Originais & Originados – The Zutons (2006) x Mark Ronson & Amy Winehouse (2007) – “Valerie”

Amy Winehouse: junto com o músico e produtor inglês Mark Ronson a cantora registrou uma versão ainda mais atraente de "Valerie", da banda The Zutons

Amy Winehouse: junto com o músico e produtor inglês Mark Ronson a cantora registrou uma versão ainda mais atraente de “Valerie”, da banda The Zutons

Mais um caso daqueles em que parece que a música original estava só esperando um outro intérprete registrar sua versão definitiva. Segundo single do segundo disco da banda britânica The Zutons (Tired of Hanging Around; 2006), a divertida “Valerie” ganhou uma roupagem ainda mais atraente e grudenta na regravação gestada pelo músico e produtor inglês Mark Ronson, que convidou a saudosa Amy Winehouse para assumir os vocais na faixa que faz parte de seu segundo álbum (Version; 2007). E aí, de qual das encarnações da canção você gosta mais?

ORIGINAL – THE ZUTONS – VALERIE (2006)

 

ORIGINADA – MARK RONSON & AMY WINEHOUSE – VALERIE (2007)

 

BÔNUS: AMY WINEHOUSE CANTANDO “VALERIE” AO VIVO 

Novidadeiro – O pop sem rosto da Sia

Sia: de "operária" do pop a estrela incógnita

Sia: de “operária” da música a estrela “incógnita” do pop

Pra mim a Sia é um dos fenômenos mais interessantes da história recente da música pop. Nascida Sia Kate Isobelle Furler (em 1975, na Austrália), a cantora e compositora – ainda pouco conhecida no Brasil – é uma das mais influentes forças criativas por trás da estética atual do pop comercial estadunidense. Esse vídeo demonstra um pouco melhor a importância da moça, reunindo canções pop de sucesso recente que foram compostas por ela e gravadas por “medalhões” das paradas de sucesso radiofônico. Mas o fato relevante aqui é que essa ilustre “desconhecida” do público em geral recentemente resolveu se arriscar mais uma vez como artista popular, colocando na praça um disco totalmente composto e interpretado por si mesma. E digo “mais uma vez” porque, paralelamente ao seu trabalho como compositora, na primeira década dos anos 2000 Sia lançou nada menos que seis discos autorais que foram promovidos de maneira no mínimo preguiçosa pelas gravadoras com as quais ela havia assinado – trabalhos que foram recebidos com pouca atenção pela crítica especializada e com ainda menos entusiasmo pelo público consumidor.

Mas eis que, no fatídico ano de 2014, em um movimento digno de uma verdadeira fênix da música, a australiana não só conseguiu gestar uma autêntica obra-prima pop como também surpreender todo mundo reinventando a significação de sua própria imagem e provocando uma quebra de paradigma emblemática na relação entre público, mídia e artista. De maneira planejada ou não (só podemos especular), a cantora passou a se apresentar como uma figura misteriosa, se recusando a mostrar o rosto e a associar sua imagem ao seu trabalho musical. Em entrevista concedida à revista Billboard (2013), ela divulgou um manifesto anti-fama em que explicitou as razões para se preservar da atenção voraz do público (em suma, as supostas mazelas já tão exaustivamente comentadas da popularidade – invasão de privacidade e etc.), ao mesmo tempo em que preparava o terreno para a divulgação de sua próxima criação: o álbum 1000 Forms of Fears (2014; RCA), registro cru, emocionante e sedutor de uma poderosa e renomada entidade criativa completamente no controle de sua própria obra.

Nessa nova fase de sua carreira, em consonância com o manifesto publicado na Billboard, Sia simplesmente – e surpreendentemente, para os padrões comerciais atuais – eliminou quase completamente a exposição pública de sua figura na promoção do novo disco (basta ver a capa do álbum pra entender), utilizando recursos interpretativos incomuns tal qual a presença de uma bailarina pré-adolescente – Maddie Ziegler (ver os vídeos abaixo) – como uma espécie de dublê protagonista das performances ao vivo e dos videoclipes  das canções produzidos para a divulgação do álbum, enquanto a própria cantora simplesmente não aparecia (no caso dos videoclipes) ou apenas permanecia plantada no canto do palco, cantando de costas para a platéia (nas apresentações ao vivo; como nessa aparição no programa da Ellen DeGeneres). E ao exercitar essa opção por uma exploração radicalmente reservada de sua imagem – ciente das implicações ou não -, a artista acabou por chamar ainda mais a atenção da crítica especializada e do público médio. “Que porra é essa, uma cantora que não mostra a cara?”, pareciam perguntar os acostumados à dinâmica que já pressupõe a figura do artista como componente indispensável da magnitude e instrumento de reverberação de sua produção.

Mas, procurando neutralizar todo o peso desse recurso estilístico/midiático empregado pela Sia,  vamos à análise objetiva do produto discográfico que ela botou no mundo. Ao longo do – ótimo, confesso, já resumindo minha avaliação – álbum, Sia derrama todo o seu talento obviamente acima da média em letras claramente mais inteligentes do que aquelas com as quais costumamos topar na música pop atual e em vocais extremamente competentes e carregados de nuances interpretativas e contornos emocionais (inúmeras vezes é possível notar “escorregadas” claramente propositais no desempenho vocal – passagens em que a cantora ‘falha’ na execução servindo a um poderoso e comovente componente estilístico e narrativo). São 12 faixas em 1000 Forms of Fears, sendo que pelo menos oito delas imediatamente saltam à atenção pelo potencial melódico/dramático.

Destaque evidente para “Chandelier”, faixa de abertura e carro-chefe do disco com sua soberba carga dramática (veja o clipe abaixo, protagonizado pela já citada Maddie Ziegler e sua dança interpretativa), para a energia upbeat de “Hostage” (composta em parceria com o guitarrista do Strokes, Nick Valensi), para o épico “Elastic Heart” (que ganhou clipe estrelado pelo ator Shia LaBeouf e, novamente, pela dançarina mirim Maddie Ziegler – ver a seguir) e para a canção que a Rihanna daria tudo para interpretar, “Fire Meet Gasoline”. O álbum (que ostenta uma enigmática capa composta por um fundo preto ornamentado somente pelos contornos do penteado loiro platinado que virou uma espécie de marca registrada da Sia, ainda que ela não mostre a cara) transcorre agradavelmente ao longo de seus quase 50 minutos. Trata-se de um disco descaradamente pop, mas sensivelmente acima da média, com potencial para cativar até mesmo o mais enjoado dos ouvintes (note-se que O musicólogo aqui, por exemplo, não é particularmente um apreciador desse tipo de som, como você já deve ter percebido).

Não se surpreenda caso você se pegue escutando 1000 Forms of Fears no repeat. O disco que serviu de veículo para a reinvenção da artista Sia tem detalhes que desabrocham e contornos que soam cada vez mais harmônicos e inteligentes a cada audição. É uma obra “pop descartável” contraditoriamente reaproveitável (com o perdão do paradoxo). Mesmo em uma encarnação natural de produto para consumo rápido e rasteiro, o álbum dá sinais de um potencial longevo que só se apresenta em obras forjadas no calor do talento inquestionável e da rara e inequívoca vocação para a narração quase fotográfica dos dramas contemporâneos.

Preparando a volta!

Depois de um longo e tenebroso inverno o musicologo está armando um retorno! Imagem: Psy Guy - http://commons.wikimedia.org/wiki/Winter#/media/File:Snow_Scene_at_Shipka_Pass_1.JPG

Depois de um longo e tenebroso inverno o musicologo está armando um retorno! Imagem: Psy Guy – http://commons.wikimedia.org/wiki/Winter#/media/File:Snow_Scene_at_Shipka_Pass_1.JPG

Depois de um longo e tenebroso inverno O musicólogo vai voltar à ativa! Aguarde e confie! Por enquanto vá explorando o consideravelmente prolífico arquivo do blog! Nos vemos em breve com conteúdos inéditos!

Especial – Mixtape One-hit Wonders no “Achados da Bia”

Capa da Friday Mixtape One-hit Wonders: dessa vez minha playlist se encarregou de resgatar algumas das mais famosas bandas ou artistas que emplacaram um único grande hit em sua carreira, ficando para sempre gravadas na história da música pop como eternas promessas frustradas

Capa da Friday Mixtape One-hit Wonders: dessa vez minha playlist se encarregou de resgatar algumas das mais famosas bandas ou artistas que emplacaram um único grande hit em sua carreira, ficando para sempre gravadas na história da música pop como eternas promessas frustradas

Dia desses tive o imenso prazer de ser convidado mais uma vez para contribuir com a Friday Mixtape do blog “Achados da Bia“. Dessa vez minha playlist se encarregou de resgatar algumas das mais famosas “one-hit wonders” – bandas ou artistas que emplacaram um único grande hit em sua carreira, ficando para sempre gravadas na história da música pop como eternas promessas frustradas, lembradas somente por conta de seus sucessos solitários. Tenho certeza de que você vai reconhecer boa parte delas, ainda que talvez nunca tenha reparado no nome das músicas ou das bandas que as gravaram.

Note que, uma vez mais, a assinatura da mixtape leva o nome do cara por trás do personagem “O musicólogo”, mas não se engane, sou eu mesmo. Divirta-se! Dê o PLAY no plugin abaixo ou lá no blog pra relembrar esses contagiantes filhos únicos do sucesso.

E não deixe de comentar aqui contando qual é a sua “one-hit wonder” preferida ou qual música você acha que ficou faltando na seleção.

Originais & Originados – Los Kjarkas (1981) x Kaoma (1989) x Jennifer Lopez (2011) – “Llorando Se Fue”/ “Lambada [Chorando Se Foi]”/ “On The Floor”

Jennifer Lopez em cena do clipe de "On the Floor": eis aí a história de um hit latino que passou do castelhano boliviano para o português brasileiro e daí para o inglês das paradas de sucesso pop

Jennifer Lopez em cena do clipe de “On the Floor”: eis aí a história de um hit latino que passou do castelhano boliviano para o português brasileiro e daí para o inglês das paradas de sucesso pop

Eis aí a história de um hit latino que passou do castelhano boliviano para o português brasileiro e daí para o inglês das paradas de sucesso pop. A canção “Llorando Se Fue” (1981), dos bolivianos do Los Kjarkas, transformada em “Lambada”/”Chorando Se Foi” (1989) pela banda brasileira Kaoma, acabou como inspiração para Jennifer Lopez (feat. Pitbull) em sua “On The Floor” (2011).

ORIGINAL – LOS KJARKAS – LLORANDO SE FUE (1981)

ORIGINADA – KAOMA – LAMBADA/CHORANDO SE FOI (1989)

ORIGINADA – JENNIFER LOPEZ (FEAT. PITBULL) – ON THE FLOOR (2011)

Shuffle – “Evolution of Get Lucky [Daft Punk Chronologic cover by PV NOVA]”

Como é que o Daft Punk soaria em diferentes momentos ao longo da história da música?: produtor/músico/DJ francês usou o hit precoce "Get Lucky" para conduzir um interessante exercício estilístico

Como é que o Daft Punk soaria em diferentes momentos ao longo da história da música?: produtor/músico/DJ francês usou o hit precoce “Get Lucky” para conduzir um interessante exercício estilístico

Carro-chefe e prenúncio do mais recente álbum do duo francês de música eletrônica Daft Punk, a canção “Get Lucky” causou alvoroço na internet antes mesmo de ser lançada oficialmente, com um burburinho alimentado principalmente por uma prévia em formato de comercial de 30 segundos em vídeo. Enquanto esperava novidades mais substanciais a respeito daquilo que viria a ser o próximo trabalho da dupla depois de um hiato de 8 anos sem registros inéditos de estúdio, a audiência da web usou e abusou da criatividade para transformar a pequena prévia musical em peças completamente novas – só pra exemplificar: uma das tentativas de apropriação da música ressaltava que, ao se acelerar a rotação da faixa, consequentemente subindo os tons da canção para patamares mais agudos, os vocais pareciam ter sido gravados pelo falecido Rei do Pop, o cantor Michael Jackson. Tudo isso constituindo um reflexo natural e bastante sintomático da relação contemporânea entre audiência e artistas, um processo de troca dramaticamente afetado e potencializado pelas possibilidades da era digital e seus novos paradigmas.

Bem, depois que Random Access Memories – o disco inédito em questão – finalmente ganhou as ruas no final de maio, e quando parecia que o frenesi criativo de uma audiência ansiosamente participativa fatalmente havia minguado, tivemos pelo menos mais uma demonstração digna de nota a respeito dessa nova lógica em que a dissolução de uma obra por entre as inúmeras e imprevisíveis interpretações, reações e reinterpretações originadas justamente a partir de seus pretensos receptores (antes uma massa  tradicionalmente passiva) é sinônimo de uma mensagem entregue com sucesso, de um estímulo que provocou reação, processamento, resposta, engajamento (a moeda corrente mais valorizada quando o papo é sobre aquilo que resolveram chamar de sucesso na contemporaneidade).

Constituindo algo próximo de uma prova definitiva de que as reações atualmente provocadas por determinado produto da indústria cultural são muito mais interessantes (na medida em que formam um conjunto agregado mais complexo, mais rico) do que o mero produto em si, topei com essa pérola. Usando “Get Lucky” como argila para uma escultura, o músico/produtor/DJ francês (conterrâneo do Daft Punk) PV Nova construiu uma breve linha do tempo (sonora) imaginária supondo como soaria o Daft Punk nas décadas de 1920, 1930, 1940, 1950, 1960, 1970, 1980, 1990, 2000, 2010 e até 2020. Tudo isso concretizado em uma série sequencial de interpretações quase didáticas (em se tratando da estética de cada época) de “Get Lucky“. Conforme transcorre a canção, é possível ouvir (e supor) como é que ela soaria se tivesse sido composta, por exemplo, durante o predomínio do jazz frenético das big bands dos anos 1950, ou em plena febre dançante dos sintetizadores e ritmos eletrônicos dos anos 1980.

Confira abaixo o exercício estilístico hipotético sem se esquecer de toda a contextualização. Afinal, o que significam essas manifestações provocadas quase que instantaneamente pela indústria cultural de hoje? E, de que forma essa nova conjuntura de reação aos produtos dessa indústria vai alterar a lógica da produção cultural? Ah, e se todo esse papo for encheção de saco demais pra você, só se ligue na maluquice que o cara aí inventou! Loucura!

Vídeo da semana – “Dumb Ways to Die” (2012), campanha musical engraçadinha sobre segurança na linhas de trem australianas é umas das favoritas do Cannes Lions 2013

Dumb Ways to Die: campanha musical engraçadinha sobre segurança é uma das apostas para o festival Cannes Lions 2013

Dumb Ways to Die: campanha musical engraçadinha sobre segurança é uma das apostas para o festival Cannes Lions 2013

Campanhas publicitárias sobre segurança não costumam primar pelo bom humor. Entende-se. É um assunto muito sério. Ao mesmo tempo, dificilmente nos lembramos de alguma peça sobre o tema – seja impressa, para TV, rádio, internet ou outros meios. Seria por causa da neutralidade sóbria que predomina nesses trabalhos?

No final de 2012, no entanto, “Dumb Ways to Die” (veja o vídeo traduzido para o português ao final), que trata da segurança na utilização e convivência com os trens metropolitanos da região de Melbourne, na Austrália, fez enorme sucesso no mundo todo – alavancada pela internet – justamente por tratar uma coisa tão séria quanto a morte de maneira leve e até divertida (?) – atualmente, o vídeo original já acumula quase 50 milhões de visualizações.

A campanha, encomendada pela Metro Trains da terra dos cangurus à agência McCann daquele país, conquistou a audiência principalmente por conta de uma animação de 3 minutos que mostra “maneiras estúpidas de morrer” (tradução de “Dumb Ways to Die”), misturando absurdos como “usar suas partes íntimas como isca de piranha” a riscos mais reais, como “atravessar os trilhos entre as plataformas do trem”. Captou a mensagem? O sucesso foi tanto que a ação é uma das grandes apostas para faturar alguns leões no grande festival de criatividade e propaganda Cannes Lions 2013, que acontece entre 16 e 22 de junho em Cannes, na França.

Mas, e o que tudo isso tem a ver com música? Bom, mais da metade da graça de toda a campanha é a grudenta e bonitinha (?) canção homônima utilizada para narrar os enormes absurdos cometidos pelos simpatissíssimos e energúmenos bonequinhos que “dão a vida pela causa” graciosamente (tenho um dó danado do personagem que morre vestido de alce em plena temporada de caça – a expressão no rosto dele quando o chumbo começa a voar é de partir o coração).

Dumb Ways to Die“, a canção, foi composta e produzida por Ollie McGill, da banda australiana de ska e jazz The Cat Empire, com letra de John Mescall (que também fez os backing vocals) e vocais principais de Emily Lubitz, da banda Tinpan Orange, também da Austrália – a voz doce e a maneira quase infantil de cantar dessa última é um dos elementos que mais contribui para o humor negro da coisa toda. A música foi registrada sob o nome do grupo fictício Tangerine Kitty, uma mistura com os nomes dos projetos dos envolvidos, e está disponível até para download no iTunes.

Veja o vídeo da campanha baixo e arrisque o palpite: será que leva algum prêmio em Cannes? Porque já levou em inúmeros outros festivais pelo mundo… E, por favor, não vá morrer de algum jeito idiota, hein? 😉