É ruim, mas eu gosto – Khaled, “El Arbi” (1991)

Khaled: sucesso de 1991 foi chegar no Brasil só em 1999 e embalou muitas pistas de dança, embora ninguém soubesse do que é que ele estava falando

Khaled: sucesso de 1991 foi chegar no Brasil só em 1999 e embalou muitas pistas de dança embora ninguém soubesse o que é que ele estava cantando

Meu deus. Estamos realmente pegando pesado aqui, não? Expondo cada cantinho escuro de nossa trajetória musical, por mais vergonhoso que seja… E aí, dia desses, eu me lembrei do Khaled e sua estrondosa “El Arbi“. O hit maior do cantor argelino saiu em seu disco de estreia, o homônimo Khaled, de 1991, mas foi só por volta de 1999 que a música bombou aqui no Brasil – principalmente porque acabou como trilha de novela da Globo (e o sucesso foi tanto que chegou-se ao ponto de Khaled aparecer no programa do Faustão e coisas do gênero). E como nós dançamos ao som dessa gema pop “árabe” (era o que se dizia na época), mesmo sem entender uma palavra da letra… “El Arbi” era evidentemente ruim – haja vista seu sucesso comercial -, mas como embalou (e ainda é capaz de embalar) muitas incursões pelas pistinhas de dança da vida, também ganhou o direito de ser muito boa. Vamos relembrar… Ah, e pra que ninguém mais fique em dúvida sobre o que é que, afinal, o Khaled canta, dá pra conferir a letra e sua tradução aqui.

Originais & Originados – R.L. Burnside (1998) x Doctor L (2012) [trilha de Holy Motors] – “Let My Baby Ride”

"Let My Baby Ride" em cena de Holy Motors (2012): música do bluesman R.L. Burnside renasceu em adaptação feita por Doctor L para o (maluquíssimo) filme francês

“Let My Baby Ride” em cena de Holy Motors (2012): música do bluesman R.L. Burnside renasceu em adaptação feita por Doctor L para o (maluquíssimo) filme francês

E não é que temos aqui uma história de canção original e sua (surpreendente) versão originada que foi parar no cinema? “Let My Baby Ride” era originalmente um blues sujão e meio dançante lançado em 1998 por R.L. Burnside, bluesman originário do Delta do Mississippi, no disco Come on In – álbum em que o músico de 71 anos flertou com a música eletrônica e outras sonoridades contemporâneas. Em 2012, a canção apareceu na trilha sonora do maluquíssimo (e imperdível) filme francês Holy Motors, do diretor Leos Carax. E em sua encarnação cinematográfica “Let My Baby Ride” praticamente renasceu com a adaptação feita pelo músico francês Doctor L. As guitarras ásperas de Burnside dão lugar a uma “orquestra” de acordeons tocados por um grupo misterioso liderado pelo multi-personagem interpretado pelo ator Denis Lavant durante o interlúdio musical da trama – uma das cenas mais impactantes de Holy Motors. Vale o confere! E  se você ainda não assistiu ao filme, não se preocupe, não é nenhum spoiler.

ORIGINAL – R.L. BURNSIDE – LET MY BABY RIDE (1998)

ORIGINADA – DOCTOR L / HOLY MOTORS SOUNDTRACK – LET MY BABY RIDE (2012)

É ruim, mas eu gosto – Sisqó, “Thong Song” (1999)

Sisqó, o pai de "Thong Song": nome exótico, visual excêntrico e um hit contagiante com a cara da era "terra de ninguém" da música pop nos anos 2000

Sisqó, o pai de “Thong Song”: nome exótico, visual excêntrico e um hit contagiante com a cara da era “terra de ninguém” da música pop nos anos 2000

Não me pergunte por que, mas dia desses eu pensei no Sisqó… MEU, LEMBRA O SISQÓ? O cantor norte-americano de pop-rap/R&B com nome exótico e visual excêntrico – membro emérito do grupo de R&B Dru Hill – tomou de assalto as paradas internacionais de sucesso em 1999/2000 (na iminência da instauração do panorama “terra de ninguém” que dominou a música comercial na primeira década dos anos 2000) com a infecciosa “Thong Song“. A canção – um dos singles do absolutamente esquecível álbum Unleash the Dragon (1999), estreia solo do artista  – deu as caras já abalando o universo pop com uma pegada dançante e rebolativa, além da letra descarada que versa sobre as curvas e o balanço de uma certa moça que usa calcinha fio-dental (o “thong” da canção). Tudo isso conjugado no mais absoluto clima de “música pra dançar loucamente na pista e, depois de uns dois anos, negar conhecimento até a morte”. Pra sentir melhor o drama: acredite ou não, a música chegou a receber quatro indicações ao Grammy. Ao GRAM-MY, brother!

E se essa história ainda precisa de mais um elemento surreal pra valer a nota, que fique registrado que o maluco do Sisqó (e/ou seus produtores) teve a manha, além de tudo, de samplear o arranjo de cordas da versão gravada em 1967 pelo guitarrista de jazz Wes Montgomery para a canção “Eleanor Rigby”, dos Beatles, e usá-lo como um elegante pano de fundo para uma batida extremamente mal-intencionada e versos do naipe de “Ooh, that dress so scandalous /And you know another nigga couldn’t handle it/See you shaking that thing like who’s the ish/With a look in your eye so devilish/Uh, you like to dance at all the hip-hop spots/And you cruise to the crews like connect-the-dots/Not just urban she likes the pop/Cause she was livin’ la vida loca” (e se você sentiu que a última frase aí é uma clara citação ao hit de Ricky Martin, acertou na mosca).

Bem, “Thong Song”  – e seu clipe oficial (exibido à exaustão pela MTV; veja o vídeo abaixo) -, único sucesso digno de nota do Sisqó, diga-se de passagem, evidentemente é ruim de dar vergonha, até mesmo pela representação da era que ajudaria, informalmente, a inaugurar.  Mas, pelo remelexo desavergonhado, harmonia contagiante e inacreditável capacidade de – até hoje – laçar a galera pelos quadris, o som é bom pra cacete. Vai entender… Mande o PLAY aí embaixo e tente teorizar sobre o assunto você também!

Originais & Originados – Wayne Cochran / Arthur Alexander (1962) x Pearl Jam (1999) – “Last Kiss” / “Soldier of Love (Lay Down Your Arms)”

Pearl Jam: versões "beneficentes" para canções de 1962 acabaram se tornando grandes hits da carreira da banda

Pearl Jam: versões “beneficentes” para canções de 1962 acabaram se tornando grandes hits da carreira da banda

Além de todas as propriedades das grandes canções que costumo citar na seção Originais & Originados deste blog, há ainda o fator “impulsionador” de carreira. Incontáveis artistas dos mais diferentes calibres e gêneros já recorreram a versões matadoras (ou nem tanto) de boas composições (quase sempre para um geração totalmente diferente da que escutou a original) para se lançar no mundo da música ou mesmo voltar do ostracismo comercial. Não estou dizendo que é exatamente esse o caso do Pearl Jam, até porque a história em questão se deu em um contexto absolutamente louvável. Mas, que ajudou a banda emérita da cena de Seattle a se manter em evidência durante um período consideravelmente árido, ajudou. Bem, relembremos:

Em junho de 1999, pouco tempo depois de lançar o inconstante Yeld e o registro ao vivo – inócuo em termos de discografia – Live on Two Legs, ambos de 1998, o Pearl Jam participou do No Boundaries: A Benefit for the Kosovar Refugees, disco beneficente lançado pela Epic Records para ajudar a levantar fundos para os refugiados albaneses da Guerra do Kosovo e que contou com músicos como Peter Gabriel, Neil Young, Rage Against the Machine entre outros. A participação da banda de Eddie Vedder, única a figurar duas vezes no álbum, consistiu em uma dupla de regravações de canções de 1962, ambas disponibilizadas ainda no Natal do ano anterior como um single especial para o fã-clube do grupo.

E as músicas escolhidas pelo PJ para contribuir – belas e encorpadas revisões de “Last Kiss“, de autoria do blueseiro branco Wayne Cochran (que havia ficado famosa mesmo só em 1964, com a versão de J. Frank Wilson and the Cavaliers) e “Soldier of Love (Lay Down Your Arms)“, do soulman Arthur Alexander (gravada também por ninguém menos que os Beatles – fãs confessos de Alexander – em 1963) – acabaram se tornando as faixas de maior sucesso do álbum, atraindo inegável atenção para a situação dos refugiados, mas também garantindo presença radiofônica maciça para a banda (até hoje é possível, ocasionalmente, topar com uma delas nas madrugadas das FMs mundo afora) e se consolidando, curiosamente (pelo contexto), como dois dos principais hits da carreira de um dos maiores expoentes do bom e velho grunge.

Mas, chega de papo! Hora de se jogar de ouvidos abertos em mais esse mergulho pela – muitas vezes cíclica – história da música pop.

ORIGINAL – WAYNE COCHRAN – LAST KISS (1962)

ORIGINADA – PEARL JAM – LAST KISS (1999)

ORIGINAL – ARTHUR ALEXANDER – SOLDIER OF LOVE (LAY DOWN YOUR ARMS) (1962)

ORIGINADA – PEARL JAM – SOLDIER OF LOVE (LAY DOWN YOUR ARMS) (1999)

Lista – 10 músicas para ouvir durante o sexo

10 músicas para ouvir durante o sexo

Antes de mais nada, deixa eu dizer que essa lista foi praticamente encomendada pelo pessoal do popularíssimo blog Somente Coisas Legais, que estava bastante a fim de divulgar uma seleção desse naipe. Some-se a isso o fato de que rankings de quase qualquer espécie parecem atrair muita atenção na internet e de que sexo é um chamariz universal e temos aí mais um post gloriosamente destinado ao sucesso – e extremamente carregado de hormônios.

Bem, para aqueles que querem se aprimorar na lida, novos truques são sempre bem-vindos. E uma playlist cuidadosamente escolhida pode, comprovadamente, ajudar a esquentar as coisas e criar um clima bacana  para aqueles momentos íntimos, por assim dizer.

Apresento-lhes, então, dez músicas para se ouvir durante o sexo (sempre torcendo, no entanto, para que a brincadeira dure ainda mais que isso). Ao final do post você também encontra a playlist já montada na sequência para o seu maior conforto!

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10-) Portishead – “Glory Box” (1994)

A canção que, de certa forma, resume o trip-hop do Portishead é muito provavelmente uma das músicas mais sexy de todos os tempos. Abrindo o “show” com essa você já larga com vantagem.

09-) The Beatles – “I Want You (She’s So Heavy)” (1969)

Já provei antes que os Beatles fizeram, sim, músicas bastante sensuais. E essa é uma das mais poderosas entre elas. Praticamente uma carta de intenções em forma de som.

08-) Lou Reed – “Walk on the Wild Side” (1972)

Quem poderia imaginar que o errático e eterno “poeta junkie” Lou Reed seria uma boa escolha (principalmente enquanto ainda estamos nas preliminares)? Eu não acreditava na eficiência do cara até comprovar.

07-) Chris Isaak – “Wicked Game” (1989)

Ok, essa é clichê até não poder mais, além de te fazer correr o risco de simplesmente ter que parar tudo pra pensar “Afinal, por que diabos ele resolveu mandar essa modulação vocal bizarra no refrão? O que ele estava pensando?“. Mas, vale o risco, afinal, o único sucesso digno de menção da carreira do Chris Isaak é um clássico absoluto da sacanagem.

06-) The Zombies – “Time of the Season” (1968)

Apesar de seu nome mórbido, a banda deve ter embalado vários amassos com este hit da década de 1960. “It’s the time of the season for loving!“.

05-) Divinyls – “I Touch Myself” (1991)

Segunda one hit wonder da lista, as Divinyls botaram o mundo pra cantar versos safados como “I love myself / I want you to love / When I feel down / I want you above me“. Ao ouvi-la, no entanto, cuidado pra não levar muito a sério a mensagem principal da canção e deixar ninguém “na mão”.

04-) Luther Vandross – “Never Too Much” (1981) 

Com base no que já rolou até aqui, essa pedrada soul oitentista é até bastante inocente e romântica. Mas o balanço de Luther Vandross é certeiro pra manter o fogo aceso.

03-) George McCrae – “I Get Lifted” (1974) 

Esse “funkeiro” da Flórida conseguiu criar uma das canções mais sexy dos anos 1970. Preste atenção no rebolado do baixo, se conseguir. “Girl, I can tell ya’, you turn me on“, declama nosso terceiro lugar. Pois é…

02-) Marvin Gaye – “Sexual Healing” (1982)

Tava demorando, né? Mas, enfim, ele apareceu. Medalha de prata para a escancarada celebração das, hummm, “propriedades terapêuticas” do lovemanking criada pelo absoluto e inconfundível Marvin Gaye. Ah, depois não deixe de conferir também a despretensiosa versão do Soul Asylum (aquela de “Runaway Train“).

01-) Marvin Gaye – “Let’s Get it On” (1973)

Olha, eu juro que tentei fazer diferente, mas não tem pra ninguém! É Mr. Gaye na cabeça, de novo! Ouro para a canção que praticamente significa sexo. Mesmo absolutamente banalizada por anos e anos de utilização em todo e qualquer momento que minimamente sugira uma pegação, “Let’s Get it On” é o hino dos amantes, dos cabelos bagunçados, da respiração ofegante, das pernas entrelaçadas, corpos suados, bocas enlouquecidas e suspiros satisfeitos depois do grand finale.


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######### PLAYLIST COMPLETA DAS 10 MÚSICAS PARA OUVIR DURANTE O SEXO – É só dar o play e correr pro abraço!

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***BONUS TRACK – Marvin Gaye – “Keep Gettin’ it On” (1973)

Meu, o cara gostava tanto da coisa que, no disco que trazia o histórico hit acima (batizado com o mesmo nome da faixa, Let’s Get it On, 1973), ele ainda mandou uma espécie de suíte da canção, sugestivamente sugerindo “Keep getting it on“. Uma boa trilha para aquele momento em que se começa a considerar um segundo round. Vai com fé, meu amigo/minha amiga! 😉 And keep getting it on!

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É ruim, mas eu gosto – Marky Mark and the Funky Bunch, “Good Vibrations” (1991)

Cena do clipe de "Good Vibrations" (1991): antes de se tornar o consideravelmente famoso "ator" Mark Wahlberg, o sujeito bombadinho do vídeo abaixo era conhecido como Marky Mark, e capitaneava um grupo de pop-rap e dance batizado de "Marky Mark and the Funky Bunch"

Cena do clipe de “Good Vibrations” (1991): antes de se tornar o consideravelmente famoso “ator” Mark Wahlberg, o sujeito bombadinho do vídeo era conhecido como Marky Mark e capitaneava um grupo de pop-rap e dance batizado de “Marky Mark and the Funky Bunch”

E tá aí mais uma pérola noventista (ah, são tantas, não?) pra nos envergonharmos de gostar (mas foda-se, evidentemente; estamos aqui pra isso mesmo). Vamos lá:

Antes de se tornar o consideravelmente famoso (e minimamente respeitável) “ator” Mark Wahlberg, o sujeito bombadinho do vídeo abaixo era conhecido como Marky Mark (por conta disso até o DJ Marky – antes igualmente chamado de Marky Mark, brasileiro, sucesso na gringa – resolveu mudar de nome). No comecinho dos anos 1990, ele (Wahlberg) comandava uma uma banda de pop-rap e dance chamada Marky Mark and the Funky Bunch (ouch!), que durou só dois álbuns (em 1991 e 1992, mais especificamente). E, olha, essa foi uma fase em que o rapaz (que chegou, posteriormente, a fazer parte do núcleo principal do elenco do filme Os Infiltrados [2006], de Martin Scorsese) parecia ter desistido de vestir qualquer peça de roupa da cintura para cima.

Good Vibrations“, a música mais famosa do grupo (presente no álbum Music for the People, de 1991; veja o vídeo abaixo), é muito ruim, mas também é do caralho: base funkeada e sacolejante, vocal black feminino absolutamente apaixonante no refrão e o insosso rap “de branco” de Marky Mark (que não acrescenta nada, mas também não compromete) recheando a coisa toda.  Enfim, um PLAY absolutamente inocente, dançante, nostálgico e extremamente difícil de admitir pros amigos. Mas não tema! É pra isso que serve essa seção! Plugue o fone, aumente o volume e embarque sem reservas nessa nostalgia. Eu sei que você vai gostar…

É ruim, mas eu gosto – Ace of Base, “The Sign” (1993)

Ace of Base: o quarteto sueco que fazia um som definido como "Euro-Disco" ou "Euro-Dance" com pitadas de reggae conquistou o mundo nos anos 1990

Ace of Base: o quarteto sueco que fazia um som definido como “Euro-Disco” ou “Euro-Dance” com pitadas de reggae conquistou o mundo nos anos 1990

O Ace of Base foi um quarteto sueco que fazia um som definido como “Euro-Disco” ou “Euro-Dance” com pitadas de reggae e que conquistou o mundo nos anos 1990. Um dos principais hits deles, “The Sign” (1993) é ruim, mas eu gosto. E já percebi que dá pra animar festinhas até hoje. Enjoy!

Confira também “All That She Wants“, outro grande sucesso do grupo que também é ruim, mas eu gosto.