Originais & Originados – Roberta Flack (1973) x Fugees (1996) – “Killing Me Softly With His Song”

Roberta Flack: seu clássico de 1973 voltou repaginado pelo Fugees duas décadas depois

Roberta Flack: seu clássico de 1973 voltou repaginado pelo Fugees duas décadas depois

Se liga no facelift pelo qual esse clássico do R&B/soul dos anos 1970 passou pouco mais de duas décadas depois de seu lançamento. “Killing Me Softly With His Song“, canção que Roberta Flack levou ao topo das paradas em 1973, voltou modernizada aos rankings do sucesso em forma de rap/neo soul pelas mãos de Lauryn Hill e os Fugees (que ainda contava com Pras e Wyclef Jean em sua formação) em 1996, encarnada em faixa do aclamado álbum The Score.

Apesar das mudanças, dá pra sentir claramente as raízes do som original na releitura dos Fugess, o que nos permite encarar a versão como uma verdadeira declaração de influências do trio. Aperte o PLAY e flutue por mais essa justaposição de clássicos!

ORIGINAL – ROBERTA FLACK – KILLING ME SOFTLY WITH HIS SONG (1973)

ORIGINADA – FUGEES – KILLING ME SOFTLY WITH HIS SONG (1996) 

Da estante – October Rust (1996), Type O Negative – Trilha sonora perfeita para a “depressão outonal”

Type O Negative: "goth rock" atmosférico com a cara da estação

Type O Negative: “goth rock” atmosférico com a cara da estação

October Rust (1996): a trilha sonora perfeita para a "depressão outonal"

October Rust (1996): a trilha sonora perfeita para a “depressão outonal”

Como hoje (20/03/13) é o último dia do verão, resolvi revisitar o álbum que considero, até hoje, a trilha sonora perfeita para a “depressão outonal” que pode acometer os incautos durante a estação em que as folhas caem, o tempo esfria e a mente divaga por paisagens bem menos exuberantes – aquela tristezinha incontrolável que pode se instalar na passagem da época mais quente e solar do ano para aquilo que, na prática, vai ser uma longa e contemplativa introdução ao inverno.

Pra começar, October Rust (1996), quarto álbum da banda de “goth rock” Type O Negative, já carrega em seu título uma tradução impressionista da estação (Ferrugem de Outubro, em português, pinta muito bem a imagem das folhas cadentes alaranjadas do mês de outubro – o “pico” do outono no Hemisfério Norte, que é de onde a banda vinha [EUA, mais especificamente]). Além do que, para sustentar a minha tese, todo o clima do disco parece conversar muito eloquentemente com os efeitos emocionais dessa passagem de estações sobre nós, a porção humana que habita o globo terrestre.

Lançado cinco anos após o primeiro registro da banda, o álbum parece vagar com certa tranquilidade pelos terrenos desbravados primeiro pelo ótimo e controverso Bloody Kisses (1993), trabalho imediatamente anterior do “Type O” que colocou definitivamente a turma de Peter Steele – o gigantesco e soturno baixista/vocalista/compositor morto em 2010 por uma parada cardíaca mal-explicada – no mapa do rock/metal alternativo e/ou “gótico” mundial. Porém, enquanto Kisses parecia compor uma ambientação eminentemente urbana dark (um sarau elétrico regado a vinho tinto no cemitério parece definir bem), October Rust expande, de certa forma, os limites da poesia romântica e trágica de Steele e o som atmosférico e gélido da banda em uma direção mais bucólica e pagã, chegando a pontos escondidos de bosques forrados de folhas secas onde o arcadismo encontra sua faceta mais existencialista.

Munido da comparação acima, prepare-se para encontrar o som arrastado e dramático – às vezes flertando com a  eletrônica – típico do que se acostumou a entender por  Type O Negative em um habitat ligeiramente ligeiramente diferente do comum. Em uma aclimatação bastante adequada para o outono que vem por aí, eu diria. Dê o PLAY (dessa vez coloquei o disco inteiro para audição, para facilitar o entendimento da sensação) e prepare-se para sobreviver – ainda que melancolicamente – à nova estação.

OCTOBER RUST (1996), TYPE O NEGATIVE – FULL ALBUM

Da estante – Murder Ballads (1996), Nick Cave & the Bad Seeds

Nick Cave (no centro) & the Bads Seeds em sua formação mais atual: versando (com um vozeirão meio assustador, meio sensual) sobre sobre temas tão densos quanto violência, religião, obsessão amorosa e, claro, morte, sobre um som que mistura blues, rock, jazz, baladas ao piano e toda a grandiosidade do gospel

Nick Cave (centro) & the Bads Seeds em sua formação atual: versando (com um vozeirão meio assustador, meio sensual) sobre sobre temas tão densos quanto violência, religião, obsessão amorosa e morte sobre um som que mistura blues, rock, jazz, baladas ao piano e toda a grandiosidade do gospel

Murder Ballads (1996): ao longo de quase uma hora, mesclando composições originais e versões, o álbum conta histórias tão "pitorescas" quanto a de um homem que testemunha a morte de sua família pelas mãos de um serial killer

Murder Ballads (1996): mesclando originais e versões, o álbum conta histórias tão “pitorescas” quanto a de um homem que testemunha a morte de sua família pelas mãos de um serial killer

Aproveitando a proximidade do lançamento do novo disco do Nick Cave e seus Bad Seeds (que deve sair em 19 de fevereiro e, com certeza, vai ganhar uma resenha aqui no blog), resolvi espanar o pó de um dos álbuns mais peculiares da carreira do meu compositor favorito em língua inglesa e sua banda. Em 1996, o australiano Cave e seu variável grupo de comparsas já contavam mais de uma década de carreira sob a alcunha de “sementes ruins” (o compositor já havia acumulado outros tantos quilômetros de estrada com sua primeira banda, o grupo pós-punk The Birthday Party, que durou de 1973 a 1983), e foi então (dois anos depois do aclamado, pesado, sujo e visceral Let Love In), sem muito aviso nem cerimônia, que a banda deu ao mundo Murder Ballads, um disco conceitual que versa, de cabo a rabo, sobre… Bem… Sobre ASSASSINATO (como o título já adianta)!

O álbum, que incrivelmente – dada a sua temática – foi o maior sucesso comercial de Cave até o presente, soa como um exorcismo, uma materialização quase definitiva do lado mais sombrio do lirismo do compositor – conhecido até hoje por sua figura soturna e por versar tranquilamente sobre temas tão densos quanto violência, religião, obsessão amorosa e, claro, morte. Mas não pense que isso torna o disco menos palatável: as piores escabrosidades são todas narradas de forma quase elegante pelo vozeirão meio sensual, meio tenebroso de Nick sobre um som que mistura, de forma magistral – como de costume com os Bad Seeds (aqui em sua melhor forma ) -, blues, rock, jazz, baladas ao piano e toda a grandiosidade do gospel (uma das grandes influências de Cave, believe it or not).

Ao longo de quase uma hora, mesclando composições originais e versões, Murder Ballads conta histórias tão “pitorescas” quanto a de um homem que testemunha a morte de sua família pelas mãos de um serial killer (“Song of Joy”, a assustadora faixa de abertura), um assassinato motivado pela tentativa de roubo de um chapéu em um saloon de St. Louis (“Stagger Lee”, canção/poema/conto tradicional norte-americano que foi gravado por mais de 400 artistas desde o primeiro registro, datado de 1923) e a sanguinolenta vingança de uma mulher trocada por outra (“Henry Lee”, dueto com PJ Harvey – que na época vivia um romance com Cave -, também baseado em um conto/canção popular, dessa vez remontando ao século XVIII).

O álbum ainda passeia por relatos de uma psicótica e trágica histórica de amor (“Where the Wild Roses Grow”, outro dueto, agora com a diva pop Kylie Minogue, conterrânea de Cave – a faixa mais bem sucedida do disco, talvez por conta de seu cinematográfico clipe [veja abaixo], que também conta com a participação iluminada de Minogue) e pela épica descrição de uma espalhafatosa e tragicômica carnificina em que todos os frequentadores de um bar passam dessa pra melhor (“O’Malley’s Bar”). Fechando o disco, e carregando uma baita carga de humor negro, está ali, plantado, um improbabilíssimo cover da resignada (quase otimista e positiva) “Death is Not the End”, de Bob Dylan, que conta com a participação de todos os músicos que contribuíram com o álbum e mais alguns convidados especiais numa vibe estranhíssima, meio “We Are the World” pós-tragédia. O encerramento gera um choque tão com “a cara” de Nick Cave que só resta ao ouvinte se perder na canção enquanto digere todo o absurdo que acabou de absorver.

Enfim, Murder Ballads é um clássico improvável do tipo de produção musical que gravita fora da órbita da música popular tradicional – ainda mais nos assépticos anos 1990 -, e, até mesmo por isso, uma experiência lírica e sonora ímpar e recompensadora, além de um recomendadíssimo e urgente mergulho no mundo transtornado e poético de Nick Cave & the Bad Seeds. Ouça já (e com as luzes apagadas, se tiver coragem)!






Originais & Originados – The Ohio Players x Red Hot Chili Peppers – “Love Rollercoaster”

Ohio Players: lenda urbana e versão tardia que foi parar no filme de Beavis and Butt-head

The Ohio Players: lenda urbana e versão tardia que foi parar no filme de Beavis and Butt-head

Essa história é das mais divertidas. “Love Rollercoaster” foi um hit do álbum Honey (1975), da banda norte-americana de funk/soul The Ohio Players. E tanto o disco quanto a música foram motivo de polêmicas que começaram à época do lançamento e persistem até hoje. O primeiro por trazer uma capa com uma mulher nua derramando mel (“honey”) sobre seu corpo, e a última por ser protagonista de uma das lendas urbanas mais bizarras e persistentes da história da música até hoje: dizem as más línguas que o grito que pode ser ouvido entre 2:32 e 2:36 da faixa abaixo seria de uma pessoa sendo assassinada (!) durante as gravações. A  história oficial dá conta de que o “vocal” na verdade foi gravado pelo tecladista e compositor da banda, Billy Beck, mas até hoje o trecho é motivo para discussões.

Bem mais amena é a história da versão. Repaginada em 1996 (mais de 20 anos depois da original) pelo Red Hot Chili Peppers, a música foi gravada sob encomenda para a trilha do longa-metragem da dupla de desenho animado da MTV Beavis and Butt-head (Beavis and Butt-head do America; 1996). Com poucas diferenças com relação à original – incluindo trechos meio “rap” do vocalista Anthony Kiedis, que canta o tempo todo com um efeito de megafone -, a faixa – que, OBVIAMENTE, ganhou um clipe bastante popular na MTV à época – é uma releitura no mínimo divertida cujo maior mérito foi apresentar The Ohio Players (e todas as suas polêmicas) para gerações mais novas.

ORIGINAL – THE OHIO PLAYERS – LOVE ROLLERCOASTER (1975)

 

ORIGINADA – RED HOT CHILI  PEPPERS – LOVE ROLLERCOASTER (1996)