É ruim, mas eu gosto – Paula Abdul, “Straight Up” (1988)

Paula Abdul: antes de se tornar uma das juradas do programa de TV American Idol a moça fora cantora, compositora, dançarina, coreógrafa e  atriz. "Straight Up" é um de seus hits, ruim mas extremamente gostável

Paula Abdul: antes de se tornar uma das juradas do programa de TV American Idol a moça fora cantora, compositora, dançarina, coreógrafa e atriz. “Straight Up” é um de seus hits, ruim mas extremamente gostável

Bem antes de Paula Abdul se tornar uma das juradas do programa de TV American Idol a moça já havia sido cantora, compositora, dançarina, coreógrafa e  atriz. Na passagem dos anos 1980 para 1990 Paula deixou sua breve mas profunda marca na cultura pop: uma das provas definitivas disso é o hit “Straight Up“, canção do álbum Forever Your Girl (1988), debute da artista e um de seus mais populares sucessos comerciais. A canção, apesar de ser bem ruim, é muito boa, carregada de uma energia oitentista bacana e de um descompromisso dançante extremamente condizente com a época (aproveite a oportunidade para conhecer também a despretensiosa versão da música executada pela banda Tallahassee). Evidentemente ruim, mas claramente boa o bastante pra dizer que eu gosto. Vamos que vamos!

Originais & Originados – Fatboy Slim x Vários – “The Rockafeller Skank” (1998)

Norman Cook, mais conhecido como Fatboy Slim: seu primeiro grande hit, "The Rockafeller Skank", é um "cozidão" de músicas do passado

Norman Cook, mais conhecido como Fatboy Slim: seu primeiro grande hit, “The Rockafeller Skank”, é um “cozidão” de músicas do passado

Temos aí um belo exemplo da cultura do sampler e de como o fortalecimento do gênero eletrônico nos mostrou novas formas de encarar o ato de fazer música. A discussão é longa e complexa, mas não pretendo entrar nela agora – quem sabe um dia? A intenção aqui é só entreter e informar usando mais esse episódio da história do pop. E vamos a ele!

Em 1998 o músico e DJ inglês Norman Cook, mais conhecido pelo nome artístico Fatboy Slim, ganhou o mundo com seu segundo álbum, You’ve Come a Long Way, Baby. A mistureba de estilos amarrada pela produção eminentemente eletrônica presente no disco conquistou as massas de todo o mundo com o potencial dançante e despreocupado de suas 11 faixas. Mas, apesar da qualidade geral do trabalho, foi a escalafobética “The Rockafeller Skank” (segunda do álbum) que catapultou Cook para o sucesso comercial absoluto. Lembro que na época era difícil definir onde diabos encaixar aquele som que misturava – em pleno ocaso da década de 1990 – guitarras rockabilly/surf music e vocais hip hop reconstruídos na base do sampler num contexto absolutamente dançante (veja o clipe oficial da música na sequência).

Apesar do estranhamento inicial, o som do DJ logo botou muita gente pra chacoalhar (deve funcionar na pista até hoje) e foi o primeiro degrau para uma extremamente bem sucedida trajetória que hoje conhecemos muito bem. Até aqui, nenhuma novidade (exceto que talvez você não soubesse o nome verdadeiro do Fatboy). Agora vamos à parte interessante.

No fim das contas, apesar de “The Rockafeller Skank” ser – sem sombra de dúvidas – uma obra original (principalmente considerando-se a época em que foi lançada), fruto do talento e do trabalho de Fatboy Slim, a música também não deixa de ser, simplificando – e muito -, uma “mera’ reconstrução de um punhado de outras canções, habilmente combinadas de forma a se tornarem um “novo” produto.

Destrinchando, a música de 1998 não apresenta nada de novo além de trechos de:

– “Vinyl Dogs Vibe” (1997), dos Vinyl Dogs com participação de Lord Finesse, de onde Fatboy tirou os vocais que repetem exaustivamente os versos “Right about now / The funk soul brother, check it out now“;

– “Sliced Tomatoes” (1972), modesto hit sulista do duo norte-americano Just Brothers, que se revela basicamente o recheio instrumental do som de Norman Cook.

Além dessa combinação básica, que é a espinha dorsal da música, ainda temos detalhes menores pinçados de:

– “I Fought the Law” (1965), de The Bobby Fuller Four, que cedeu uma enérgica e indefectível virada de bateria;

– “Beat Girl – Main Title” (1960), trilha do filme britânico Beat Girl (também de 1960) composta e executada por John Barry, de onde saiu um pedacinho de riff de guitarra carregado nos bends;

– “Peter Gunn” (1986), da banda Art of Noise com participação do guitarrista Duane Eddy, que também “cedeu” uma linha de guitarra.

Pra fechar, um fato interessante: em entrevista concedida em 2006, Fatboy Slim afirma que dividiu igualmente entre os compositores das faixas por ele utilizadas para criar “The Rockafeller Skank” os royalties da música, o que significa que ele não recebeu nenhum centavo de direitos autorais pela canção. Será verdade? Bom, se for, é uma baita (e nobre) exceção no mundo da música pop, onde, atualmente, produtores como Timbaland frequentemente deixam de creditar (que dirá remunerar) os artistas responsáveis pelas músicas que eles sampleiam para criar seus próprios sucessos.

Bom, agora que você conheceu todos os elementos reconfigurados para gerar esse hit contemporâneo, que tal ouvir novamente “The Rockafeller Skank”? Consegue identificar todos os recortes utilizados ali? E qual sua opinião sobre esse tipo de composição? O que você acha da utilização de samplers? Deixe o seu recado nos comentários e vamos abrir esse debate!

Até a próxima, funk soul brother!

Time capsule – Live – “Pain Lies on the Riverside” (1991)

A banda Live em foto de Lori Woehler: sabe-se lá por que, o grupo sempre ficou à sombra de seus contemporâneos sob as lentes da música pop

A banda Live em foto de Lori Woehler: sabe-se lá por que, o grupo sempre ficou à sombra de seus contemporâneos sob as lentes da música pop

Essa Time capsule vem repleta do espírito noventista que me contaminou depois que fui escalado pra fazer uma mixtape sobre a década. Infelizmente tive que deixar essa aí de fora, por limitações de tempo (embora tenha feito justiça à banda escolhendo um outro hit deles).

A faixa de abertura do debute em disco do LiveMental Jewelry (1991) -, quarteto norte-americano que ficou conhecido por fazer um rock alternativo diferente e meio “espiritualizado” em plena era do grunge, é uma baita canção. “Pain Lies on the Riverside” é quase épica, maníaca, desesperada e diferente de quase tudo o que estava sendo produzido na época.

Sabe-se lá por que, o grupo sempre ficou à sombra de seus contemporâneos sob as lentes da música pop. Vamos corrigir esse erro aqui?

Live – Pain Lies on the Riverside (1991)

I have never taken Life
Yet I have often paid the price
And you, you are a victim of this age
And the guilt that hangs around your neck
Has got me locked up in a cage

You’ve got to learn to live until no end
But first you must learn to swim
All over again
Because…

Pain lies on the riverside
And Pain will never say goodbye
Pain Lies on the Riverside
So put you feet in the water
Put your head in the water
Put your soul in the water
And join me for a swim tonight

I have forever, always tried
To stay clean and constantly baptized
I am aware that the river’s banks are dry
And to wait for a flood
Is to wait for life

I’ve got to learn to live until no end
But first I must learn to swim all
Over again,
Because…

Pain lies on the Riverside.

Especial – Mixtape Anos 90 no “Achados da Bia”

Capa da Friday Mixtape Anos 90: em minha segunda contribuição "musicológica" para o blog "Achados da Bia", fui incumbido de explorar a marcante e divertida década de 1990

Capa da Friday Mixtape Anos 90: em minha segunda contribuição “musicológica” para o blog “Achados da Bia”, fui incumbido de explorar a marcante e divertida década de 1990

Na última sexta-feira (12/04/13) rolou minha segunda contribuição “musicológica” para a Friday Mixtape do blog “Achados da Bia”. Quando fui gentilmente convidado da primeira vez pela amiga Anny Atti – que faz as mixtapes junto com o Jô -, escolhi como tema “guitarrices“, selecionando algumas pérolas nas quais as “seis cordas” são protagonistas. Dessa vez, fui incumbido de explorar a marcante e divertida década de 1990. Note que a assinatura leva o nome do cara por trás do personagem “O musicólogo”, mas não se engane, sou eu mesmo.

Na nova empreitada, resolvi fazer o trabalho completo: são 30 canções entre as mais representativas da época, 3 para cada ano da década. É claro que tive que deixar muita coisa de fora e acabei me concentrando muito mais no pop internacional, então dessa vez não espere ouvir nada em português, infelizmente.

E se você nasceu até a primeira metade dos anos 80, aposto que a seleção vai te transportar magicamente para momentos intensos, cheios de alegria ou tristeza. Dê o PLAY no plugin abaixo ou lá no blog e embarque nessa viagem pelo passado recente da música!

Arqueologia sonora – Traveling Wilburys

Traveling Wilburys (da esquerda para a direita: Bob Dylan, Jeff Lynne, Tom Petty, George Harrison e Roy Orbison): "supergrupo" é pouco

Traveling Wilburys (da esquerda para a direita: Bob Dylan, Jeff Lynne, Tom Petty, George Harrison e Roy Orbison): “supergrupo” é pouco

Em 1988 o mundo viu acontecer uma improvável – no mínimo – reunião de estrelas do mais alto escalão da música pop. Na contramão daquilo que costuma acontecer – uma banda acaba se separando e dá lugar às carreiras solos de seus antigos membros -, cinco músicos já plenamente realizados com suas trajetórias individuais resolveram “brincar de banda”. E assim nasceu a Traveling Wilburys, formada por nada menos que George Harrison (quase 20 anos após o fim dos Beatles), Roy Orbison (dispensa apresentações), Bob Dylan (idem), Tom Petty (recém-separado de seus Heartbreakers) e Jeff Lynne (ex-líder da Electric Light Orchestra) – algo como o maior “supergrupo” que já existiu.

De acordo com a história, os cinco – que já se conheciam há tempos – se juntaram no ano em questão para gravar o B-side de um single de Harrison, mas acabaram produzindo um disco inteiro. Time bom e entrosado dá nisso, né? O álbum, The Traveling Wilburys, Vol. 1, saiu ainda em 1988 e fez bastante sucesso com sua musicalidade amigável e que parecia um amálgama da personalidade sonora de cada um dos envolvidos – “Handle With Care” e “End Of The Line” foram os grandes hits (veja os vídeos abaixo). Além de tudo, devia ser bonito demais, na época,  ver tantos figurões ocupando natural e pacientemente seus respectivos espaços – inclusive dividindo os vocais – a serviço de uma canção. Ainda é.

Em 1990 a banda voltou a se reunir sob o peso da ausência de Roy Orbison, que morreu ainda em 1988, pouco depois do primeiro lançamento, e botou na praça um álbum curiosamente intitulado The Traveling Wilburys, Vol. 3 (onde foi parar o Vol.2?). Apesar de, de certa forma, repetir a receita do disco anterior, o segundo registro dos “Wilburys viajantes” soa um pouco menos empolgante e um tanto mais flácido, talvez até mesmo por não se beneficiar do elemento surpresa que contaminara a estreia. A fórmula teria se desgastado rápido demais? De qualquer maneira, o trabalho tem seus bons momentos – incluindo “Inside Out” e “She’s My Baby“, cujos vídeos você encontra abaixo. 

Depois disso cada integrante do grupo seguiu seu caminho e nunca mais, até agora, a Traveling Wilburys produziu algo novo – até porque George Harrison também já não está mais entre nós. Bem, já dava pra imaginar esse desfecho. Se o simples fato de eles se reunirem já foi surreal, o que dizer de um segundo disco? Não dava pra exigir mais. Fiquemos com a memória que já está de ótimo tamanho!    

Da estante – October Rust (1996), Type O Negative – Trilha sonora perfeita para a “depressão outonal”

Type O Negative: "goth rock" atmosférico com a cara da estação

Type O Negative: “goth rock” atmosférico com a cara da estação

October Rust (1996): a trilha sonora perfeita para a "depressão outonal"

October Rust (1996): a trilha sonora perfeita para a “depressão outonal”

Como hoje (20/03/13) é o último dia do verão, resolvi revisitar o álbum que considero, até hoje, a trilha sonora perfeita para a “depressão outonal” que pode acometer os incautos durante a estação em que as folhas caem, o tempo esfria e a mente divaga por paisagens bem menos exuberantes – aquela tristezinha incontrolável que pode se instalar na passagem da época mais quente e solar do ano para aquilo que, na prática, vai ser uma longa e contemplativa introdução ao inverno.

Pra começar, October Rust (1996), quarto álbum da banda de “goth rock” Type O Negative, já carrega em seu título uma tradução impressionista da estação (Ferrugem de Outubro, em português, pinta muito bem a imagem das folhas cadentes alaranjadas do mês de outubro – o “pico” do outono no Hemisfério Norte, que é de onde a banda vinha [EUA, mais especificamente]). Além do que, para sustentar a minha tese, todo o clima do disco parece conversar muito eloquentemente com os efeitos emocionais dessa passagem de estações sobre nós, a porção humana que habita o globo terrestre.

Lançado cinco anos após o primeiro registro da banda, o álbum parece vagar com certa tranquilidade pelos terrenos desbravados primeiro pelo ótimo e controverso Bloody Kisses (1993), trabalho imediatamente anterior do “Type O” que colocou definitivamente a turma de Peter Steele – o gigantesco e soturno baixista/vocalista/compositor morto em 2010 por uma parada cardíaca mal-explicada – no mapa do rock/metal alternativo e/ou “gótico” mundial. Porém, enquanto Kisses parecia compor uma ambientação eminentemente urbana dark (um sarau elétrico regado a vinho tinto no cemitério parece definir bem), October Rust expande, de certa forma, os limites da poesia romântica e trágica de Steele e o som atmosférico e gélido da banda em uma direção mais bucólica e pagã, chegando a pontos escondidos de bosques forrados de folhas secas onde o arcadismo encontra sua faceta mais existencialista.

Munido da comparação acima, prepare-se para encontrar o som arrastado e dramático – às vezes flertando com a  eletrônica – típico do que se acostumou a entender por  Type O Negative em um habitat ligeiramente ligeiramente diferente do comum. Em uma aclimatação bastante adequada para o outono que vem por aí, eu diria. Dê o PLAY (dessa vez coloquei o disco inteiro para audição, para facilitar o entendimento da sensação) e prepare-se para sobreviver – ainda que melancolicamente – à nova estação.

OCTOBER RUST (1996), TYPE O NEGATIVE – FULL ALBUM

Time capsule – Talking Heads – “Lifetime Piling Up” (1992)

Talking Heads: um dos meus sons preferidos da banda não está em nenhum disco de estúdio, mas em coletânea de 1992

Talking Heads: um dos meus sons preferidos da banda não está em nenhum disco de estúdio, mas em coletânea de 1992

Uma das músicas do Talking Heads de que eu mais gosto não está em nenhum dos discos de estúdio da banda capitaneada por David Byrne, mas sim na coletânea Sand in the Vaseline: the Best of Talking Heads, de 1992. “Lifetime Piling Up” é intensa, contagiante, inteligente como um som do Talking Heads deve ser e, à sua maneira, absolutamente desesperadora. Vale o PLAY!

 

Talking Heads – “Lifetime Piling Up” (1992)

I have tried marijuana 
I get nervous every time 
There will come a knockin’ at the door 
Why is everybody makin’ eyes at me? 
I don’t want to know 
Excuse and pardon me 
Stay for a while 
Maybe we’ll never 
Meet again 

I can see my lifetime piling up 
I can see the days turn into nights 
I can see the people on the street 
Open those windows up 
A hundred floors below me 
Pilin’ those houses up 
Pilin’ them higher, higher, higher 
I can feel them swayin’ back and forth 
Building it higher, higher 
This tower’s learning over 

I got bad coordination 
Stuck a pencil in my eye 
I can hardly wait to get back home 
Why is everybody gettin’ paranoid? 
I’s only havin’ fun 
Scum-bags and superstars 
Tell me your names 
I’ll make a bet, you’re 
Both the same 

I can see my lifetime pilin’ up 
Reaching from my bedroom to the stars 
I can see the house where I was born 
When I was growin’ up – they say that 
I could never keep my trousers up 
I remember days and crazy nights 
Are there any pirates on this ship? 
And if they sober up – they’ll have us 
Home by morning 

Cry, cry, cry 
It’s just you and I 
Like an automobile 
With no one at the wheel 
Spinning out of control 
We’re all over the road 
In our sexy machine 
All the passengers scream 
Scream, scream! 

I can see my lifetime pilin’ up 
I can see it smashin’ into yours 
It was not an accident at all 
Open your window up – I hear you laughin’ 

Goin’ one, two, three, four, five 
Goin’ from the bottom to the top 
Maybe I’m holding on too tight 
And now I’m growin’ up 
I got a funny feeling 
Pilin’ those houses up 
Pilin’ them higher, higher, higher 
Building that highway to the stars 
And turning the music up – Hey! 
I got a winning number

É ruim, mas eu gosto – Khaled, “El Arbi” (1991)

Khaled: sucesso de 1991 foi chegar no Brasil só em 1999 e embalou muitas pistas de dança, embora ninguém soubesse do que é que ele estava falando

Khaled: sucesso de 1991 foi chegar no Brasil só em 1999 e embalou muitas pistas de dança embora ninguém soubesse o que é que ele estava cantando

Meu deus. Estamos realmente pegando pesado aqui, não? Expondo cada cantinho escuro de nossa trajetória musical, por mais vergonhoso que seja… E aí, dia desses, eu me lembrei do Khaled e sua estrondosa “El Arbi“. O hit maior do cantor argelino saiu em seu disco de estreia, o homônimo Khaled, de 1991, mas foi só por volta de 1999 que a música bombou aqui no Brasil – principalmente porque acabou como trilha de novela da Globo (e o sucesso foi tanto que chegou-se ao ponto de Khaled aparecer no programa do Faustão e coisas do gênero). E como nós dançamos ao som dessa gema pop “árabe” (era o que se dizia na época), mesmo sem entender uma palavra da letra… “El Arbi” era evidentemente ruim – haja vista seu sucesso comercial -, mas como embalou (e ainda é capaz de embalar) muitas incursões pelas pistinhas de dança da vida, também ganhou o direito de ser muito boa. Vamos relembrar… Ah, e pra que ninguém mais fique em dúvida sobre o que é que, afinal, o Khaled canta, dá pra conferir a letra e sua tradução aqui.

Originais & Originados – R.L. Burnside (1998) x Doctor L (2012) [trilha de Holy Motors] – “Let My Baby Ride”

"Let My Baby Ride" em cena de Holy Motors (2012): música do bluesman R.L. Burnside renasceu em adaptação feita por Doctor L para o (maluquíssimo) filme francês

“Let My Baby Ride” em cena de Holy Motors (2012): música do bluesman R.L. Burnside renasceu em adaptação feita por Doctor L para o (maluquíssimo) filme francês

E não é que temos aqui uma história de canção original e sua (surpreendente) versão originada que foi parar no cinema? “Let My Baby Ride” era originalmente um blues sujão e meio dançante lançado em 1998 por R.L. Burnside, bluesman originário do Delta do Mississippi, no disco Come on In – álbum em que o músico de 71 anos flertou com a música eletrônica e outras sonoridades contemporâneas. Em 2012, a canção apareceu na trilha sonora do maluquíssimo (e imperdível) filme francês Holy Motors, do diretor Leos Carax. E em sua encarnação cinematográfica “Let My Baby Ride” praticamente renasceu com a adaptação feita pelo músico francês Doctor L. As guitarras ásperas de Burnside dão lugar a uma “orquestra” de acordeons tocados por um grupo misterioso liderado pelo multi-personagem interpretado pelo ator Denis Lavant durante o interlúdio musical da trama – uma das cenas mais impactantes de Holy Motors. Vale o confere! E  se você ainda não assistiu ao filme, não se preocupe, não é nenhum spoiler.

ORIGINAL – R.L. BURNSIDE – LET MY BABY RIDE (1998)

ORIGINADA – DOCTOR L / HOLY MOTORS SOUNDTRACK – LET MY BABY RIDE (2012)

É ruim, mas eu gosto – Sisqó, “Thong Song” (1999)

Sisqó, o pai de "Thong Song": nome exótico, visual excêntrico e um hit contagiante com a cara da era "terra de ninguém" da música pop nos anos 2000

Sisqó, o pai de “Thong Song”: nome exótico, visual excêntrico e um hit contagiante com a cara da era “terra de ninguém” da música pop nos anos 2000

Não me pergunte por que, mas dia desses eu pensei no Sisqó… MEU, LEMBRA O SISQÓ? O cantor norte-americano de pop-rap/R&B com nome exótico e visual excêntrico – membro emérito do grupo de R&B Dru Hill – tomou de assalto as paradas internacionais de sucesso em 1999/2000 (na iminência da instauração do panorama “terra de ninguém” que dominou a música comercial na primeira década dos anos 2000) com a infecciosa “Thong Song“. A canção – um dos singles do absolutamente esquecível álbum Unleash the Dragon (1999), estreia solo do artista  – deu as caras já abalando o universo pop com uma pegada dançante e rebolativa, além da letra descarada que versa sobre as curvas e o balanço de uma certa moça que usa calcinha fio-dental (o “thong” da canção). Tudo isso conjugado no mais absoluto clima de “música pra dançar loucamente na pista e, depois de uns dois anos, negar conhecimento até a morte”. Pra sentir melhor o drama: acredite ou não, a música chegou a receber quatro indicações ao Grammy. Ao GRAM-MY, brother!

E se essa história ainda precisa de mais um elemento surreal pra valer a nota, que fique registrado que o maluco do Sisqó (e/ou seus produtores) teve a manha, além de tudo, de samplear o arranjo de cordas da versão gravada em 1967 pelo guitarrista de jazz Wes Montgomery para a canção “Eleanor Rigby”, dos Beatles, e usá-lo como um elegante pano de fundo para uma batida extremamente mal-intencionada e versos do naipe de “Ooh, that dress so scandalous /And you know another nigga couldn’t handle it/See you shaking that thing like who’s the ish/With a look in your eye so devilish/Uh, you like to dance at all the hip-hop spots/And you cruise to the crews like connect-the-dots/Not just urban she likes the pop/Cause she was livin’ la vida loca” (e se você sentiu que a última frase aí é uma clara citação ao hit de Ricky Martin, acertou na mosca).

Bem, “Thong Song”  – e seu clipe oficial (exibido à exaustão pela MTV; veja o vídeo abaixo) -, único sucesso digno de nota do Sisqó, diga-se de passagem, evidentemente é ruim de dar vergonha, até mesmo pela representação da era que ajudaria, informalmente, a inaugurar.  Mas, pelo remelexo desavergonhado, harmonia contagiante e inacreditável capacidade de – até hoje – laçar a galera pelos quadris, o som é bom pra cacete. Vai entender… Mande o PLAY aí embaixo e tente teorizar sobre o assunto você também!