Originais & Originados – Gloria Jones (1965/1976) x Soft Cell (1981) x Marilyn Manson (2001) – “Tainted Love”

Gloria Jones e Marc Bolan  em registro dos anos 1970: e não é que ela é a mãe do hit (gravado duas vezes) que eu creditava ao Soft Cell?

Gloria Jones e Marc Bolan em registro dos anos 1970: e não é que ela é a mãe do hit (gravado duas vezes) que eu creditava ao Soft Cell?


Eis aí uma música que me surpreendeu quando descobri que se tratava de uma versão. Eu podia jurar que era uma composição original do Soft Cell (1981), mas na verdade a confessional “Tainted Love” é uma canção de Gloria Jones (1965), regravada novamente pela artista com uma pegada disco em 1976 para aproveitar uma onda súbita de popularidade. A música ainda foi revisitada por Marilyn Manson para a trilha do filme de comédia besteirol Not Another Teen Movie (2001) – pelo menos as gerações mais novas puderam conhecer essa pérola pop.

ORIGINAL – GLORIA JONES – TAINTED LOVE (1965)

 

ORIGINAL – GLORIA JONES – TAINTED LOVE (1976)

 

ORIGINADA – SOFT CELL – TAINTED LOVE (1981)

 

ORIGINADA – MARILYN MANSON – TAINTED LOVE (2001)

Originais & Originados – Fatboy Slim x Vários – “The Rockafeller Skank” (1998)

Norman Cook, mais conhecido como Fatboy Slim: seu primeiro grande hit, "The Rockafeller Skank", é um "cozidão" de músicas do passado

Norman Cook, mais conhecido como Fatboy Slim: seu primeiro grande hit, “The Rockafeller Skank”, é um “cozidão” de músicas do passado

Temos aí um belo exemplo da cultura do sampler e de como o fortalecimento do gênero eletrônico nos mostrou novas formas de encarar o ato de fazer música. A discussão é longa e complexa, mas não pretendo entrar nela agora – quem sabe um dia? A intenção aqui é só entreter e informar usando mais esse episódio da história do pop. E vamos a ele!

Em 1998 o músico e DJ inglês Norman Cook, mais conhecido pelo nome artístico Fatboy Slim, ganhou o mundo com seu segundo álbum, You’ve Come a Long Way, Baby. A mistureba de estilos amarrada pela produção eminentemente eletrônica presente no disco conquistou as massas de todo o mundo com o potencial dançante e despreocupado de suas 11 faixas. Mas, apesar da qualidade geral do trabalho, foi a escalafobética “The Rockafeller Skank” (segunda do álbum) que catapultou Cook para o sucesso comercial absoluto. Lembro que na época era difícil definir onde diabos encaixar aquele som que misturava – em pleno ocaso da década de 1990 – guitarras rockabilly/surf music e vocais hip hop reconstruídos na base do sampler num contexto absolutamente dançante (veja o clipe oficial da música na sequência).

Apesar do estranhamento inicial, o som do DJ logo botou muita gente pra chacoalhar (deve funcionar na pista até hoje) e foi o primeiro degrau para uma extremamente bem sucedida trajetória que hoje conhecemos muito bem. Até aqui, nenhuma novidade (exceto que talvez você não soubesse o nome verdadeiro do Fatboy). Agora vamos à parte interessante.

No fim das contas, apesar de “The Rockafeller Skank” ser – sem sombra de dúvidas – uma obra original (principalmente considerando-se a época em que foi lançada), fruto do talento e do trabalho de Fatboy Slim, a música também não deixa de ser, simplificando – e muito -, uma “mera’ reconstrução de um punhado de outras canções, habilmente combinadas de forma a se tornarem um “novo” produto.

Destrinchando, a música de 1998 não apresenta nada de novo além de trechos de:

– “Vinyl Dogs Vibe” (1997), dos Vinyl Dogs com participação de Lord Finesse, de onde Fatboy tirou os vocais que repetem exaustivamente os versos “Right about now / The funk soul brother, check it out now“;

– “Sliced Tomatoes” (1972), modesto hit sulista do duo norte-americano Just Brothers, que se revela basicamente o recheio instrumental do som de Norman Cook.

Além dessa combinação básica, que é a espinha dorsal da música, ainda temos detalhes menores pinçados de:

– “I Fought the Law” (1965), de The Bobby Fuller Four, que cedeu uma enérgica e indefectível virada de bateria;

– “Beat Girl – Main Title” (1960), trilha do filme britânico Beat Girl (também de 1960) composta e executada por John Barry, de onde saiu um pedacinho de riff de guitarra carregado nos bends;

– “Peter Gunn” (1986), da banda Art of Noise com participação do guitarrista Duane Eddy, que também “cedeu” uma linha de guitarra.

Pra fechar, um fato interessante: em entrevista concedida em 2006, Fatboy Slim afirma que dividiu igualmente entre os compositores das faixas por ele utilizadas para criar “The Rockafeller Skank” os royalties da música, o que significa que ele não recebeu nenhum centavo de direitos autorais pela canção. Será verdade? Bom, se for, é uma baita (e nobre) exceção no mundo da música pop, onde, atualmente, produtores como Timbaland frequentemente deixam de creditar (que dirá remunerar) os artistas responsáveis pelas músicas que eles sampleiam para criar seus próprios sucessos.

Bom, agora que você conheceu todos os elementos reconfigurados para gerar esse hit contemporâneo, que tal ouvir novamente “The Rockafeller Skank”? Consegue identificar todos os recortes utilizados ali? E qual sua opinião sobre esse tipo de composição? O que você acha da utilização de samplers? Deixe o seu recado nos comentários e vamos abrir esse debate!

Até a próxima, funk soul brother!

Originais & Originados – Nina Simone (1964) x The Animals (1965) x Joe Cocker (1969) x Santa Esmeralda (1977) – “Don’t Let Me Be Misunderstood”

A cantora Nina Simone: originalmente feita para ela, a canção "Don't Let Me Be Misunderstood" acabou ganhando várias versões bastante distintas entre si

A cantora Nina Simone: originalmente feita para ela, a canção “Don’t Let Me Be Misunderstood” acabou ganhando várias versões bastante distintas entre si

Taí um som – puta som, por sinal – que cada um conhece por uma versão, muitas vezes ignorando a simples existência das demais. “Don’t Let Me Be Misunderstood” foi gravada por gente tão foda ou com interpretações tão singulares que acabou virando uma espécie de grande obra coletiva na história da música.

Escrita pelos compositores Bennie Benjamin, Sol Marcus e Gloria Caldwell/Horace Ott (que, imagino, nunca tiveram motivos pra reclamar da grana de direitos autorais que acabariam recolhendo pelos anos seguintes), a canção foi originalmente transformada em partitura com endereço certo: o piano da High Priestess of Soul, a cantora norte-americana Nina Simone, que a incluiu no álbum Broadway-Blues-Ballads (1964).

Mesmo sem conseguir atingir sucesso comercial, a encarnação original da música – meio jazzy, lentinha, com elementos orquestrais e resumidamente inclassificável como todo registro de Nina Simone – acabou atravessando o Atlântico e chegando aos ouvidos de Eric Burdon e seus The Animals. Os ingleses prontamente temperaram a composição com sua tradicional mistura de R&B e rock, acelerando o tempo e marinando a receita com um memorável riff duplo de guitarra e órgão, e transformaram a faixa em single do álbum Animal Tracks (1965). Foi sucesso instantâneo, chegando a ocupar o 3° lugar nas paradas do Reino Unido – tanto que até hoje muita gente atribui à banda a autoria da música.

Quatro anos depois, em 1969, foi a a vez de outro monstro dos anos 1960 se dobrar ao poder de “Don’t Let Me Be Misunderstood”. Naquele ano, o cantor de blues rock Joe Cocker (conhecido pela capacidade de se apropriar com muita personalidade das canções que escolhia gravar) incluiu sua própria versão da música em seu disco de estreia, With a Little Help from My Friends (que também continha a antológica interpretação do sucesso homônimo dos Beatles). A resultante pode ser comparada com o rebuliço (no bom sentido) que Cocker fez no trabalho de Lennon e McCartney. Em suas mãos, a canção ganhou contornos mais pesados, psicodélicos e uma atmosfera bastante sentimental, engrossando o arsenal da estreia.

E quando parecia que todo mundo já tinha pintado e bordado o suficiente com a música – aqui aproveito pra dizer que mais um sem-número de artistas a interpretaram ao longo dos anos, incluindo Elvis Costello e Cyndi Lauper -, em 1977 o grupo europeu de disco music (com um tempero hispânico/latino/”exótico”) Santa Esmeralda transformou – em seu álbum de estreia – aquilo que havia começado mais de uma década antes com a voz inconfundível de Nina Simone em uma espécie de baile gitano anabolizado. Estendida em forma de duas faixas – a abertura, com o próprio nome da canção, e a segunda, uma espécie de “rabeira” instrumental do tema, batizada de “Esmeralda Suite” – a música totalizava mais de 15 minutos de gravação, ocupando um lado inteiro do formato original – em vinil – do lançamento. Em 2003, essa reconstrução “épica” foi utilizada – magistralmente, diga-se de passagem – pelo diretor Quentin Tarantino em uma das cenas mais marcantes do filme Kill Bill Vol. 1 (quem assistiu não esquece).

Bem, aqui embaixo você encontra, em sequência cronológica, essas quatro versões emblemáticas de “Don’t Let Me Be Misunderstood“. Não esqueça de dizer nos comentários qual a sua preferida, ou de qual delas você se lembrou primeiro! E boa  diversão!

ORIGINAL – NINA SIMONE – DON’T LET ME BE MISUNDERSTOOD (1964)

 

ORIGINADA – THE ANIMALS – DON’T LET ME BE MISUNDERSTOOD (1965)

 

ORIGINADA – JOE COCKER – DON’T LET ME BE MISUNDERSTOOD (1969)

 

ORIGINADA – SANTA ESMERALDA – DON’T LET ME BE MISUNDERSTOOD (1977)