É ruim, mas eu gosto – Khaled, “El Arbi” (1991)

Khaled: sucesso de 1991 foi chegar no Brasil só em 1999 e embalou muitas pistas de dança, embora ninguém soubesse do que é que ele estava falando

Khaled: sucesso de 1991 foi chegar no Brasil só em 1999 e embalou muitas pistas de dança embora ninguém soubesse o que é que ele estava cantando

Meu deus. Estamos realmente pegando pesado aqui, não? Expondo cada cantinho escuro de nossa trajetória musical, por mais vergonhoso que seja… E aí, dia desses, eu me lembrei do Khaled e sua estrondosa “El Arbi“. O hit maior do cantor argelino saiu em seu disco de estreia, o homônimo Khaled, de 1991, mas foi só por volta de 1999 que a música bombou aqui no Brasil – principalmente porque acabou como trilha de novela da Globo (e o sucesso foi tanto que chegou-se ao ponto de Khaled aparecer no programa do Faustão e coisas do gênero). E como nós dançamos ao som dessa gema pop “árabe” (era o que se dizia na época), mesmo sem entender uma palavra da letra… “El Arbi” era evidentemente ruim – haja vista seu sucesso comercial -, mas como embalou (e ainda é capaz de embalar) muitas incursões pelas pistinhas de dança da vida, também ganhou o direito de ser muito boa. Vamos relembrar… Ah, e pra que ninguém mais fique em dúvida sobre o que é que, afinal, o Khaled canta, dá pra conferir a letra e sua tradução aqui.

É ruim, mas eu gosto – Sisqó, “Thong Song” (1999)

Sisqó, o pai de "Thong Song": nome exótico, visual excêntrico e um hit contagiante com a cara da era "terra de ninguém" da música pop nos anos 2000

Sisqó, o pai de “Thong Song”: nome exótico, visual excêntrico e um hit contagiante com a cara da era “terra de ninguém” da música pop nos anos 2000

Não me pergunte por que, mas dia desses eu pensei no Sisqó… MEU, LEMBRA O SISQÓ? O cantor norte-americano de pop-rap/R&B com nome exótico e visual excêntrico – membro emérito do grupo de R&B Dru Hill – tomou de assalto as paradas internacionais de sucesso em 1999/2000 (na iminência da instauração do panorama “terra de ninguém” que dominou a música comercial na primeira década dos anos 2000) com a infecciosa “Thong Song“. A canção – um dos singles do absolutamente esquecível álbum Unleash the Dragon (1999), estreia solo do artista  – deu as caras já abalando o universo pop com uma pegada dançante e rebolativa, além da letra descarada que versa sobre as curvas e o balanço de uma certa moça que usa calcinha fio-dental (o “thong” da canção). Tudo isso conjugado no mais absoluto clima de “música pra dançar loucamente na pista e, depois de uns dois anos, negar conhecimento até a morte”. Pra sentir melhor o drama: acredite ou não, a música chegou a receber quatro indicações ao Grammy. Ao GRAM-MY, brother!

E se essa história ainda precisa de mais um elemento surreal pra valer a nota, que fique registrado que o maluco do Sisqó (e/ou seus produtores) teve a manha, além de tudo, de samplear o arranjo de cordas da versão gravada em 1967 pelo guitarrista de jazz Wes Montgomery para a canção “Eleanor Rigby”, dos Beatles, e usá-lo como um elegante pano de fundo para uma batida extremamente mal-intencionada e versos do naipe de “Ooh, that dress so scandalous /And you know another nigga couldn’t handle it/See you shaking that thing like who’s the ish/With a look in your eye so devilish/Uh, you like to dance at all the hip-hop spots/And you cruise to the crews like connect-the-dots/Not just urban she likes the pop/Cause she was livin’ la vida loca” (e se você sentiu que a última frase aí é uma clara citação ao hit de Ricky Martin, acertou na mosca).

Bem, “Thong Song”  – e seu clipe oficial (exibido à exaustão pela MTV; veja o vídeo abaixo) -, único sucesso digno de nota do Sisqó, diga-se de passagem, evidentemente é ruim de dar vergonha, até mesmo pela representação da era que ajudaria, informalmente, a inaugurar.  Mas, pelo remelexo desavergonhado, harmonia contagiante e inacreditável capacidade de – até hoje – laçar a galera pelos quadris, o som é bom pra cacete. Vai entender… Mande o PLAY aí embaixo e tente teorizar sobre o assunto você também!

Originais & Originados – Wayne Cochran / Arthur Alexander (1962) x Pearl Jam (1999) – “Last Kiss” / “Soldier of Love (Lay Down Your Arms)”

Pearl Jam: versões "beneficentes" para canções de 1962 acabaram se tornando grandes hits da carreira da banda

Pearl Jam: versões “beneficentes” para canções de 1962 acabaram se tornando grandes hits da carreira da banda

Além de todas as propriedades das grandes canções que costumo citar na seção Originais & Originados deste blog, há ainda o fator “impulsionador” de carreira. Incontáveis artistas dos mais diferentes calibres e gêneros já recorreram a versões matadoras (ou nem tanto) de boas composições (quase sempre para um geração totalmente diferente da que escutou a original) para se lançar no mundo da música ou mesmo voltar do ostracismo comercial. Não estou dizendo que é exatamente esse o caso do Pearl Jam, até porque a história em questão se deu em um contexto absolutamente louvável. Mas, que ajudou a banda emérita da cena de Seattle a se manter em evidência durante um período consideravelmente árido, ajudou. Bem, relembremos:

Em junho de 1999, pouco tempo depois de lançar o inconstante Yeld e o registro ao vivo – inócuo em termos de discografia – Live on Two Legs, ambos de 1998, o Pearl Jam participou do No Boundaries: A Benefit for the Kosovar Refugees, disco beneficente lançado pela Epic Records para ajudar a levantar fundos para os refugiados albaneses da Guerra do Kosovo e que contou com músicos como Peter Gabriel, Neil Young, Rage Against the Machine entre outros. A participação da banda de Eddie Vedder, única a figurar duas vezes no álbum, consistiu em uma dupla de regravações de canções de 1962, ambas disponibilizadas ainda no Natal do ano anterior como um single especial para o fã-clube do grupo.

E as músicas escolhidas pelo PJ para contribuir – belas e encorpadas revisões de “Last Kiss“, de autoria do blueseiro branco Wayne Cochran (que havia ficado famosa mesmo só em 1964, com a versão de J. Frank Wilson and the Cavaliers) e “Soldier of Love (Lay Down Your Arms)“, do soulman Arthur Alexander (gravada também por ninguém menos que os Beatles – fãs confessos de Alexander – em 1963) – acabaram se tornando as faixas de maior sucesso do álbum, atraindo inegável atenção para a situação dos refugiados, mas também garantindo presença radiofônica maciça para a banda (até hoje é possível, ocasionalmente, topar com uma delas nas madrugadas das FMs mundo afora) e se consolidando, curiosamente (pelo contexto), como dois dos principais hits da carreira de um dos maiores expoentes do bom e velho grunge.

Mas, chega de papo! Hora de se jogar de ouvidos abertos em mais esse mergulho pela – muitas vezes cíclica – história da música pop.

ORIGINAL – WAYNE COCHRAN – LAST KISS (1962)

ORIGINADA – PEARL JAM – LAST KISS (1999)

ORIGINAL – ARTHUR ALEXANDER – SOLDIER OF LOVE (LAY DOWN YOUR ARMS) (1962)

ORIGINADA – PEARL JAM – SOLDIER OF LOVE (LAY DOWN YOUR ARMS) (1999)