Da estante – Streets: A Rock Opera (1991), Savatage

Savatage em 1991: a banda, que eu ainda não conhecia, tinha tudo pra me desagradar (achava eu), mas me fez dar o braço a torcer

Savatage em 1991: a banda, que eu ainda não conhecia, tinha tudo pra me desagradar (achava eu), mas me fez dar o braço a torcer

Streets: A Rock Opera (1991): o "ponto alto" da discografia da banda deu um nó nos preconceitos e me conquistou pela qualidade e personalidade

Streets: A Rock Opera (1991): o “ponto alto” da discografia da banda deu um nó nos preconceitos e me conquistou pela qualidade e personalidade

Nunca fui muito fã de metal. Mas, como muitos dos nascidos nos anos 1980, passei, sim, por aquela fase da adolescência em que se usa preto e se escuta quase que exclusivamente Iron Maiden, Metallica, Megadeth, Pantera e outras bandas do gênero – além, claro, do grunge de Seattle, que me encantou primeiro e me trouxe para o mundo da música. Quando fiquei um pouco mais velho – ainda no colegial (ensino médio, como se diz hoje) – descobri a Motown e minha vida mudou para sempre. Passei a achar o metal “durão” e até caricato. Os inúmeros subgêneros – power metal, heavy metal melódico, doom metal, black metal, death metal, speed metal e por aí vai – do som, nos quais grande parte dos meus amigos era proficiente, também me desanimaram e acabei por passar um bom tempo renegando o estilo ou mesmo fazendo troça. Descobrir, posteriormente, coisas como Sonic Youth, free jazz, Roy Orbison, Meat Puppets, Dave Matthews Band e música eletrônica (misturada ou não com “rock”) fizeram com que eu me afastasse ainda mais do gênero que havia sido, muito mais do que uma preferência legítima na época, um passaporte para a minha primeira “tribo”  – quem já passou da adolescência sabe a importância disso.

Bem, tudo isso pra falar que essa semana eu resolvi botar “na agulha” um disco de… METAL! A esta altura do campeonato – e quem segue este blog sacou isso -, já amadureci o suficiente para deixar o preconceito de lado e reconhecer o que realmente é bom  – medido pela minha régua, claro -, mesmo entre aquilo que já me fez passar vergonha ao olhar pra trás. No entanto, em vez de revisitar um dos clássicos da minha adolescência embalada em tecido preto, eu quis falar de um álbum que ainda não tinha ouvido inteiro até esses dias. Sei lá como, topei com o Streets: A Rock Opera (1991), do Savatage, inteiro para audição no YouTube. “Por que não?”, pensei, ignorando a partezinha de mim que quase teve urticária ao contemplar uma capa com quatro cabeludos fazendo cara de mau ao pé de uma escadaria vitoriana (?). Lembrei-me de “Jesus Saves“, única música do disco e da própria banda – que, na minha época de metaleiro honorário, já fazia parte do limbo que eram os subgêneros do metal – que já tinha escutado e da qual havia, veja só, gostado de verdade. E então, sem ler nada ou pesquisar qualquer coisa que seja sobre o álbum, mandei o PLAY.

Rapaz… Que PUTA disco! Foi um tapa na cara. Afinal, Streets, tinha praticamente tudo pra me desagradar (achava eu): uma banda de metal da Flórida (!!!) com um disco conceitual (o complemento do nome, A Rock Opera, já entrega, além de ser outro motivo para suspeição EXTREMA), lançado na ingrata (para os metaleiros) década de 1990, além, é claro, da supracitada capa horrenda (e sobre a qual eu não mudei minha opinião, mesmo depois de me surpreender com o som). Uma audição ininterrupta – sem nem repetir meu porto seguro, “Jesus Saves” (um conto urbano sobre um rockstar improvável com o mesmo nome do Messias) –  e lá pela metade dos mais de 60 minutos do álbum eu já dava o braço a torcer. Ao final da sessão, eu tinha certeza: os irmãos OlivaJon, vocalista e tecladista, e Cris, guitarrista, morto em um acidente de carro em 1993 – junto com o baixista Johnny Lee Middleton e o batera Steve “Doc” Wacholz fizeram um dos melhores discos de metal que já ouvi – isso vindo de alguém que, como vocês agora sabem, tornou-se consideravelmente resistente ao estilo.

Depois da epifania, pesquisei e descobri que o Savatage não pertence exatamente a um determinado agrupamento do metal ou do heavy metal, mas tem sua sonoridade alocada nos setores mais “progressivos” e até “sinfônicos” do gênero (mas esqueça orquestras, a viagem não é bem por aí – ainda bem, cá entre nós). O que faz certo sentido, principalmente considerando-se apenas Streets. Que fique claro: o disco é um obra de metal. Para apreciá-lo é preciso estar ciente disso e encontrar a beleza dentro de determinadas particularidades. E aí encontram-se o peso rasgado característico dessa seara, vocais tradicionalmente técnicos embora ásperos, guitarras extremamente bem trabalhadas e bem mais inventivas que a média, teclados que por vezes carregam as canções para direções bastante melodiosas, uma cozinha competente e que emoldura discretamente – engrossando o chumbo aqui e ali – o todo, além de uma aparente disposição para transitar confortavelmente dentro de uma assinatura muito própria cunhada pela banda após os seis lançamentos fonográficos anteriores.

Não espere ficar entediado e nem se deparar com execuções frias, calcadas meramente no peso e na técnica. O aspecto melódico banhado de sentimento – já destacado quando falei dos teclados -, aliás, é uma das tônicas ali. Tanto que passagens mais pesadas muitas vezes se confundem com belíssimas baladas que deixam as melhores gemas do hard rock oitentista no chinelo, incluindo a lindíssima “Believe“, que fecha os trabalhos. E tudo isso sem deixar qualquer lacuna para que o ouvinte – por mais casual que seja – possa estranhar as transições. Enfim, o produto final é consistente, grandiloquente sem ser pretensioso e extremamente envolvente, e muito disso se deve, reconheçamos, à produção magnífica de Paul O’Neill, grande parceiro da banda, inclusive como compositor (ele assina em conjunto com os irmãos Oliva todas as canções do álbum, pra se ter ideia).

Sem dúvida nenhuma, Streets: A Rock Opera é um dos pontos mais altos (talvez O mais) da trajetória do Savatage – que, infelizmente, nunca conseguiu romper a barreira de seu nicho e nem emplacar um sucesso comercial mais contundente (nem mesmo com o disco analisado aqui, a grande aposta [frustrada] da banda). Dispa-se de seus preconceitos e mergulhe nesse digníssimo exemplar do metal em uma de suas encarnações mais interessantes.

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É ruim, mas eu gosto – Khaled, “El Arbi” (1991)

Khaled: sucesso de 1991 foi chegar no Brasil só em 1999 e embalou muitas pistas de dança, embora ninguém soubesse do que é que ele estava falando

Khaled: sucesso de 1991 foi chegar no Brasil só em 1999 e embalou muitas pistas de dança embora ninguém soubesse o que é que ele estava cantando

Meu deus. Estamos realmente pegando pesado aqui, não? Expondo cada cantinho escuro de nossa trajetória musical, por mais vergonhoso que seja… E aí, dia desses, eu me lembrei do Khaled e sua estrondosa “El Arbi“. O hit maior do cantor argelino saiu em seu disco de estreia, o homônimo Khaled, de 1991, mas foi só por volta de 1999 que a música bombou aqui no Brasil – principalmente porque acabou como trilha de novela da Globo (e o sucesso foi tanto que chegou-se ao ponto de Khaled aparecer no programa do Faustão e coisas do gênero). E como nós dançamos ao som dessa gema pop “árabe” (era o que se dizia na época), mesmo sem entender uma palavra da letra… “El Arbi” era evidentemente ruim – haja vista seu sucesso comercial -, mas como embalou (e ainda é capaz de embalar) muitas incursões pelas pistinhas de dança da vida, também ganhou o direito de ser muito boa. Vamos relembrar… Ah, e pra que ninguém mais fique em dúvida sobre o que é que, afinal, o Khaled canta, dá pra conferir a letra e sua tradução aqui.

Lista – 10 músicas para ouvir durante o sexo

10 músicas para ouvir durante o sexo

Antes de mais nada, deixa eu dizer que essa lista foi praticamente encomendada pelo pessoal do popularíssimo blog Somente Coisas Legais, que estava bastante a fim de divulgar uma seleção desse naipe. Some-se a isso o fato de que rankings de quase qualquer espécie parecem atrair muita atenção na internet e de que sexo é um chamariz universal e temos aí mais um post gloriosamente destinado ao sucesso – e extremamente carregado de hormônios.

Bem, para aqueles que querem se aprimorar na lida, novos truques são sempre bem-vindos. E uma playlist cuidadosamente escolhida pode, comprovadamente, ajudar a esquentar as coisas e criar um clima bacana  para aqueles momentos íntimos, por assim dizer.

Apresento-lhes, então, dez músicas para se ouvir durante o sexo (sempre torcendo, no entanto, para que a brincadeira dure ainda mais que isso). Ao final do post você também encontra a playlist já montada na sequência para o seu maior conforto!

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10-) Portishead – “Glory Box” (1994)

A canção que, de certa forma, resume o trip-hop do Portishead é muito provavelmente uma das músicas mais sexy de todos os tempos. Abrindo o “show” com essa você já larga com vantagem.

09-) The Beatles – “I Want You (She’s So Heavy)” (1969)

Já provei antes que os Beatles fizeram, sim, músicas bastante sensuais. E essa é uma das mais poderosas entre elas. Praticamente uma carta de intenções em forma de som.

08-) Lou Reed – “Walk on the Wild Side” (1972)

Quem poderia imaginar que o errático e eterno “poeta junkie” Lou Reed seria uma boa escolha (principalmente enquanto ainda estamos nas preliminares)? Eu não acreditava na eficiência do cara até comprovar.

07-) Chris Isaak – “Wicked Game” (1989)

Ok, essa é clichê até não poder mais, além de te fazer correr o risco de simplesmente ter que parar tudo pra pensar “Afinal, por que diabos ele resolveu mandar essa modulação vocal bizarra no refrão? O que ele estava pensando?“. Mas, vale o risco, afinal, o único sucesso digno de menção da carreira do Chris Isaak é um clássico absoluto da sacanagem.

06-) The Zombies – “Time of the Season” (1968)

Apesar de seu nome mórbido, a banda deve ter embalado vários amassos com este hit da década de 1960. “It’s the time of the season for loving!“.

05-) Divinyls – “I Touch Myself” (1991)

Segunda one hit wonder da lista, as Divinyls botaram o mundo pra cantar versos safados como “I love myself / I want you to love / When I feel down / I want you above me“. Ao ouvi-la, no entanto, cuidado pra não levar muito a sério a mensagem principal da canção e deixar ninguém “na mão”.

04-) Luther Vandross – “Never Too Much” (1981) 

Com base no que já rolou até aqui, essa pedrada soul oitentista é até bastante inocente e romântica. Mas o balanço de Luther Vandross é certeiro pra manter o fogo aceso.

03-) George McCrae – “I Get Lifted” (1974) 

Esse “funkeiro” da Flórida conseguiu criar uma das canções mais sexy dos anos 1970. Preste atenção no rebolado do baixo, se conseguir. “Girl, I can tell ya’, you turn me on“, declama nosso terceiro lugar. Pois é…

02-) Marvin Gaye – “Sexual Healing” (1982)

Tava demorando, né? Mas, enfim, ele apareceu. Medalha de prata para a escancarada celebração das, hummm, “propriedades terapêuticas” do lovemanking criada pelo absoluto e inconfundível Marvin Gaye. Ah, depois não deixe de conferir também a despretensiosa versão do Soul Asylum (aquela de “Runaway Train“).

01-) Marvin Gaye – “Let’s Get it On” (1973)

Olha, eu juro que tentei fazer diferente, mas não tem pra ninguém! É Mr. Gaye na cabeça, de novo! Ouro para a canção que praticamente significa sexo. Mesmo absolutamente banalizada por anos e anos de utilização em todo e qualquer momento que minimamente sugira uma pegação, “Let’s Get it On” é o hino dos amantes, dos cabelos bagunçados, da respiração ofegante, das pernas entrelaçadas, corpos suados, bocas enlouquecidas e suspiros satisfeitos depois do grand finale.


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######### PLAYLIST COMPLETA DAS 10 MÚSICAS PARA OUVIR DURANTE O SEXO – É só dar o play e correr pro abraço!

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***BONUS TRACK – Marvin Gaye – “Keep Gettin’ it On” (1973)

Meu, o cara gostava tanto da coisa que, no disco que trazia o histórico hit acima (batizado com o mesmo nome da faixa, Let’s Get it On, 1973), ele ainda mandou uma espécie de suíte da canção, sugestivamente sugerindo “Keep getting it on“. Uma boa trilha para aquele momento em que se começa a considerar um segundo round. Vai com fé, meu amigo/minha amiga! 😉 And keep getting it on!

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É ruim, mas eu gosto – Marky Mark and the Funky Bunch, “Good Vibrations” (1991)

Cena do clipe de "Good Vibrations" (1991): antes de se tornar o consideravelmente famoso "ator" Mark Wahlberg, o sujeito bombadinho do vídeo abaixo era conhecido como Marky Mark, e capitaneava um grupo de pop-rap e dance batizado de "Marky Mark and the Funky Bunch"

Cena do clipe de “Good Vibrations” (1991): antes de se tornar o consideravelmente famoso “ator” Mark Wahlberg, o sujeito bombadinho do vídeo era conhecido como Marky Mark e capitaneava um grupo de pop-rap e dance batizado de “Marky Mark and the Funky Bunch”

E tá aí mais uma pérola noventista (ah, são tantas, não?) pra nos envergonharmos de gostar (mas foda-se, evidentemente; estamos aqui pra isso mesmo). Vamos lá:

Antes de se tornar o consideravelmente famoso (e minimamente respeitável) “ator” Mark Wahlberg, o sujeito bombadinho do vídeo abaixo era conhecido como Marky Mark (por conta disso até o DJ Marky – antes igualmente chamado de Marky Mark, brasileiro, sucesso na gringa – resolveu mudar de nome). No comecinho dos anos 1990, ele (Wahlberg) comandava uma uma banda de pop-rap e dance chamada Marky Mark and the Funky Bunch (ouch!), que durou só dois álbuns (em 1991 e 1992, mais especificamente). E, olha, essa foi uma fase em que o rapaz (que chegou, posteriormente, a fazer parte do núcleo principal do elenco do filme Os Infiltrados [2006], de Martin Scorsese) parecia ter desistido de vestir qualquer peça de roupa da cintura para cima.

Good Vibrations“, a música mais famosa do grupo (presente no álbum Music for the People, de 1991; veja o vídeo abaixo), é muito ruim, mas também é do caralho: base funkeada e sacolejante, vocal black feminino absolutamente apaixonante no refrão e o insosso rap “de branco” de Marky Mark (que não acrescenta nada, mas também não compromete) recheando a coisa toda.  Enfim, um PLAY absolutamente inocente, dançante, nostálgico e extremamente difícil de admitir pros amigos. Mas não tema! É pra isso que serve essa seção! Plugue o fone, aumente o volume e embarque sem reservas nessa nostalgia. Eu sei que você vai gostar…