Especial – Mixtape Anos 90 no “Achados da Bia”

Capa da Friday Mixtape Anos 90: em minha segunda contribuição "musicológica" para o blog "Achados da Bia", fui incumbido de explorar a marcante e divertida década de 1990

Capa da Friday Mixtape Anos 90: em minha segunda contribuição “musicológica” para o blog “Achados da Bia”, fui incumbido de explorar a marcante e divertida década de 1990

Na última sexta-feira (12/04/13) rolou minha segunda contribuição “musicológica” para a Friday Mixtape do blog “Achados da Bia”. Quando fui gentilmente convidado da primeira vez pela amiga Anny Atti – que faz as mixtapes junto com o Jô -, escolhi como tema “guitarrices“, selecionando algumas pérolas nas quais as “seis cordas” são protagonistas. Dessa vez, fui incumbido de explorar a marcante e divertida década de 1990. Note que a assinatura leva o nome do cara por trás do personagem “O musicólogo”, mas não se engane, sou eu mesmo.

Na nova empreitada, resolvi fazer o trabalho completo: são 30 canções entre as mais representativas da época, 3 para cada ano da década. É claro que tive que deixar muita coisa de fora e acabei me concentrando muito mais no pop internacional, então dessa vez não espere ouvir nada em português, infelizmente.

E se você nasceu até a primeira metade dos anos 80, aposto que a seleção vai te transportar magicamente para momentos intensos, cheios de alegria ou tristeza. Dê o PLAY no plugin abaixo ou lá no blog e embarque nessa viagem pelo passado recente da música!

Da estante – October Rust (1996), Type O Negative – Trilha sonora perfeita para a “depressão outonal”

Type O Negative: "goth rock" atmosférico com a cara da estação

Type O Negative: “goth rock” atmosférico com a cara da estação

October Rust (1996): a trilha sonora perfeita para a "depressão outonal"

October Rust (1996): a trilha sonora perfeita para a “depressão outonal”

Como hoje (20/03/13) é o último dia do verão, resolvi revisitar o álbum que considero, até hoje, a trilha sonora perfeita para a “depressão outonal” que pode acometer os incautos durante a estação em que as folhas caem, o tempo esfria e a mente divaga por paisagens bem menos exuberantes – aquela tristezinha incontrolável que pode se instalar na passagem da época mais quente e solar do ano para aquilo que, na prática, vai ser uma longa e contemplativa introdução ao inverno.

Pra começar, October Rust (1996), quarto álbum da banda de “goth rock” Type O Negative, já carrega em seu título uma tradução impressionista da estação (Ferrugem de Outubro, em português, pinta muito bem a imagem das folhas cadentes alaranjadas do mês de outubro – o “pico” do outono no Hemisfério Norte, que é de onde a banda vinha [EUA, mais especificamente]). Além do que, para sustentar a minha tese, todo o clima do disco parece conversar muito eloquentemente com os efeitos emocionais dessa passagem de estações sobre nós, a porção humana que habita o globo terrestre.

Lançado cinco anos após o primeiro registro da banda, o álbum parece vagar com certa tranquilidade pelos terrenos desbravados primeiro pelo ótimo e controverso Bloody Kisses (1993), trabalho imediatamente anterior do “Type O” que colocou definitivamente a turma de Peter Steele – o gigantesco e soturno baixista/vocalista/compositor morto em 2010 por uma parada cardíaca mal-explicada – no mapa do rock/metal alternativo e/ou “gótico” mundial. Porém, enquanto Kisses parecia compor uma ambientação eminentemente urbana dark (um sarau elétrico regado a vinho tinto no cemitério parece definir bem), October Rust expande, de certa forma, os limites da poesia romântica e trágica de Steele e o som atmosférico e gélido da banda em uma direção mais bucólica e pagã, chegando a pontos escondidos de bosques forrados de folhas secas onde o arcadismo encontra sua faceta mais existencialista.

Munido da comparação acima, prepare-se para encontrar o som arrastado e dramático – às vezes flertando com a  eletrônica – típico do que se acostumou a entender por  Type O Negative em um habitat ligeiramente ligeiramente diferente do comum. Em uma aclimatação bastante adequada para o outono que vem por aí, eu diria. Dê o PLAY (dessa vez coloquei o disco inteiro para audição, para facilitar o entendimento da sensação) e prepare-se para sobreviver – ainda que melancolicamente – à nova estação.

OCTOBER RUST (1996), TYPE O NEGATIVE – FULL ALBUM

Time capsule – Talking Heads – “Lifetime Piling Up” (1992)

Talking Heads: um dos meus sons preferidos da banda não está em nenhum disco de estúdio, mas em coletânea de 1992

Talking Heads: um dos meus sons preferidos da banda não está em nenhum disco de estúdio, mas em coletânea de 1992

Uma das músicas do Talking Heads de que eu mais gosto não está em nenhum dos discos de estúdio da banda capitaneada por David Byrne, mas sim na coletânea Sand in the Vaseline: the Best of Talking Heads, de 1992. “Lifetime Piling Up” é intensa, contagiante, inteligente como um som do Talking Heads deve ser e, à sua maneira, absolutamente desesperadora. Vale o PLAY!

 

Talking Heads – “Lifetime Piling Up” (1992)

I have tried marijuana 
I get nervous every time 
There will come a knockin’ at the door 
Why is everybody makin’ eyes at me? 
I don’t want to know 
Excuse and pardon me 
Stay for a while 
Maybe we’ll never 
Meet again 

I can see my lifetime piling up 
I can see the days turn into nights 
I can see the people on the street 
Open those windows up 
A hundred floors below me 
Pilin’ those houses up 
Pilin’ them higher, higher, higher 
I can feel them swayin’ back and forth 
Building it higher, higher 
This tower’s learning over 

I got bad coordination 
Stuck a pencil in my eye 
I can hardly wait to get back home 
Why is everybody gettin’ paranoid? 
I’s only havin’ fun 
Scum-bags and superstars 
Tell me your names 
I’ll make a bet, you’re 
Both the same 

I can see my lifetime pilin’ up 
Reaching from my bedroom to the stars 
I can see the house where I was born 
When I was growin’ up – they say that 
I could never keep my trousers up 
I remember days and crazy nights 
Are there any pirates on this ship? 
And if they sober up – they’ll have us 
Home by morning 

Cry, cry, cry 
It’s just you and I 
Like an automobile 
With no one at the wheel 
Spinning out of control 
We’re all over the road 
In our sexy machine 
All the passengers scream 
Scream, scream! 

I can see my lifetime pilin’ up 
I can see it smashin’ into yours 
It was not an accident at all 
Open your window up – I hear you laughin’ 

Goin’ one, two, three, four, five 
Goin’ from the bottom to the top 
Maybe I’m holding on too tight 
And now I’m growin’ up 
I got a funny feeling 
Pilin’ those houses up 
Pilin’ them higher, higher, higher 
Building that highway to the stars 
And turning the music up – Hey! 
I got a winning number

É ruim, mas eu gosto – Khaled, “El Arbi” (1991)

Khaled: sucesso de 1991 foi chegar no Brasil só em 1999 e embalou muitas pistas de dança, embora ninguém soubesse do que é que ele estava falando

Khaled: sucesso de 1991 foi chegar no Brasil só em 1999 e embalou muitas pistas de dança embora ninguém soubesse o que é que ele estava cantando

Meu deus. Estamos realmente pegando pesado aqui, não? Expondo cada cantinho escuro de nossa trajetória musical, por mais vergonhoso que seja… E aí, dia desses, eu me lembrei do Khaled e sua estrondosa “El Arbi“. O hit maior do cantor argelino saiu em seu disco de estreia, o homônimo Khaled, de 1991, mas foi só por volta de 1999 que a música bombou aqui no Brasil – principalmente porque acabou como trilha de novela da Globo (e o sucesso foi tanto que chegou-se ao ponto de Khaled aparecer no programa do Faustão e coisas do gênero). E como nós dançamos ao som dessa gema pop “árabe” (era o que se dizia na época), mesmo sem entender uma palavra da letra… “El Arbi” era evidentemente ruim – haja vista seu sucesso comercial -, mas como embalou (e ainda é capaz de embalar) muitas incursões pelas pistinhas de dança da vida, também ganhou o direito de ser muito boa. Vamos relembrar… Ah, e pra que ninguém mais fique em dúvida sobre o que é que, afinal, o Khaled canta, dá pra conferir a letra e sua tradução aqui.

Originais & Originados – R.L. Burnside (1998) x Doctor L (2012) [trilha de Holy Motors] – “Let My Baby Ride”

"Let My Baby Ride" em cena de Holy Motors (2012): música do bluesman R.L. Burnside renasceu em adaptação feita por Doctor L para o (maluquíssimo) filme francês

“Let My Baby Ride” em cena de Holy Motors (2012): música do bluesman R.L. Burnside renasceu em adaptação feita por Doctor L para o (maluquíssimo) filme francês

E não é que temos aqui uma história de canção original e sua (surpreendente) versão originada que foi parar no cinema? “Let My Baby Ride” era originalmente um blues sujão e meio dançante lançado em 1998 por R.L. Burnside, bluesman originário do Delta do Mississippi, no disco Come on In – álbum em que o músico de 71 anos flertou com a música eletrônica e outras sonoridades contemporâneas. Em 2012, a canção apareceu na trilha sonora do maluquíssimo (e imperdível) filme francês Holy Motors, do diretor Leos Carax. E em sua encarnação cinematográfica “Let My Baby Ride” praticamente renasceu com a adaptação feita pelo músico francês Doctor L. As guitarras ásperas de Burnside dão lugar a uma “orquestra” de acordeons tocados por um grupo misterioso liderado pelo multi-personagem interpretado pelo ator Denis Lavant durante o interlúdio musical da trama – uma das cenas mais impactantes de Holy Motors. Vale o confere! E  se você ainda não assistiu ao filme, não se preocupe, não é nenhum spoiler.

ORIGINAL – R.L. BURNSIDE – LET MY BABY RIDE (1998)

ORIGINADA – DOCTOR L / HOLY MOTORS SOUNDTRACK – LET MY BABY RIDE (2012)