  se instale -, um caminho que apenas beneficie o potencial que eles já provaram ter. Até porque, olhando para …Like Clockwork, não consigo deixar de acreditar que possamos esperar, daqui pra frente, inesquecíveis, belos e comoventes manifestos gestados a partir daquilo que convencionamos chamar de música contemporânea. Vida longa ao QOTSA!

Anúncios

Resenha – Cold War Kids, Dear Miss Lonelyhearts (2013)

Cold War Kids: quando ouvi falar deles, tive preguiça. Depois de me forçar a ouvir, no entanto, quebrei a cara (felizmente)!

Cold War Kids: quando ouvi falar deles, tive preguiça. Depois de me forçar a ouvir, no entanto, quebrei a cara (felizmente)!

Dear Miss Lonelyhearts (2013): ao longo de suas 10 faixas e quase 40 minutos, um cenário em que cada canção é um admirável manifesto de originalidade e liberdade criativa

Dear Miss Lonelyhearts (2013): ao longo de suas 10 faixas e quase 40 minutos, um cenário em que cada canção é um admirável manifesto de originalidade e liberdade criativa

Já falei neste mesmo blog sobre preconceito musical – o meu próprio, inclusive. E nem um dia depois do primeiro mea culpa, já sou obrigado a admitir mais um caso em que minhas opiniões pré-concebidas caíram por terra quando me dei ao trabalho de simplesmente experimentar aquilo do qual eu já tinha “certeza” de que não iria gostar. Tem tempo pra ouvir a historinha, um prelúdio relativamente extenso para uma simples resenha? Então, lá vai. (e, se não, é só pular os próximos dois parágrafos)

Uma amiga minha perguntou, dia desses, se eu já tinha escutado o novo trabalho do Cold War Kids. “Que preguiiiiiça…”, pensei imediatamente. “Dessas bandas“, não da minha amiga – cujo gosto é até bastante elegante, pros padrões da minha rigorosa implicância -, que fique claro! E por “essas bandas” eu quero dizer [preconceito “on”] esses subprodutos do boom indie que nos acometeu de uns tempos pra cá. Protagonistas anêmicos da eleição semanal feita por revistas, sites, blogs e outras mídias especializadas (gringas e nacionais) pra escolher quem é a “última bolacha do pacote” da vez. Bandas com nomes espertinhos, integrantes estilosinhos – esquálidos, muitas vezes – e blasés,  com pouco SOM pra se comer de garfada, no fim das contas. [preconceito “off”].

E dizendo tudo isso eu dou voz a algo que, definitivamente, não me representa. E que faz, com razão, parecer que sou alguém fechado para o novo, quando quero crer que é exatamente o contrário. De peito aberto, no entanto, confesso que I don’t believe the hype. Muito pelo contrário, desconfio muito das “descobertas incríveis” dos caçadores de novidades. E tenho um imenso prazer de observar quando acontece de uma banda que descobri escavando por cantos aleatórios da web – e para a qual ninguém deu bola, mesmo depois das minhas entusiasmadíssimas recomendações -, ser coroada “esperança indie” do bimestre – já vi acontecer mais de uma vez e isso sempre me diverte, de um jeito agridoce. Pra tentar resumir, resisto, sim, a praticamente tudo que não me pega, não importa o volume de seda rasgada pelos “formadores de opinião” mais afoitos da área. E entendo que possam chamar isso de “ser xarope”. Eu também tenho o direito de achar que não passa de honestidade. Ah, e, pra passar a régua, não foram poucas as bandas que descobri – com genuíno prazer – por meio desses mesmíssimos canais. É aquela coisa: eles informam (uma vez que têm competência e estrutura pra tal), eu julgo, e, se me agrada, abraço sem dó. Ponto. E vamos a o que interessa!

Apesar da resistência inicial, resolvi me forçar a escutar o tal disco novo do Cold War Kids indicado pela minha amiga e voluntariosamente transferido por ela pro meu computador  – sei lá, ando tentando me colocar em situações desafiadoras; espero que isso me ajude a não virar um ranzinza patético. E, meus amigos, foi mais um tapa na cara. Claro que o álbum em questão está longe de ser SENSACIONAL, mas eu definitivamente não esperava que fosse me agradar tanto.

Dear Miss Lonelyhearts (2013) é o quarto disco de estúdio da banda formada por volta de 2004 em Long Beach, Califórnia (EUA). E mesmo sem ter escutado mais nada deles, já me atrevo a arriscar que esse deva ser o registro mais maduro da discografia do quarteto atualmente composto por Nathan Willett (vocais, piano, guitarra), Dann Gallucci (guitarra; ex-Modest Mouse), Matt Maust (baixo) e Matt Aveiro (bateria, percussão). Pesquisando na paralela descobri que pode ter rolado uma guinadinha no som dos caras, justamente pela chegada de Dann Gallucci (Dear Miss… é o primeiro com a participação dele), o que pode, definitivamente, nublar minha análise da banda. Mas, já que o objeto do papo é o álbum, vamos que vamos.

Vou começar essa breve – afinal, já gastei mais do que podia da minha saliva digital – apreciação dizendo que discos como Dear Miss Lonelyhearts são aquilo que me fazem ser grato à multiplicidade de produção cultural que os meios digitais proporcionaram. “Se dar bem” no mundo da música continua sendo o relativo fruto de uma complexa equação, mas pelo menos existem meios para que se crie – e distribua – tanta coisa fora das fórmulas mais habituais buriladas pela indústria cultural ao longo das últimas décadas. Vou colocar nos caras a etiqueta de “rock alternativo” e/ou “indie rock” mas, afinal, o que é isso? Em última instância, só ouvindo pra saber. De que adianta ficar enfileirando supostas referências que, por aproximação pra lá de obtusa, “ajudem” a criar uma impressão mental “pré-audição” no caro leitor? E já que a gente se acostumou a facilitar pela via do reducionismo, escolho só dizer (em outro exercício de estilo e comportamento) que me lembrou de The Rapture – outra de que desconfiei até ser fisgado violentamente por um tal som aí.

Mas, tentando desenvolver um pouco mais, Dear Miss Lonelyhearts (ótimo título, por sinal) e a própria Cold War Kids guardam, de certa forma, uma multiplicidade gostosa de se ouvir. O álbum compões diversos climas distintos ao longo de suas 10 faixas e quase 40 minutos, num cenário em que cada canção é um admirável manifesto de originalidade e liberdade criativa. Da alegremente frenética abertura “Miracle Mine” e seu enérgico piano, passando pelo saudável flerte com elementos eletrônicos na empolgante “Loner Phase” e na magnética “Bottled Affection” até a delicada, bela e particularíssima balada “Fear & Trembling“, o grupo vai desfilando seus atributos, seja o vocal confessional e narrativo de Willett, seja a guitarra (e a produção) de Galluci, ou mesmo a massa sonora inteligentemente cozinhada pela banda, no conjunto.

Embora esteja longe de ser “difícil”, Dear Miss… ainda fica melhor a cada audição – sobrando pro apreciador descobrir diferentes detalhes a cada play – e, muito provavelmente, o álbum já deve ter garantido (com méritos, se minha opinião vale alguma coisa) uma vaguinha nas famigeradas listas de “Melhores” que pipocam no final do ano. E o que mais falar, além de elogiar vigorosamente a consistência das composições, arranjos, desempenho dos músicos e produção? Só resta recomendar: vai logo atrás da sua cópia (ou download ilegal, hahaha) e dá logo um PLAY! E boa diversão!

Resenha – The Strokes, Comedown Machine (2013)

The Strokes: apesar do estranhamento, nada mais natural do que ver a banda escalando a pedregosa parede da evolução musical

The Strokes: apesar do estranhamento, nada mais natural do que ver a banda escalando a pedregosa parede da evolução musical

Comedown Machine (2013): só por desafiar frontalmente e com tanto desprendimento os parâmetros anteriormente estabelecidos por eles mesmos, os Strokes merecem aplausos genuínos, e uma efusiva recomendação para que se ouça o álbum com carinho e cabeça aberta

Comedown Machine (2013): só por desafiar frontalmente e com tanto desprendimento os parâmetros anteriormente estabelecidos por eles mesmos, os Strokes merecem aplausos genuínos, e uma efusiva recomendação para que se ouça o álbum com carinho e cabeça aberta

Quando “One Way Trigger” vazou na web, pouco depois de o The Strokes anunciar que estava preparando o seu quinto álbum de estúdio, muita gente achou que era piada. “Que porra é essa?”, deve ter pensado boa parte do contingente de fãs do quinteto novaiorquino que conquistou os indies com seu revival de post-punk e new wave no começo dos anos 2000. Afinal, a faixa soava como um “carimbó” ou “axé” alternativo (como li por aí), completamente impregnado de um clima eletrônico meio oitentista e, em certa medida, dançante, remetendo, de várias formas, ao debute solo do vocalista Julian Casablancas (Phrazes for the Young; 2009).

E quando o álbum completo finalmente vazou na web (Comedown Machine; RCA; data de lançamento oficial para 26 de março de 2013), o desespero se agravou. “O que é isso? Onde está o Strokes que aprendemos a amar? O que significa tudo isso?”, parecem ter sido as perguntas que ecoaram pelas cabeças da base de fãs ardorosos da banda. Realmente (e analisando na condição de alguém que nunca ligou muito para a banda), o disco parece representar um grupo em plena fuga alucinada de sua própria zona de conforto. E, na minha modesta opinião, isso é muito bom! Arrisco dizer que esse é o melhor movimento que a banda poderia escolher nessa altura do campeonato.

Veja bem: se há mais de 10 anos o grupo ganhou fama emulando (competentemente, que fique claro) uma sonoridade de pelos menos três décadas antes – temperando, evidentemente, o  resultado com personalidade própria – nada mais natural do que ver, agora, a banda escalando a pedregosa parede da evolução musical e situando-se, de certa forma, em algum lugar esquecido dos anos 1980. Assim, Comedown Machine parece ser um retrato contemporâneo dos Strokes olhando para trás, mas claramente a partir de um ponto de vista que também avançou no tempo.

Analisando friamente, o álbum – que começa com a excelente “Tap Out” [uma das melhores canções do ano até agora, arrisco] – não é muito mais do que regular, apesar dos méritos já citados. De qualquer forma – e o amigo apreciador genuíno de música há de concordar -, só por desafiar frontalmente e com tanto desprendimento os parâmetros anteriormente estabelecidos por eles mesmos, os Strokes merecem aplausos genuínos, e uma efusiva recomendação para que se ouça Comedown Machine com carinho e cabeça aberta – dá pra escutar na íntegra aqui. Se você nunca foi fã, a chance de gostar é ainda maior, anote aí.

E que eles continuem escalando!

Resenha – Nick Cave & the Bad Seeds, Push the Sky Away (2013)

Nick Cave & the Bad Seeds em 2013 (na ponta esquerda, Nick Cave; na ponta direita, Warren Ellis): uma banda em franca experimentação após quase 30 anos de carreira

Nick Cave & the Bad Seeds em 2013 (na ponta esquerda, Nick Cave; na ponta direita, Warren Ellis): uma banda em franca experimentação após quase 30 anos de carreira

Push the Sky Away (2013): o disco parece mais um interlúdio na trajetória da banda. Uma Polaroid ainda fresca do momento vivido pelo grupo em transformação, um trabalho belo, mas evidentemente intermediário

Push the Sky Away (2013): o disco parece mais um interlúdio na trajetória da banda. Uma Polaroid ainda fresca do momento vivido pelo grupo em transformação, um trabalho belo, mas evidentemente intermediário

Lançado no final de fevereiro de 2013, Push the Sky Away é o décimo quinto álbum de estúdio de Nick Cave & the Bad Seeds. Separado por cinco anos do último trabalho deles (o explosivo Dig, Lazarus, Dig!!!, de 2008), o registro é também o primeiro da história do grupo a não contar nem com o guitarrista e vocalista alemão Blixa Bargeld (que deixou os Bad Seeds  em 2003, um ano antes do ótimo – e duplo – Abbatoir Blues/The Lyre of Orpheus), nem com o multi-instrumentista Mick Harvey (que saiu em 2009), ambos membros fundadores, junto com Cave.

Com a ausência dos dois, que contribuíram tanto para a sonoridade da banda ao longo de quase 30 anos, ficou com o versátil Warren Ellis, alistado na trupe em 1995 (e que formou junto com Cave o já finado Grinderman, além de ter feito algumas trilhas para o cinema na companhia do compositor), a tarefa de dar a tônica – junto com os tradicionais pianos e Rhodes pilotados por Nick – ao álbum. O resultado pode ser uma surpresa para muitos, uma vez que não se parece muito com quase nenhum marco da discografia da banda, à exceção, talvez, de You Funeral… My Trial (1986), mas, ainda assim, de forma bem vaga e muito menos maníaca.

O clima composto pela dobradinha Nick Cave/Warren Ellis em Push the Sky Away soa, de certa forma, tão monocromático e delicado quanto a (belíssima) capa do álbum. O que não significa, evidentemente, que o tédio encontre espaço para se instaurar ao longo dos pouco mais de 40 minutos distribuídos ao longo das nove faixas – embora o ouvinte casual possa sentir um leve formigamento nos músculos de sua paciência adormecida.

A maioria das canções se apoia confortável e naturalmente nas construções instrumentais suaves, harmoniosas e, muitas vezes, discretamente percussivas construídas pelos músicos e arquitetadas e arranjadas por Ellis quase como se ele estivesse operando um conjunto de loops eletrônicos. Em raríssimos momentos um instrumento em particular toma para si o spotlight (como o teclado que conduz “We No Who U R“, a faixa de abertura e primeiro single, ou a guitarra que toca repetidas vezes o riff de “Jubilee Street“, segunda música de trabalho do álbum – veja os vídeos abaixo).

Em meio a tudo isso, a voz de Cave aparece pouco disposta a muito mais que o barítono monocórdico habitual, praticamente ocupando a posição definitiva de “narrador” onisciente das estórias sombrias e agridoces que povoam o universo lírico do autor, e acompanhada, em momentos-chave, de belíssimos arranjos quase celestiais executados pelos backing vocals. Posso estar enganado, mas, até então, Nick Cave nunca tinha se aproximado tanto assim da spoken word – modalidade com a qual ele sempre flertou bastante, é verdade. E, dito isso, sua poesia, aqui tão ou mais afiada e dúbia quanto o habitual, se beneficia incrivelmente das escolhas estéticas do álbum. Sobram espaços e caminhos para a construção de contos impregnados de amor (ao estilo Cave), humor negro, comentário social e o eterno desconforto de nossa existência.

Definitivamente, Push the Sky Away não é uma indicação acertada para quem nunca tomou contato com a obra de Cave e seus Bad Seeds (pode acabar até sendo bastante subestimado se analisado sem uma visão ampla de contexto). Ao contrário, o disco parece mais um interlúdio na trajetória da banda. Uma Polaroid ainda fresca do momento vivido pelo grupo em transformação, um trabalho belo, mas evidentemente intermediário e que pode ser comparado, puramente em termos de guinada estética, ao belíssimo The Boatman’s Call (1997) e, no campo da clara busca por renovação e identidade, ao menosprezado Nocturama (2003). De qualquer forma, é um must have para os cavemaníacos, pra quem o disco pode significar, além de tudo, um belo calmante na espera pela próxima obra-prima de Nick e seus comparsas – e, acredite, se a banda não acabar, ela deve aparecer logo mais – uma aposta pessoal do musicólogo aqui.

Resenha – Christopher Owens, Lysandre (2013)

Christopher Owens (ex-Girls): antes de qualquer coisa, ele queria ser um legítimo songwriter

Christopher Owens (ex-Girls): antes de qualquer coisa, ele queria ser um legítimo songwriter

Capa de Lysandre, de Christopher Owens (2013): uma história de amor sincera com final algo agridoce como a conversa risonha de um amigo na madrugada e à meia luz

Capa de Lysandre, de Christopher Owens (2013): uma história de amor sincera com final algo agridoce como a conversa risonha de um amigo na madrugada e à meia luz

Na segunda metade de 2012, o compositor, vocalista e guitarrista Christopher Owens deixou o Girls, banda que havia formado com o amigo multi-instrumentista Chet “JR” White apenas alguns anos antes. A notícia chocou as audiências indie ao redor do globo, uma vez que Father, Son, Holy Ghost, segundo disco do duo – lançado em meados de 2011 – conquistou crítica e público com sua mistura de rock alternativo/progressivo e soul, e gerou muita expectativa sobre o que a parceria  da dupla de músicos residentes em São Francisco (EUA) produziria a seguir [ouça aqui “Vomit“, uma das mais aclamadas canções do segundo álbum do Girls].

Owens, cuja história de vida renderia bem mais que um único post neste blog, anunciou em julho de 2012 – por meio de sua conta no Twitter – que estava deixando a banda por motivos pessoais, mas que continuaria compondo e produzindo música.  Já em outubro do mesmo ano o músico divulgava que o primeiro disco solo viria em 2013.

Em janeiro de 2013, Lysandre ganhava as ruas. E, embora algumas declarações à imprensa e apresentações informais de parte novo material já dessem pistas, só mesmo escutando para sacar um pouco melhor o rumo que o rapaz escolheu para esse primeiro capítulo de sua vida pós-Girls. Pra quem conhece bem sua antiga banda não é segredo que, com toda a sua terna ingenuidade como pessoa e como compositor, Owens quer, antes de qualquer coisa, ser um legítimo songwriter ou storyteller. E em seu debute isso fica ainda mais evidente. Desde a escolha por um primeiro álbum eminentemente conceitual – Lysandre trata do brevíssimo, mas profundo, romance entre o então frontman do Girls em sua primeira turnê com a banda e uma garota francesa (a Lysandre do título) -, até as letras ainda mais narrativas e confessionais do que nos tempos de banda, passando pelos arranjos elegantes porém concisos – servindo sempre à história contada por Owens com sua voz frágil e doce e seus dedilhados românticos.

Assim, ao longo de pouco menos de 30 minutos, o disco faz o ouvinte passear por uma história de amor sincera (ainda que possa parecer exagerada) com final algo agridoce como se escutasse à conversa risonha de um amigo na madrugada e à meia luz. E como essa conversa imaginária, Lysandre é inconstante, engasgada em alguns momentos, mas cheia de uma beleza simples e arrebatadora em outros. Uma audição que vale a pena e que cresce a cada repetição. Um bom (re)começo para o garoto simples que só queria compor canções bonitas.

Ouça o disco na íntegra aqui, cortesia do selo responsável pelo lançamento de Lysandre, Turnstile Music.

Resenha – Dave Matthews Band, Away from the World (2012)

Dave Matthews (Band) em 2012: confortável para repetir, inovar ou confundir, e é isso aí

Dave Matthews (Band) em 2012: confortável para repetir, inovar ou confundir, e é isso aí

A capa de Away from the World (2012): a DMB em condições normais de temperatura e pressão na segunda década do terceiro milênio e uma espécie de "volta às origens" sem sabor de nostalgia

A capa de Away from the World (2012): a DMB em condições normais de temperatura e pressão na segunda década do terceiro milênio em uma espécie de “volta às origens” sem sabor de nostalgia

A Dave Matthews Band é uma das maiores entidades da música pop em atividade atualmente. Uma prova disso é que com o lançamento de Away from the World (RCA, 11 de setembro de 2012), oitavo disco de estúdio da turma capitaneada pelo vocalista/violonista/compositor que dá nome ao grupo, a banda pode atingir uma marca respeitável e até então inédita: emplacar o sexto álbum consecutivo no primeiro posto da Billboard na semana de estréia (atualização às 14h12, 19/09: eles conseguiram! Quebraram o recorde!). Fora a comoção a cada lançamento, a devoção dos milhões de daveheads (fãs hardcore) espalhados pelo mundo todo, e os verdadeiros happenings em que se transformam as (muitas) apresentações ao vivo – que, para alguns, são a verdadeira epítome das principais qualidades da DMB (como é chamada pelos “iniciados”).

A despeito de, mas sem se esquecer disso, Away from the World, chega às lojas (e, consequentemente, à web) após uma longa gestação, sucedendo Big Whiskey & the GrooGrux King (RCA; 2 de junho de 2009), álbum marcado pela morte do saxofonista e membro fundador LeRoi Moore (que faleceu em decorrência de um acidente com um ATV – espécie de quadriciclo motorizado – em 2008, com o disco ainda em produção) e que acabou virando uma grande homenagem póstuma ao músico – ele seria o GrooGrux King do título, entre tantas outras referências, declaradas, nesse sentido.

Isso posto, para ouvintes de ocasião o novo álbum é uma boa coleção de canções pop. Belas, acima da média e transmutadas em som dentro de um contexto bastante particular perceptível – “Podia ter mais refrões aí, né? E, ai, a voz desse cara é meio irritante, anasalada, sabe? Difícil de definir o som deles. É rock?” eu consigo imaginar como quick reviews de rodinha por aí. E é isso. Ponto. Definitivamente Away from the World não é um disco para “descobrir” a DMB. Isso já foi – com a oportunidade expirando muito provavelmente na gema Before These Crowded Streets, de 1998. Não, o álbum é – quer queira, quer não – para iniciados. Pra quem ouviu Everyday (2001) e Stand Up (2005), despretensiosas guinadas pro pop rock de FM (aquele mais, este menos, e do jeito DMB de ser, claro), com uma alegria contemplativa, documental e sem cobranças por um bobo “stay real” ou algo que o valha. Não necessariamente apenas para os supracitados daveheads, mas pra quem encara o ato de descobrir cada novo registro da banda como uma viagem viva pelo passado, presente e o repertório particular de Dave, Stefan, Boyd, Carter e LeRoi (in memorian) – o núcleo da DMB.

Concebido tempos depois da condição absolutamente determinante registrada em GrooGrux…, o disco acabou – imagino eu, que não sou membro da banda, conhecido de nenhum deles e nem muito afeito a esmiuçar entrevistas com os músico, por mais que eu goste deles – sendo uma oportunidade de retratar a Dave Matthews Band em condições normais de temperatura e pressão na segunda década do terceiro milênio, quatro anos após a morte de um de seus principais membros e quase 20 anos depois de seu primeiro registro fonográfico (o debute independente Remember Two Things, de 1993). Então agora os membros da banda estão beirando os 50 (quando já não passaram disso), milionários, amplamente reconhecidos, bem resolvidos quanto a suas marcas registradas musicais, sem muito compromisso com agradar ninguém que não eles mesmos (excetuando-se aí a possibilidade sempre presente de um contrato leonino com a gravadora) e naturalmente inclinados a afirmações e questionamentos com contornos mais definidos do que “Could I have been a parking lot attendant?” (“Dancing Nancies“, 1994)  – não que essa não seja uma pergunta válida até o fim da vida de qualquer um. E, mais importante, absolutamente livres para deixar fluir a influência de seja qual for a musa que inspirou tanta coisa boa (e nem sempre de fácil digestão) nas últimas décadas.

O fato é que Dave Matthews e seus comparsas talharam aqui uma espécie peculiar de “volta às origens” (como eu odeio essa classificação, tão cara a tantos críticos de música) sem sabor de nostalgia. Vê-se (ouve-se) aí indícios cristalinos de uma banda confortável com seu legado, ainda que disposta a seguir experimentando e trilhando caminhos não tão óbvios. Como é bom, na condição de admirador – comedido – da banda, sentir isso! E, nessa toada, Away from the World é uma peça que soa mais coerente e encantadora – e que se encaixa cada vez melhor na biografia/discografia da DMB – a cada audição (e, NÃO, isso não é um eufemismo para um disco chato, difícil, ou ruim, para colocar de uma maneira simplória). O álbum é foda – especialmente relevando-se tudo o que tentei enumerar anteriormente -, para colocar de forma simples.

Num faixa-a-faixa pra lá de rasteiro dá pra dizer que:

“Broken Things”, “Belly Belly Nice” e “Mercy” (primeiro single do disco) – as três faixas iniciais do álbum – chegam chegando e agradam de primeira, soando (cada uma com suas particularidades, evidentemente) como uma visita à vibe do que a banda produziu nos anos 1990 temperada pelo amadurecimento dos caras e decorada discretamente com os arroubos mais FM da discografia do grupo. E aqui preciso dizer que, de uma maneira não tão óbvia, “Belly Belly Nice” me lembrou – de uma forma muito saudável e difícil de explicar – What Would You Say” e “So Much to Say” (dois hits dos anos 1990).

Seguindo, “Gaucho” é coisa nova, mas com a cara da DMB ao mesmo tempo. Algo que transita entre Before These Crowded StreetsBusted Stuff (ou, como eu prefiro, Lillywhite Sessions) e Everyday (só pra ter por onde comparar). E aí vem a primeira grande cisão.

“Sweet”, como o nome adianta, é uma doce balada de voz e ukelele (instrumento inédito, até onde sei, em gravações/apresentações da banda). Boa ponte para “The Riff”, “Belly Full” e “If Only” que, com suas construções menos familiares – por assim dizer – poderiam ser definidas como um núcleo mais representativo de Dave Matthews e companheiros se arriscando em territórios não tão conhecidos (a “assinatura” mais visível dessa época, desse registro em particular, talvez).

Daí para a frente é um pouco mais confortável ver a banda brincando (magistralmente) com “Rooftop” (cujo riff inicial parece um convite para nos lembrarmos que estamos diante de uma banda com bagagem) e  Snow Outside“.

E é aí que, não mais que de repente, chega “Drunken Soldier”, o ato final, faixa que poderia ser colocada em uma moldura como uma continuação inata de Don’t Drink the Water” e sua irmã quase gêmea Bartender” – épicos maiores da carreira da DMB.

Então, meu amigo, em algum momento perto do fim, quando você ainda está assimilando tudo o que aconteceu e se perguntando sobre uma referência – proposital ou não – ao Pink Floyd nessa última carta de intenções que é o encerramento do mais recente trabalho da banda do Dave Matthews, é que bate: “Puta que o pariu. Imagina só o próximo”.

E é isso.

Ah, que mancada! Quase esqueci de dizer que o álbum foi produzido magistralmente (pra variar) pelo incrível Steve Lillywhite, de volta depois de trabalhar com a DMB em discos como os fundamentais “Under the Table and Dreaming”, “Crash” e “Before these Crowded Streets” (além do belíssimo e não-oficial “Lillywhite Sessions”, que depois virou “Busted Stuff” na discografia oficial da banda). Aplausos para o cara. Mesmo. 

Ainda é preciso falar que, embora seja fácil e natural sentir falta dele, o buraco deixado por LeRoi Moore nos instrumentos de sopro aqui é preenchido de forma competentíssima por Jeff Coffin, do Bela Fleck & The Fleck Tones (banda meio irmã mais velha da DMB que, inclusive, dividiu os palcos com os caras por mais de uma vez em performances pra lá de inesquecíveis).




Resenha – Cat Power, Sun (2012)

Cat Power versão 2012: minha voz ainda é a mesma, mas os meus cabelos - e os meus arranjos -, quanta diferença!

Cat Power versão 2012: minha voz ainda é a mesma, mas os meus cabelos – e os meus arranjos -, quanta diferença!

Capa de Sun (2012), novo álbum de Cat Power

Capa de Sun (2012, Matador), novo álbum de Cat Power

Depois de seis anos sem lançar um disco de canções autorais e pouco tempo depois de terminar um relacionamento de longa data com o ator Giovanni Ribisi, Chan Marshall – mais conhecida pelo seu stage name Cat Power – botou na praça Sun (03 de setembro, Matador), nono álbum de estúdio de sua carreira. E se em 2012 Chan renovou a vida afetiva e até o visual (dá uma olhada nos cabelinhos curtos na foto acima ou no vídeo promocional da faixa “Ruin” abaixo), o que dizer de seu som?

Bem, não seria exagero dizer que Sun é uma das coisas mais originais e contemporâneas que Cat Power já produziu até hoje dentro de sua própria estética particular. Se em The Greatest (2006) era o southern soul que banhava o seu indie rock confessional e melancólico, em Sun são as texturas, programações e efeitos eletrônicos que dão a tônica. Mas tudo sem soar como modismo (se bem que, convenhamos, estamos em 2012) ou frivolidade, e com as composições de Marshall (que, aliás, gravou praticamente tudo sozinha e ainda produziu e mixou, com a ajuda de Philippe Zdar – do Cassius) no centro do show, como de costume. A guinada no formato gerou canções ora perfeitamente dançantes, ora atmosféricas e algo experimentais. A voz da moça continua bela e ronronada como nunca, e a produção se aproveita disso, brincando com overdubs que, por vezes, dão a impressão de que estamos diante de um coral de Chans. E guitarra sempre providencial de Judah Bauer (The Jon Spencer Blues Explosion, com quem Cat Power vem tocando desde 2006) é a cereja do bolo.

Mais uma vez, quem estranhou a mudança de direção de The Greatest vai, de novo, demorar a se habituar com Sun. Mas quem acredita que um artista naturalmente muda de rumos em diferentes momentos de sua trajetória vai, muito provavelmente, curtir as novas paisagens pintadas por Cat Power. O álbum é surpreendentemente mais feliz e otimista do que a média da discografia de Chan, talvez por estar quase finalizado à época do rompimento com Ribisi, que, aliás, apenas dois meses após o fim do relacionamento com a cantora, se casou com a modelo britânica Agyness Deyn – boatos dão conta de que ela apressou o lançamento do disco depois da separação.

Uma última nota a respeito da vida pessoal da força criativa por trás de Cat Power: “Nothin’ But Time”, uma das mais poderosas canções do novo trabalho – com seus épicos 10 minutos e 55 segundos e a participação discreta de Iggy Pop nos vocais lá pelas tantas -, é dedicada à filha adolescente de Ribisi, com quem Chan, que não tem filhos, teria desenvolvido uma relação bastante maternal. “You got nothin’ but time/And it ain’t got nothin’ on you”, diz parte da letra, que parece um grande – e belo – discurso de mãe, sem ser piegas.

Em suma, Sun é o retrato de uma artista que cresceu e que – tudo indica – continuará amadurecendo bem. Chan já tem 40 anos, passou por muita coisa desde que saiu de Atlanta (Georgia, EUA) para se tornar a queridinha dos indies de boa parte do mundo, incluindo aí o alcoolismo, as agruras da fama, a depressão e um (quase) casamento que não deu certo. Nesse ponto da carreira é bom vê-la ainda experimentando e buscando novas sonoridades, mas com a segurança de quem já encontrou sua própria voz.