É ruim, mas eu gosto – Paula Abdul, “Straight Up” (1988)

Paula Abdul: antes de se tornar uma das juradas do programa de TV American Idol a moça fora cantora, compositora, dançarina, coreógrafa e  atriz. "Straight Up" é um de seus hits, ruim mas extremamente gostável

Paula Abdul: antes de se tornar uma das juradas do programa de TV American Idol a moça fora cantora, compositora, dançarina, coreógrafa e atriz. “Straight Up” é um de seus hits, ruim mas extremamente gostável

Bem antes de Paula Abdul se tornar uma das juradas do programa de TV American Idol a moça já havia sido cantora, compositora, dançarina, coreógrafa e  atriz. Na passagem dos anos 1980 para 1990 Paula deixou sua breve mas profunda marca na cultura pop: uma das provas definitivas disso é o hit “Straight Up“, canção do álbum Forever Your Girl (1988), debute da artista e um de seus mais populares sucessos comerciais. A canção, apesar de ser bem ruim, é muito boa, carregada de uma energia oitentista bacana e de um descompromisso dançante extremamente condizente com a época (aproveite a oportunidade para conhecer também a despretensiosa versão da música executada pela banda Tallahassee). Evidentemente ruim, mas claramente boa o bastante pra dizer que eu gosto. Vamos que vamos!

Da estante – Danzig (1988), Danzig

Danzig (com Glenn Danzig em primeiro plano): o primeiro frontman do Misfits preferiu seguir carreira solo

Danzig (com Glenn Danzig em primeiro plano): o primeiro frontman do Misfits preferiu seguir carreira solo

Danzig (1988), álbum homônimo de estreia do projeto solo de Glenn Danzig: do punk desleixado influenciado por filmes B do Misfits ao hard rock/blues dark obcecado por temáticas ainda mais obscuras

Danzig (1988), álbum homônimo de estreia do projeto solo de Glenn Danzig: do punk desleixado influenciado por filmes B do Misfits ao hard rock/blues dark obcecado por temáticas ainda mais obscuras

Que fique avisado: nesse aqui vou ser curto e grosso, como os melhores sons do Danzig.

Pouco depois de deixar o posto de vocalista do Misfits, banda de horror punk que o apresentou ao mundo, e após uma breve tentativa com o Samhain, Glenn Danzig resolveu investir em um projeto que carregava seu próprio “sobrenome” artístico (ele nasceu Glenn Anzalone, em 1955).

O homônimo debute em disco – Danzig – ocorreu em 1988, carregando muito pouco de sua primeira banda – do punk desleixado influenciado por filmes B ao hard rock/blues dark obcecado por temáticas ainda mais obscuras. De igual, somente o vocal meio crooner, meio Elvis Presley, meio Jim Morrison, meio zumbi alienígena de Danzig.

Ali, a roupagem era totalmente outra: mais “séria” que na época do Misfits, com sons um pouco mais arrastados e palatáveis (intencionalmente ou não). Tanto que “Mother“, sexta faixa do álbum, acabou se tornando um hit improvável com seus vocais obscuros e sensuais e sua pegada “blues infernal”.

Enfim, mais um belo exemplar na prateleira da história do rock e do punk. Dá pra ouvir o disco inteiro aqui embaixo. Boa diversão!

Lista – 10 músicas para ouvir durante o sexo

10 músicas para ouvir durante o sexo

Antes de mais nada, deixa eu dizer que essa lista foi praticamente encomendada pelo pessoal do popularíssimo blog Somente Coisas Legais, que estava bastante a fim de divulgar uma seleção desse naipe. Some-se a isso o fato de que rankings de quase qualquer espécie parecem atrair muita atenção na internet e de que sexo é um chamariz universal e temos aí mais um post gloriosamente destinado ao sucesso – e extremamente carregado de hormônios.

Bem, para aqueles que querem se aprimorar na lida, novos truques são sempre bem-vindos. E uma playlist cuidadosamente escolhida pode, comprovadamente, ajudar a esquentar as coisas e criar um clima bacana  para aqueles momentos íntimos, por assim dizer.

Apresento-lhes, então, dez músicas para se ouvir durante o sexo (sempre torcendo, no entanto, para que a brincadeira dure ainda mais que isso). Ao final do post você também encontra a playlist já montada na sequência para o seu maior conforto!

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10-) Portishead – “Glory Box” (1994)

A canção que, de certa forma, resume o trip-hop do Portishead é muito provavelmente uma das músicas mais sexy de todos os tempos. Abrindo o “show” com essa você já larga com vantagem.

09-) The Beatles – “I Want You (She’s So Heavy)” (1969)

Já provei antes que os Beatles fizeram, sim, músicas bastante sensuais. E essa é uma das mais poderosas entre elas. Praticamente uma carta de intenções em forma de som.

08-) Lou Reed – “Walk on the Wild Side” (1972)

Quem poderia imaginar que o errático e eterno “poeta junkie” Lou Reed seria uma boa escolha (principalmente enquanto ainda estamos nas preliminares)? Eu não acreditava na eficiência do cara até comprovar.

07-) Chris Isaak – “Wicked Game” (1989)

Ok, essa é clichê até não poder mais, além de te fazer correr o risco de simplesmente ter que parar tudo pra pensar “Afinal, por que diabos ele resolveu mandar essa modulação vocal bizarra no refrão? O que ele estava pensando?“. Mas, vale o risco, afinal, o único sucesso digno de menção da carreira do Chris Isaak é um clássico absoluto da sacanagem.

06-) The Zombies – “Time of the Season” (1968)

Apesar de seu nome mórbido, a banda deve ter embalado vários amassos com este hit da década de 1960. “It’s the time of the season for loving!“.

05-) Divinyls – “I Touch Myself” (1991)

Segunda one hit wonder da lista, as Divinyls botaram o mundo pra cantar versos safados como “I love myself / I want you to love / When I feel down / I want you above me“. Ao ouvi-la, no entanto, cuidado pra não levar muito a sério a mensagem principal da canção e deixar ninguém “na mão”.

04-) Luther Vandross – “Never Too Much” (1981) 

Com base no que já rolou até aqui, essa pedrada soul oitentista é até bastante inocente e romântica. Mas o balanço de Luther Vandross é certeiro pra manter o fogo aceso.

03-) George McCrae – “I Get Lifted” (1974) 

Esse “funkeiro” da Flórida conseguiu criar uma das canções mais sexy dos anos 1970. Preste atenção no rebolado do baixo, se conseguir. “Girl, I can tell ya’, you turn me on“, declama nosso terceiro lugar. Pois é…

02-) Marvin Gaye – “Sexual Healing” (1982)

Tava demorando, né? Mas, enfim, ele apareceu. Medalha de prata para a escancarada celebração das, hummm, “propriedades terapêuticas” do lovemanking criada pelo absoluto e inconfundível Marvin Gaye. Ah, depois não deixe de conferir também a despretensiosa versão do Soul Asylum (aquela de “Runaway Train“).

01-) Marvin Gaye – “Let’s Get it On” (1973)

Olha, eu juro que tentei fazer diferente, mas não tem pra ninguém! É Mr. Gaye na cabeça, de novo! Ouro para a canção que praticamente significa sexo. Mesmo absolutamente banalizada por anos e anos de utilização em todo e qualquer momento que minimamente sugira uma pegação, “Let’s Get it On” é o hino dos amantes, dos cabelos bagunçados, da respiração ofegante, das pernas entrelaçadas, corpos suados, bocas enlouquecidas e suspiros satisfeitos depois do grand finale.


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######### PLAYLIST COMPLETA DAS 10 MÚSICAS PARA OUVIR DURANTE O SEXO – É só dar o play e correr pro abraço!

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***BONUS TRACK – Marvin Gaye – “Keep Gettin’ it On” (1973)

Meu, o cara gostava tanto da coisa que, no disco que trazia o histórico hit acima (batizado com o mesmo nome da faixa, Let’s Get it On, 1973), ele ainda mandou uma espécie de suíte da canção, sugestivamente sugerindo “Keep getting it on“. Uma boa trilha para aquele momento em que se começa a considerar um segundo round. Vai com fé, meu amigo/minha amiga! 😉 And keep getting it on!

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É ruim, mas eu gosto – Technotronic, “Pump Up the Jam” (1989)

Technotronic, "Pump Up the Jam" (1989): O visual do clipe é horrendo. O lip sync também. Não vou nem comentar a dança. É tudo muito ruim no vídeo. Mas, da música eu gosto, embora o estilo seja, no mínimo, duvidoso

Technotronic, “Pump Up the Jam” (1989): O visual do clipe é horrendo. O lip sync também. Não vou nem comentar a dança. É tudo muito ruim no vídeo. Mas, da música eu gosto, embora o estilo seja, no mínimo, duvidoso

É com prazer que inauguro mais uma seção aqui no blog: É ruim, mas eu gosto chega pra expor os bons e velhos “guilty pleasures”, aquelas músicas que dão vergonha de admitir que a gente gosta.Aproveitando a presente onda de nostalgia dos anos 1990 – que, há cerca de cinco anos, eu previ que logo aconteceria como uma continuação natural da revisão histórico-musical dos anos 1980 -, trago um exemplo quase definitivo do objetivo dessa seção.

Technotronic, “Pump Up the Jam” (1989)
O visual do clipe é horrendo. O lip sync também. Não vou nem comentar a dança. É tudo muito ruim no vídeo. Mas, da música eu gosto, embora o estilo seja, no mínimo, duvidoso – tanto que, coincidência ou não, um termo que parece corruptela de parte da letra, “Pump It Up!“, virou, em português, o apelido “poperô“, aplicado a quase qualquer dance music, ou som pop dançante e com elementos eletrônicos tocado em “boates” na década de 1990. Fora que o Technotronic foi um dos expoentes dessa vertente musical.

Ainda tem uma história engraçada por trás dessa música. O terreno onde ficava a fábrica de bebidas do meu falecido avô materno (que faliu bem antes de eu nascer), no interior paulista, em determinada época, durante os anos 1990, abrigou uma academia (que também já fechou), além da casa da minha avó e de um tio. De longe, brincando com meus primos no estacionamento coberto de brita, eu ouvia as músicas que a galera botava no som pra embalar a malhação. Foi onde escutei “Pump Up the Jam” pela primeira vez. Anos atrás redescobri a canção por causa da MTV e, desde então, é hit obrigatório em festas quando eu boto a mão no som. Sério.

E já que estamos estreando seção nova, aqui vai de brinde outra pérola noventista do Technotronic. Essa eu cheguei a tocar com a banda D. Explosion, um power trio de dance-punk que tive antes de fundar a Strange Music. Enjoy.

Originais & Originados – George Clinton x Snoop Dogg – “Atomic Dog” (1982) / “Who Am I (What’s My Name)?” (1993)

George Clinton em toda sua exuberância multicolor: a história sobre um "cachorro atômico" serviu, uma década mais tarde, de cartão de visita pra um dos grandes nomes do rap norte-americano

George Clinton em toda sua exuberância multicolor: a despretensiosa história de um “cachorro atômico” contada pelo ex-mentor do Parliament/Funkadelic nos anos 1980 serviu, uma década mais tarde, de base para o cartão de visita de um dos grandes nomes do rap norte-americano

O caso em questão diz respeito mais a uma homenagem/referência/releitura do que a uma versão propriamente dita. Bem, o lance todo começa assim: em 1982, após a dissolução da entidade funk por ele capitaneada (as fodidíssimas bandas irmãs siamesas Parliament/Funkadelic – das quais vou falar qualquer hora com certeza), George Clinton lança seu primeiro disco solo, Computer Games e, com ele, a faixa mezzo eletrônica oitentista mezzo funk “Atomic Dog“, uma música alegre, dançante, sacolejante e aparentemente bobinha (a canção versa, numa análise superficial, sobre o comportamento dos cães – que correm atrás de gatos e de suas próprias caudas -, e que tem como personagem central um tal de “atomic dog” [cachorro atômico], que é o sujeito do refrão contagiante da música).

Ok.

Fast foward para a década seguinte e eis que, em 1993, o hoje popularíssimo rapper norte-americano Snoop Dogg, então um iniciante na cena revisita o som de Clinton em “Who Am I (What’s My Name)“, uma das músicas mais populares de Doggystyle, seu disco de estréia, e que rendeu um clipe (veja abaixo) exibido à exaustão na MTV brasileira (e, imagino, gringa) na época. É claro que, como é peculiar do rap e do hip-hop, a faixa – apesar de apoiada em uma canção já existente – ganhou personalidade própria com a narrativa e as rimas de Snoop Dogg. Mas é quando chega o refrão que fica claro a fonte na qual o rapper bebeu. E aí a linha vocal executada pelos backing vocals de George Clinton nos anos 1980 – entoando o mantra “Atomic doooooog / Atomic doooooog” – se transmuta, em plena década de 1990, na resposta cantarolada em coro “Snoop Dogg / doooooogg / Snoop Dogg / doooooogg” (além de outras pequenas semelhanças com a original) para a insistente pergunta “What’s my motherfuckin’ name?“, proferida por Snoop ao longo da música (a faixa ainda conta com alguns outros samples de músicas do Parliament e do Funkadelic, talvez uma pista de que rolou mesmo uma homenagem a Clinton).

Uma bela apropriação histórica da nata da música black em um dos hits que ajudou a botar o rap no mapa da música pop nos anos 1990. E, naquele momento, muito mais que uma referência explícita e despropositada causada pela falta de inspiração (como viria a acontecer com vários medalhões do rap no final da década), um certo atestado de qualidade e bom gosto para o então neófito Snoop Dogg. Embarcando na máquina do tempo: com esse gabarito, seja muito bem-vindo.

ORIGINAL – GEORGE CLINTON – ATOMIC DOG (1982)

ORIGINADA – SNOOP DOGG – WHO AM I (WHAT’S MY NAME)? (1993)

Arqueologia sonora – Pixies

Pixies: os mentores acidentais do assalto protagonizado pelo "rock alternativo" ao imaginário coletivo da música pop nos anos 1990

Pixies: os mentores acidentais do assalto protagonizado pelo “rock alternativo” ao imaginário coletivo da música pop nos anos 1990

Não é sem considerável pesar – na condição de musicólogo – que admito ter ignorado até muito recentemente – e quase em sua totalidade – a importância do Pixies nos autos da música pop (ou comercial) recente. Obviamente que eu já estava a par da existência da banda comandada por Black Francis ou Frank Black (compositor/guitarrista/vocalista) e já havia balançado – em inúmeros episódios de minha trajetória de “pessoa musical” – ao som das composições mais “palatáveis” da trupe que também incluía a baixista/vocalista Kim Deal, o guitarrista Joey Santiago e o baterista Dave Lovering. Mas é que foi só muito recentemente que parei pra analisar produção/contexto e reconhecer a banda norte-americana formada no final dos anos 1980 como algo maior que um clássico – ainda que competente e interessante – clichê indie anacrônico. E então fecha-se (em meu folclore pessoal, antes ou depois de mais nada) a conta registrando o Pixies como um dos mais representativos mentores acidentais da tal “revolução” do rock alternativo yankee que tomou de assalto as rádios, as paradas de sucesso, a mídia especializada (ou nem tanto) e o imaginário do público consumidor de música durante boa parte da década de 1990 na forma de movimentos improváveis (porém absolutamente compreensíveis – ainda que não tão exatamente organizados como querem fazer crer) como o grunge e na consolidação de um nicho viável de produção relativamente distanciado do que se convencionou chamar de “rock” durante e logo após os anos 1980.

Com suas construções canhestras, lógica e execuções tipicamente amadoras (e de maneira alguma procuro destacar isso como um aspecto negativo – ao contrário) e energia produtiva tipicamente desligada da engrenagem músico-corporativo de sua época, o quarteto criado em Boston (Massachusetts) acabou inspirando, graças a sua estética (resumidamente baseada na espontânea, porém fresca – para a época -, alternância de dinâmica sonora [passagens mais “calmas” e trechos mais “explosivos”]) e conteúdo (as letras quase – se não completamente – surrealistas de Francis Black) absolutamente descompromissada com a agenda do “rock corporativo” (uma tentativa inata da indústria de, desconjuntadamente, ‘cercar’ o chamado ‘rock ‘n’ roll’ em um chiqueirinho povoado por mulheres, drogas e rebeldia de snooker bar) da época, o Pixies acabou fornecendo combustível intelectual (ainda que acidental, frise-se) para bandas embrionárias – à época – como o Nirvana. Basta pesquisar um pouco pra saber que – a despeito de influências um tanto óbvias quanto Melvins e o rock setentista – foi a tentativa (confessa, segundo minha pesquisa) de emular o som do Pixies que levou Kurt Cobain (só pra ficar em um exemplo que contempla o expoente “máximo” do grunge) a criar o hino “Smells Like Teen Spirit“. Isso posto, contemplemos o Pixies como uma das pedras fundamentais da liberdade criativa que, hoje, quase 30 anos depois de seu surgimento, se consolida no espectro praticamente ilimitado de bandas fazendo o que querem fazer a partir do “ponto de largada” do “rock”.

Originais & Originados – Rick James x Mc Hammer – “Super Freak”/“U Can’t Touch This”

Mc Hammer: numa rotina comum nos anos 1990 o cara pegou um sucesso de 20 anos antes e fez seu próprio hit

Mc Hammer: numa rotina comum nos anos 1990 o cara pegou um sucesso de 10 anos antes e fez seu próprio hit

Hoje em dia é difícil encontrar alguém que não conheça o sacolejante hit “U Can’t Touch This” (1990) do Mc Hammer. Na real, por experiência própria,  é só botar a referida canção no PLAY que todo mundo sai tremelicando magicamente. Pois acho que você – que, com certeza, já tremelicou ao som desse hit – gostaria de saber que o digníssimo Mc precursor das calças saruel pegou essa base poderosa emprestada do compositor/cantor de soul/funk Rick James e seu hit dos anos 1980Super Freak“. E a música pop é isso aí mesmo. Uma reciclagem permanente daquilo que faz a galera balançar. Não importa o tipo de calça que você escolha usar…

ORIGINAL – RICK JAMES – SUPER FREAK (1981)

ORIGINADA – MC HAMMER – U CAN’T TOUCH THIS (1990)

Da estante – Too High to Die (1994), Meat Puppets

Too High to Die (1994): até quando penderam pro "rock de FM" os Meat Puppets conseguiram mostrar por que são uma das bandas mais originais da virada dos anos 80 para os 90

Too High to Die (1994): até quando penderam pro "rock de FM" os Meat Puppets conseguiram mostrar por que são uma das bandas mais originais da virada dos anos 80 para os 90

 Se você não conhece absolutamente nada sobre os Meat Puppets, talvez seja melhor começar lendo o verbete deles no All Music. Mas vou dar uma contextualizada, já que adoro a banda. Eles começaram no ano de 1980, no estado norte-americano do Arizona, fazendo hardcore/punk rock alternativo com levíssimas pitadas de country music. O debute homônimo do trio, formado pelos irmãos Curt (guitarra) e Cris (baixo) Kirkwood mais o baterista Derrick Bostrom (responsável também pela maioria das artes das capas dos discos da banda) e lançado em 1982, ao mesmo tempo em que casava com o momento musical daquele país, já saía bastante da forma (o que viria a ser uma marca registrada dos Puppets). Nos anos seguintes, a banda lançou os seminais Meat Puppets II (e guarde esse nome) e Up on the Sun já mostrando a cara amadurecida de seu som – uma mistura psicodélica de rock alternativo com folk, country e punk – entre outros elementos. E apesar de conquistar espaço entre os artistas mais influentes e originais do rock do final dos anos 1980 (ao lado de bandas como Husker Dü e Minutemen, por exemplo), o trio acabou ficando à margem do sucesso na indústria fonográfica e radiofônica.

Pois bem. A luta canhestra dos Puppets contra a sina do underground (declarações do baterista Derrick Bostrom dão conta de que em 1989 a banda já tinha tentado pender pro rock de arena [“Well, we’re not getting any younger”] ‘and we’re not making any money’ – eu ousaria completar – teria considerado, na época, Curt Kirkwood] até o fatídico ano de 1994. Naquele ano, morria outro ‘Kurt’ – o Cobain, do Nirvana. Coincidentemente ou não – em termos comerciais -, após a morte da estrela maior do grunge, saiu o MTV Unplugged Nirvana (em novembro), gravado no ano anterior, 1993. Como era tradição do formato, o Nirvana tinha espaço pra tocar alguns covers e chamar músico convidados ao palco do show registrado em Nova York. Muita gente esperava alguém do naipe de Eddie Vedder (do Pearl Jam) ou Chris Cornell (Soundgarden) pra uma espécie de celebração ao estilo gestado em Seattle. Porém, Cobain – um mestre voluntarioso na arte da provocação, e com influências até obscuras demais para sua legião de fãs – convocou ao tablado dois cabeludos misteriosos muito parecidos entre si. Eram os irmãos Kirkwood. E foi então que o Nirvana, em pleno recheio de seu próprio acústico, (re) apresentou os Meat Puppets ao mundo da música. Naquela noite lúgubre, a banda executou – com a ajuda dos irmãos, que assumiram temporariamente baixo e violão – TRÊS canções do álbum Meat Puppets II (1984): “Plateau”, “Oh, me” e “Lake of Fire”. Até hoje há quem pense que essas músicas SÃO DO NIRVANA. Outros tantos – incluindo o musicólogo aqui, alguns anos depois, é verdade – aproveitaram a oportunidade pra ir atrás da desconhecida dupla que tinha merecido tamanho destaque no que seria a última aparição pública relevante de Cobain – leia mais sobre a participação dos Meat Puppets no acústico Nirvana em post aqui do blog. Ah, e como valeu a pena…

Bom, mas chega de digressão. Fato é que no mesmíssimo ano de lançamento do acústico do Nirvana – 1994 (em janeiro, porém) – os Puppets (talvez tentando capitalizar a relação com Cobain – e eu não os julgaria por isso) colocaram na praça o álbum Too High to Die. Não sei se por conta da palhinha no show desplugado do Nirvana (o álbum traz uma suspeitíssima regravação de “Lake of Fire”) ou pela vocação mais pop (comparando-se com a obra da banda como um todo), o disco alcançou certo destaque na cena musical comercial dos EUA, chegando ao 62° lugar na Billboard 200, e levando disco de ouro (pela primeira vez na carreira dos Puppets) – nada mal pra uma banda que começou a carreira tomando cusparadas de plateias punk no Arizona- segundo depoimento do mesmo Derrick Bostrom. Foi também a primeira – e única? – vez em que a banda emplacou um hit de rádio, com a roqueira-melodiosa “Backwater” (ver vídeo abaixo, neste post – muito, muito boa). Porém, mesmo com isso tudo – talvez até POR ISSO TUDO -, Too High to Die ainda é bastante desprezado quando se fala de Meat Puppets. O que é uma tremenda injustiça. Obviamente, Meat Puppets II e Up on the Sun (e, pra mim, especialmente este último) são gemas que representam o ponto máximo da produção de Curt e Cris. Mas o álbum lançado em 1994 é um PUTA DISCO, que pode agradar tanto os mais enjoadinhos indies saudosos do alt-rock embrionário norte-americano quanto os rockers mais ‘guitarrófilos’.

Do começo ao fim, Too High to Die traz uma pegada pesada e envolvente, além  de um instrumental extremamente trabalhado – marca registrada dos Puppets, principalmente por conta da virtuose de Curt, um dos guitarristas mais originais de sua geração. O registro também surpreende por mostrar que os irmãos Kirkwood devem mesmo ter combinado fingir ser desafinados nos vocais em todos os discos anteriores (e confiem: os vocais nos álbuns anteriores são quase sempre pavorosos, embora não comprometam de forma alguma a experiência). Ali, Curt e Cris cantam de forma muito bem comportada (longe de performances impressionantes, claro) e “adequada” às canções (mais uma pista de um esforço “eminentemente pop”?). E ao longo de suas 13 faixas Too High to Die mostra como os Puppets ainda tinham – e têm, aguarde algumas linhas – muito a contribuir com a música alternativa. A tal mistura de rock com country, punk e psicodelia continua ali – um pouco mais pasteurizada, tenho que concordar, mas surpreendentemente vibrante e viçosa, ainda que mais de uma década depois. Definitivamente um disco pra se devorar do começo ao fim, preferencialmente em uma tarde abafada de verão subtropical, um pouco antes da  chuva cair. Uma cerveja cai bem como acompanhamento. Talvez um “cigarrinho de artista”, como dizem algumas senhoras de mais idade, para aqueles que curtem. E depois, faça me o favor, procure baixar ou comprar por aí os primeiros discos dos caras. Garanto que vão figurar entre os preferidos da prateleira dos interessados em música.

Em tempo: no final dos anos 2000 os Meat Puppets voltaram a tocar e a gravar. O último álbum deles, Lollipop (2011), vale muito a pena. Pega uma amostrinha aqui.

 

 

 

Originais & Originados – Ann Peebles x Paul Young – “I’m Gonna Tear Your Playhouse Down”

Ann Peebles: nada mais perigoso que a fúria de uma mulher traída

Ann Peebles: nada mais perigoso que a fúria de uma mulher traída

Em 1973 a cantora Ann Peebles alcançou as paradas norte-americanas de R&B com essa molemolente canção sobre uma mulher que ameaça metaforicamente botar abaixo a “casa de brinquedo” (seria o cafofo?) do cara que a está traindo por aí. E então, nos anos 1980, o cantor britânico Paul Young fez sua própria versão sintetizada do lamento – adaptando, evidentemente, o gênero da sacana para o feminino. Se a versão de Young é inferior à original (como costumam ser as versões oitentistas), pelo menos tem o mérito de manter vivo esse pequeno clássico da música negra. Coincidência ou não, encontrei um vídeo da senhora Peebles cantando “I’m Gonna Tear Your Playhouse Down” ao vivo em 1989. Fica como bônus. Enjoy!

ORIGINAL – ANN PEEBLES – I’M GONNA TEAR YOUR PLAYHOUSE DOWN (1973)

 

ORIGINADA – PAUL YOUNG – I’M GONNA TEAR YOUR PLAYHOUSE DOWN (1984)

 

ORIGINAL – ANN PEEBLES – I’M GONNA TEAR YOUR PLAYHOUSE DOWN (LIVE – 1989)

Originais & Originados – Titãs x The Chairman of the Board x Clarence Carter – “Marvin” / “Patches”

Os Titãs nos anos 1980

Titãs: versão mezzo rock mezzo reggae para gema setentista do soul

Taí uma coisa que mais gente deveria fazer: pesquisar as influências de suas bandas preferidas. Não que eu goste de Titãs (realmente não sou muito fã, não), mas quem gosta talvez se surpreenda ao descobrir que uma das mais famosas músicas do início da carreira da banda é, na verdade, uma versão de um clássico setentista do soul norte-americano. Tudo bem, em algum lugar do encarte do primeiro disco (Titãs, 1984) do então octeto brasileiro dizia-se que “Marvin” era “Patches”, composta por Dunbar e Johnson – e gravada originalmente pela banda The Chairman of The Board e também pelo cantor cego Clarence Carter no ano de 1970.

Mas venhamos e convenhamos: versões em outras línguas para músicas de outros países não populares aqui (ainda mais nos anos 1980, sem acesso a internet) foi uma maneira de várias bandas brasileiras gravarem seus nomes nas paradas e, consequentemente, na história da música. Obviamente o Titãs tem uma discografia muito mais consistente que isso. Apesar de que os caras são recorrentes na arte da “kibagem” musical, mas essa história fica pra outro dia….

Bom, fica aí uma oportunidade pra conhecer as originais e o GÊNIO Clarence Carter. Guarde esse nome. Enjoy!

ORIGINAL – THE CHAIRMAN OF THE BOARD – PATCHES (1970)

 

ORIGINAL – CLARENCE CARTER – PATCHES (1970)

 

ORIGINADA – TITÃS – MARVIN (1984)