Vídeo da semana – Commander Chris Hadfield, “Space Oddity” (2013) – Uma versão de David Bowie gravada em pleno espaço sideral

O astronauta canadense Comandante Chris Hadfield - atual tripulante da Estação Espacial Internacional - resolveu registrar, em pleno espaço, uma comovente versão da canção "Space Oddity", composta originalmente por David Bowie

O astronauta canadense Comandante Chris Hadfield – atual tripulante da Estação Espacial Internacional – resolveu registrar, em pleno espaço, uma comovente versão da canção “Space Oddity”, composta originalmente por David Bowie

Esse aí obviamente já era pra ter sido escolhido e publicado como “Vídeo da semana” logo que saiu (no dia 12/05/13). No entanto, alguns contratempos acabaram me atrasando, e o registro ficou só para agora. Bem, não importa. Dada a magnitude do lance todo, bora corrigir – antes tarde do que nunca.

Pois bem: acontece que dia desses o astronauta canadense Comandante Chris Hadfield – atual tripulante da Estação Espacial Internacional – resolveu registrar (em pleno espaço sideral, gravitando em torno da órbita da Terra) uma comovente (ainda mais levando-se em conta as circunstâncias) versão da canção Space Oddity“, composta originalmente por David Bowie para o álbum homônimo Space Oddity (de 1969).

O vídeo gravado por Hadfield, além de impressionar pelas circunstâncias características da rotina de uma estação espacial (como a ausência de gravidade e a impressionante e bela visão do globo terrestre registrada do espaço, por exemplo), emociona por conta da entrega do astronauta à interpretação (que eu chego a considerar melhor que a original, pra você ter uma ideia) e, enfim, pela colocação no contexto “apropriado” – atualmente, pela evolução da tecnologia exploratória espacial terrestre – da música que, há mais de 40 anos, versava sobre as agruras das viagens espaciais.

Enfim, coisa belíssima de se ver! Tenho certeza que o Bowie ficou orgulhoso!

Resenha – Queens of the Stone Age, …Like Clockwork (2013)

Queens of the Stone Age em sua formação mais recente (Josh Homme é o segundo da direita para a esquerda): novo álbum é difícil de analisar, mas parece deixar pistas do caminho que a banda pode seguir

Queens of the Stone Age em formação recente (Josh Homme é o segundo da direita para a esquerda): novo álbum é difícil de analisar, mas parece deixar pistas do caminho que a banda pode seguir

...Like Clockwork (2013): novo álbum soa surpreendentemente mais como uma pista confiável dos caminhos que o Queens parece disposto a seguir daqui pra frente do que como mais uma extravagância naturalmente circunstancial

…Like Clockwork (2013): novo álbum soa surpreendentemente mais como uma pista confiável dos caminhos que o Queens parece disposto a seguir daqui pra frente do que como mais uma extravagância naturalmente circunstancial

Desde que foi anunciado, o novo álbum do Queens of the Stone Age já estava empatado no páreo pelo título de “disco mais esperado do ano” com o Random Access Memories, do duo francês Daft Punk (também falarei dele em breve). Talvez tenha sido por isso que …Like Clockwork, o ainda vindouro (oficialmente) trabalho de Josh Homme e companhia (previsto para sair no início de junho), tenha vazado exatamente um dia depois que o mais recente disco da dupla robótica de música eletrônica acabou se multiplicando – antes da hora – feito gripe pela rede (era pra sair em 20 de maio, mas uma semana antes disso já era possível encontrá-lo para download em sites diversos). Talvez nada disso tenha sido planejado e ambas as bandas só tenham acabado mesmo  tendo que lidar com um expediente pra lá de comum em tempos de conexões de banda larga.

De qualquer maneira, é preciso dizer que, nos últimos meses, tanto o Daft Punk quanto o Queens of the Stone Age já estavam dando um show de comunicação e marketing pré-lançamento, utilizando principalmente a internet. Estes últimos fizeram um uso magistral de seu canal no YouTube, publicando diversos vídeos – animações – “sonorizados” por algumas das faixas então inéditas e amarrados por um aparente conceito único, tanto em estilo quanto em narrativa. Ao mesmo tempo em que aumentavam a expectativa dos fãs, esses teasers (muitos dos quais estão publicados ao longo deste post para apresentar as faixas já divulgadas oficialmente pela banda) deixavam no ar a impressão de que o novo trabalho seria mais um álbum pesado, complexo e conceitual na discografia do QOTSA (tal qual o celebradíssimo Songs for the Deaf, de 2002, guardadas as devidas proporções).

Some-se a isso declarações intrigantes da banda à imprensa especializada e a divulgação de que o álbum contaria mais uma vez com Dave Grohl (Foo Fighters, Nirvana) na bateria (como em Songs for the Deaf) e com a participação de convidados do calibre de Nick Oliveri (ex-baixista e vocalista da banda), Trent Reznor (Nine Inch Nails), Alex Turner (Arctic Monkeys) e (pasme!) Sir Elton John, e tinha-se aí um fenômeno discográfico só esperando para nascer.

Bom, já que consegui botar a mão na massa antecipadamente, vamos de uma vez à análise do produto final (e que fique a recomendação: se você é fã de verdade, compre o oficial! Apoie as bandas de que você gosta! Seja em formato físico, seja no iTunes ou similares):

… Like Clockwork, sexto álbum de estúdio do QOTSA, é difícil de se comentar superficialmente. Um bocado mais difícil que o restante da discografia da banda (o que já não é pouca coisa). A primeira impressão mais nítida que se tem depois de algumas audições é a de que, após cinco discos bastante diferentes entre si – mas que parecem, de certa forma, dar a deixa um para o outro -, a inconstante trupe capitaneada pelo vocalista, guitarrista e compositor absoluto Josh Homme continua em uma espécie de busca interminável por um formato no qual se encaixar, em um prolífico e bem-vindo desconforto com aquilo que poderíamos chamar de “sua identidade”. Em retrospecto, apesar do “sotaque” facilmente identificável, a banda nunca conseguiu se acomodar – e talvez esteja aí o seu maior mérito.


Relembremos rapidamente (ou quase; você pode pular este e os três próximos parágrafos, se quiser, sem prejuízo nenhum), e com propósitos eminentemente pedagógicos, essa trajetória: Queens of the Stone Age (1998), o debute que veio três anos após Homme e Oliveri deixarem o finado Kyuss – um dos grandes representantes daquilo que chamaríamos de stoner rock -, era o retrato empolgante, vigoroso e imaturo de um novo grupo tentando mostrar ao mundo seu estilo, sua proposta, que, apesar de ainda dever muito às origens de seus membros fundadores, já era um pouco mais intrigante que a média, bem ao gosto de um novo milênio na história da música. O sucessor Rated R (2000) já mostrava uma banda mais confortável com suas raízes, embora igualmente disposta a experimentar – seja com a constante e por vezes impenetrável auto-referência, seja com violentas cutucadas na membrana que parecia definir os “limites” do rock -, e que ia conquistando silenciosamente o respeito da crítica e do público mais predispostos.

Foi então que o terceiro trabalho, Songs for the Deaf (2002), que, embora estivesse longe de ser uma unanimidade pop ou mesmo um disco de fácil absorção – como eu já disse, mesmo sem parecer tanto tratava-se de um álbum conceitual, cujas suítes psicodélicas, pesadas e hipnóticas até hoje são praticamente ignoradas pelos fãs de última hora -, acabou ganhando a simpatia generalizada e ainda mais ampla de público e crítica e chegou a ser encarado como o som do Queens of the Stone Age “em estado puro” depois de duas esforçadas tentativas anteriores de destilação em formato de disco. Pra ajudar, Homme convidara Dave Grohl, que já gozava de prestígio praticamente inabalável por sua história com o Nirvana e com o Foo Fighters, para assumir, em estúdio, as baquetas (coisa que o tal cidadão sempre fez MUITO BEM, melhor que qualquer outra, na minha modesta opinião), além de contar com palhinhas vocais de Mark Lanegan (ex-Screaming Trees) aqui e ali. Não tinha como dar errado. O álbum chocou (no sentido mais positivo da palavra) todo mundo e colocou a banda definitivamente no mapa do rock contemporâneo.

Foi logo depois disso que, na minha opinião, a beleza da inconstância característica do QOTSA deu sinais mais altos, claros e definitivos. Passados três anos, em 2005, a banda colocava na praça Lullabies to Paralyze, disco que deve ter dado uma rasteira considerável naqueles que esperavam uma continuação óbvia de Songs for…. Porque, em vez de simplesmente se repetir, ali os músicos somavam aos mais poderosos contornos de sua obra anterior uma aparente vontade de testar ainda mais os limites do gênero ímpar que acabavam de criar para eles mesmos. Ao peso contagiante, venenoso e algo psicodélico dos álbuns anteriores (em especial ao disco imediatamente anterior), a banda adicionou um experimentalismo ainda mais desvairado e um admirável descompromisso com as fórmulas às quais já havia recorrido. De certa forma, Lullabies… foi uma prova de que Homme e seus comparsas estavam decididos a não permanecer por muito tempo no mesmo lugar.

Comprovando, de certa forma, toda a tese exposta anteriormente, em 2007 o QOTSA veio com Era Vulgaris, uma veloz, suja e sacana negação frontal do patamar que eles mesmos haviam alcançado dois anos antes. Para alguns, o disco foi uma revigorante “volta às origens”, uma visita – protagonizada por um time evidentemente mais maduro – aos supostos “fundamentos” do som que, aparentemente, caracterizaria o “estilo” da banda. Discordo. Enxergo ali – haja vista que considero Era… um dos álbuns menos interessantes da discografia do Queens – uma relaxada, escandalosa e gratuita (na medida, apertada, em que é possível atribuir tal adjetivo à trajetória do grupo) ruptura (possivelmente premeditada?) com quaisquer expectativas que pairassem naquele momento sobre o bando de Homme. Teriam eles feito de propósito? Será que bolaram intencionalmente – para o lançamento que marcaria justamente o fim de um longevo contrato com a gravadora Interscope – uma obra difusa, áspera e absolutamente despreocupada com qualquer prognóstico comercial e de crítica? Talvez… Com a balada sexy “Make It Wit Chu” (e seu clipe carregado de hormônios) encarregada de fazer a frente radiofônica do disco e a esquizofrênica “Sick, Sick, Sick” (e seus ecos que remetiam ao já saudoso diamante stoner “Feel Good Hit of the Summer” – de Rated R) carregando a responsa de legitimar o álbum para uma parcela mais “conservadora” da audiência cativa (em que se pese o conhecido, imprevisível e extravagante composto sonoro que poderia se esperar do Queens), o lançamento se safou consideravelmente bem, principalmente – na minha opinião – por parecer, paradoxalmente, um sinal de que o QOTSA (apesar de configurar uma clara guinada estética em aparente marcha ré acelerada) havia, finalmente, abraçado uma fórmula confortável sobre a qual se estabelecer. Isso sem mencionar a evidente preguiça da crítica especializada, muito mais lenta em demolir um mito criado por ela mesma do que em sagrar um novo medalhão da indústria cultural.

Ok, já passa da hora de voltarmos a …Like Clockwork e seus méritos. Sigamos. No fim das contas vai acabar sendo pano rápido, que já gastei teclado demais nessa inchada (ainda que justificável, musicologicamente necessária, até) viagem no tempo. Confirmando a única constante aparente na obra do Queens of the Stone Age, o novo álbum cristaliza, uma vez mais, o retrato de uma entidade musical desesperadamente desconfortável com a ideia de repetição e continuidade. O novo disco, com suas 10 faixas e pouco mais de 45 minutos de duração, se descortina como um terreno absolutamente simpático à criatividade sempre efervescente de Homme (representante único da formação inicial da banda – e, nesse ponto, “dono” incontestável do “projeto” QOTSA) e à proposta absolutamente experimental, descompromissada, e volátil do compositor.

No entanto, por qualquer que seja a razão (ainda que puro palpite ou mera intuição), …Like Clockwork soa surpreendentemente mais como uma pista confiável dos caminhos que o Queens (e seu mentor) parece disposto a seguir daqui pra frente do que como mais uma extravagância naturalmente circunstancial. Levando-se em consideração que Josh Homme acaba de mergulhar nos 40,  já acumula passagens musicais memoráveis no currículo, além de ter vivido tudo e mais um pouco daquilo que seu estilo de vida pode proporcionar durante mais de duas décadas (embora também tenha, nesse meio tempo, arranjado tempo para constituir família), é de se compreender o clima mais sedimentado (embora ainda aventureiro) da obra. Do ponto de vista puramente formal, …Like Clockwork não chega a rasgar as blueprints arregimentadas pela banda durante seus 15 anos de trajetória. Ao contrário, o apanhado de canções de agora parece se beneficiar com extrema maestria e renovada ousadia dos caminhos trilhados anteriormente pelo grupo. Assim, o disco parece uma grande e diversificada celebração da trajetória do QOTSA até agora, ao mesmo tempo em que ainda permite que Homme coloque para fora, brilhantemente e na condição definitiva de bandleader, costuras líricas confessionais nunca antes suportadas de forma tão natural pelas narrativas intensas, de certa forma maníacas e hedonistas gestadas por ele mesmo e por seus comandados.

E, a propósito de tal entrega lírica intensa, sem sombra de dúvida o ruivo grandalhão (Homme) se torna o protagonista absoluto aqui – e já não era mesmo a hora, numa levada completamente natural e compreensível? – e com merecido louvor. O papel naturalmente dominante do frontman é tão evidente, merecido e cuidadosamente trabalhado no álbum que – bem ao gosto do espírito coletivo do QOTSA, aqui fatalmente exacerbado – as tão incensadas participações especiais das quais já falamos (incluindo Elton John, não se esqueça!) passam quase que completamente despercebidas, absolutamente a serviço do contexto  (fica aí o desafio: procure distingui-las no contexto do disco).

Trocando em miúdos, … Like Clockwork pode ser apenas mais um álbum para engrossar a discografia do Queens of the Stone Age, ainda que definitivamente não o seja. Minha aposta pessoal com relação a esse disco, que fica melhor a cada audição (o que, de forma alguma, significa que ele é ruim ou fraco, como se poderia pensar depois de tal qualificação), é que, contrariando toda a história construída até aqui, ele marca, de forma contundente, um novo capítulo na história da banda. Talvez uma passagem a  partir da qual Josh e sua gangue se vejam, finalmente, preparados para agarrar com determinação um pedaço seguro de rocha e, a partir dele, construir um caminho mais coerente e confortável – sem nunca deixar, como se espera, que a obviedade  se instale -, um caminho que apenas beneficie o potencial que eles já provaram ter. Até porque, olhando para …Like Clockwork, não consigo deixar de acreditar que possamos esperar, daqui pra frente, inesquecíveis, belos e comoventes manifestos gestados a partir daquilo que convencionamos chamar de música contemporânea. Vida longa ao QOTSA!

Novidadeiro – “Get Lucky”, a esperada versão completa da música nova do Daft Punk

Imagem que ilustra a versão definitiva de "Get Lucky": música estará no próximo disco do Daft Punk

Imagem que ilustra a versão definitiva de “Get Lucky”: música estará no próximo disco do Daft Punk

Depois de muitas especulações, um teaser veiculado como comercial de TV que entregou a participação de Pharrell Williams nos vocais e de Nile Rodgers (ex-Chic) na guitarra, versões falsas, incompletas e até mesmo remixes feitos pelos próprios fãs, finalmente saiu o que parece ser a encarnação definitiva de “Get Lucky“, música que vai estar no próximo disco do duo francês Daft Punk (Random Access Memories; lançamento previsto para 21/05).

A faixa é uma suingada visita à disco music setentista com um verniz eletrônico bem característico dos “robôs” Guy-Manuel de Homem-ChristoThomas Bangalter. A voz de Pharrell, carregada nos oversdubs, vem sedosa e convidativa, enquanto a guitarra picotadinha e dançante de Rodgers dá o molho à batida hipnoticamente repetitiva da dupla (que, no teaser, se “ocupa” da cozinha – bateria e baixo). Se a música for uma amostra representativa do que virá por aí em Random Access Memories, já dá pra esperar sucesso semelhante a Homework (1997) Discovery (2001), os dois melhores trabalhos do Daft Punk. Que venha e jogue a galera na pista com força!

Resenha – Cold War Kids, Dear Miss Lonelyhearts (2013)

Cold War Kids: quando ouvi falar deles, tive preguiça. Depois de me forçar a ouvir, no entanto, quebrei a cara (felizmente)!

Cold War Kids: quando ouvi falar deles, tive preguiça. Depois de me forçar a ouvir, no entanto, quebrei a cara (felizmente)!

Dear Miss Lonelyhearts (2013): ao longo de suas 10 faixas e quase 40 minutos, um cenário em que cada canção é um admirável manifesto de originalidade e liberdade criativa

Dear Miss Lonelyhearts (2013): ao longo de suas 10 faixas e quase 40 minutos, um cenário em que cada canção é um admirável manifesto de originalidade e liberdade criativa

Já falei neste mesmo blog sobre preconceito musical – o meu próprio, inclusive. E nem um dia depois do primeiro mea culpa, já sou obrigado a admitir mais um caso em que minhas opiniões pré-concebidas caíram por terra quando me dei ao trabalho de simplesmente experimentar aquilo do qual eu já tinha “certeza” de que não iria gostar. Tem tempo pra ouvir a historinha, um prelúdio relativamente extenso para uma simples resenha? Então, lá vai. (e, se não, é só pular os próximos dois parágrafos)

Uma amiga minha perguntou, dia desses, se eu já tinha escutado o novo trabalho do Cold War Kids. “Que preguiiiiiça…”, pensei imediatamente. “Dessas bandas“, não da minha amiga – cujo gosto é até bastante elegante, pros padrões da minha rigorosa implicância -, que fique claro! E por “essas bandas” eu quero dizer [preconceito “on”] esses subprodutos do boom indie que nos acometeu de uns tempos pra cá. Protagonistas anêmicos da eleição semanal feita por revistas, sites, blogs e outras mídias especializadas (gringas e nacionais) pra escolher quem é a “última bolacha do pacote” da vez. Bandas com nomes espertinhos, integrantes estilosinhos – esquálidos, muitas vezes – e blasés,  com pouco SOM pra se comer de garfada, no fim das contas. [preconceito “off”].

E dizendo tudo isso eu dou voz a algo que, definitivamente, não me representa. E que faz, com razão, parecer que sou alguém fechado para o novo, quando quero crer que é exatamente o contrário. De peito aberto, no entanto, confesso que I don’t believe the hype. Muito pelo contrário, desconfio muito das “descobertas incríveis” dos caçadores de novidades. E tenho um imenso prazer de observar quando acontece de uma banda que descobri escavando por cantos aleatórios da web – e para a qual ninguém deu bola, mesmo depois das minhas entusiasmadíssimas recomendações -, ser coroada “esperança indie” do bimestre – já vi acontecer mais de uma vez e isso sempre me diverte, de um jeito agridoce. Pra tentar resumir, resisto, sim, a praticamente tudo que não me pega, não importa o volume de seda rasgada pelos “formadores de opinião” mais afoitos da área. E entendo que possam chamar isso de “ser xarope”. Eu também tenho o direito de achar que não passa de honestidade. Ah, e, pra passar a régua, não foram poucas as bandas que descobri – com genuíno prazer – por meio desses mesmíssimos canais. É aquela coisa: eles informam (uma vez que têm competência e estrutura pra tal), eu julgo, e, se me agrada, abraço sem dó. Ponto. E vamos a o que interessa!

Apesar da resistência inicial, resolvi me forçar a escutar o tal disco novo do Cold War Kids indicado pela minha amiga e voluntariosamente transferido por ela pro meu computador  – sei lá, ando tentando me colocar em situações desafiadoras; espero que isso me ajude a não virar um ranzinza patético. E, meus amigos, foi mais um tapa na cara. Claro que o álbum em questão está longe de ser SENSACIONAL, mas eu definitivamente não esperava que fosse me agradar tanto.

Dear Miss Lonelyhearts (2013) é o quarto disco de estúdio da banda formada por volta de 2004 em Long Beach, Califórnia (EUA). E mesmo sem ter escutado mais nada deles, já me atrevo a arriscar que esse deva ser o registro mais maduro da discografia do quarteto atualmente composto por Nathan Willett (vocais, piano, guitarra), Dann Gallucci (guitarra; ex-Modest Mouse), Matt Maust (baixo) e Matt Aveiro (bateria, percussão). Pesquisando na paralela descobri que pode ter rolado uma guinadinha no som dos caras, justamente pela chegada de Dann Gallucci (Dear Miss… é o primeiro com a participação dele), o que pode, definitivamente, nublar minha análise da banda. Mas, já que o objeto do papo é o álbum, vamos que vamos.

Vou começar essa breve – afinal, já gastei mais do que podia da minha saliva digital – apreciação dizendo que discos como Dear Miss Lonelyhearts são aquilo que me fazem ser grato à multiplicidade de produção cultural que os meios digitais proporcionaram. “Se dar bem” no mundo da música continua sendo o relativo fruto de uma complexa equação, mas pelo menos existem meios para que se crie – e distribua – tanta coisa fora das fórmulas mais habituais buriladas pela indústria cultural ao longo das últimas décadas. Vou colocar nos caras a etiqueta de “rock alternativo” e/ou “indie rock” mas, afinal, o que é isso? Em última instância, só ouvindo pra saber. De que adianta ficar enfileirando supostas referências que, por aproximação pra lá de obtusa, “ajudem” a criar uma impressão mental “pré-audição” no caro leitor? E já que a gente se acostumou a facilitar pela via do reducionismo, escolho só dizer (em outro exercício de estilo e comportamento) que me lembrou de The Rapture – outra de que desconfiei até ser fisgado violentamente por um tal som aí.

Mas, tentando desenvolver um pouco mais, Dear Miss Lonelyhearts (ótimo título, por sinal) e a própria Cold War Kids guardam, de certa forma, uma multiplicidade gostosa de se ouvir. O álbum compões diversos climas distintos ao longo de suas 10 faixas e quase 40 minutos, num cenário em que cada canção é um admirável manifesto de originalidade e liberdade criativa. Da alegremente frenética abertura “Miracle Mine” e seu enérgico piano, passando pelo saudável flerte com elementos eletrônicos na empolgante “Loner Phase” e na magnética “Bottled Affection” até a delicada, bela e particularíssima balada “Fear & Trembling“, o grupo vai desfilando seus atributos, seja o vocal confessional e narrativo de Willett, seja a guitarra (e a produção) de Galluci, ou mesmo a massa sonora inteligentemente cozinhada pela banda, no conjunto.

Embora esteja longe de ser “difícil”, Dear Miss… ainda fica melhor a cada audição – sobrando pro apreciador descobrir diferentes detalhes a cada play – e, muito provavelmente, o álbum já deve ter garantido (com méritos, se minha opinião vale alguma coisa) uma vaguinha nas famigeradas listas de “Melhores” que pipocam no final do ano. E o que mais falar, além de elogiar vigorosamente a consistência das composições, arranjos, desempenho dos músicos e produção? Só resta recomendar: vai logo atrás da sua cópia (ou download ilegal, hahaha) e dá logo um PLAY! E boa diversão!

Resenha – The Strokes, Comedown Machine (2013)

The Strokes: apesar do estranhamento, nada mais natural do que ver a banda escalando a pedregosa parede da evolução musical

The Strokes: apesar do estranhamento, nada mais natural do que ver a banda escalando a pedregosa parede da evolução musical

Comedown Machine (2013): só por desafiar frontalmente e com tanto desprendimento os parâmetros anteriormente estabelecidos por eles mesmos, os Strokes merecem aplausos genuínos, e uma efusiva recomendação para que se ouça o álbum com carinho e cabeça aberta

Comedown Machine (2013): só por desafiar frontalmente e com tanto desprendimento os parâmetros anteriormente estabelecidos por eles mesmos, os Strokes merecem aplausos genuínos, e uma efusiva recomendação para que se ouça o álbum com carinho e cabeça aberta

Quando “One Way Trigger” vazou na web, pouco depois de o The Strokes anunciar que estava preparando o seu quinto álbum de estúdio, muita gente achou que era piada. “Que porra é essa?”, deve ter pensado boa parte do contingente de fãs do quinteto novaiorquino que conquistou os indies com seu revival de post-punk e new wave no começo dos anos 2000. Afinal, a faixa soava como um “carimbó” ou “axé” alternativo (como li por aí), completamente impregnado de um clima eletrônico meio oitentista e, em certa medida, dançante, remetendo, de várias formas, ao debute solo do vocalista Julian Casablancas (Phrazes for the Young; 2009).

E quando o álbum completo finalmente vazou na web (Comedown Machine; RCA; data de lançamento oficial para 26 de março de 2013), o desespero se agravou. “O que é isso? Onde está o Strokes que aprendemos a amar? O que significa tudo isso?”, parecem ter sido as perguntas que ecoaram pelas cabeças da base de fãs ardorosos da banda. Realmente (e analisando na condição de alguém que nunca ligou muito para a banda), o disco parece representar um grupo em plena fuga alucinada de sua própria zona de conforto. E, na minha modesta opinião, isso é muito bom! Arrisco dizer que esse é o melhor movimento que a banda poderia escolher nessa altura do campeonato.

Veja bem: se há mais de 10 anos o grupo ganhou fama emulando (competentemente, que fique claro) uma sonoridade de pelos menos três décadas antes – temperando, evidentemente, o  resultado com personalidade própria – nada mais natural do que ver, agora, a banda escalando a pedregosa parede da evolução musical e situando-se, de certa forma, em algum lugar esquecido dos anos 1980. Assim, Comedown Machine parece ser um retrato contemporâneo dos Strokes olhando para trás, mas claramente a partir de um ponto de vista que também avançou no tempo.

Analisando friamente, o álbum – que começa com a excelente “Tap Out” [uma das melhores canções do ano até agora, arrisco] – não é muito mais do que regular, apesar dos méritos já citados. De qualquer forma – e o amigo apreciador genuíno de música há de concordar -, só por desafiar frontalmente e com tanto desprendimento os parâmetros anteriormente estabelecidos por eles mesmos, os Strokes merecem aplausos genuínos, e uma efusiva recomendação para que se ouça Comedown Machine com carinho e cabeça aberta – dá pra escutar na íntegra aqui. Se você nunca foi fã, a chance de gostar é ainda maior, anote aí.

E que eles continuem escalando!

Lista – 15 músicas do line-up do Lollapalooza Brasil 2013

Lollapalooza Brasil 2013: Escolhi 15 músicas entre as minhas preferidas das bandas de que mais gosto em meio às que foram escaladas para tocar este ano

Lollapalooza Brasil 2013: Escolhi 15 músicas entre as minhas preferidas das bandas de que mais gosto em meio às que foram escaladas para tocar este ano

Essa lista é um consolo pra quem não pôde ir ao Lollapalooza Brasil 2013, festival realizado durante os dias 29, 30 e 31 de março em São Paulo, ou, pra quem simplesmente não quis comparecer, um gostinho de como algumas das melhores bandas do line-up soam ao vivo. Escolhi 15 músicas entre as minhas preferidas das bandas de que mais gosto em meio às que foram escaladas para tocar este ano. São versões ao vivo (mas não gravadas no Lolla 2013, fique avisado), pra combinar com o clima de concerto.

Ao final do post, você tem uma playlist do YouTube com todos os sons na sequência, pra poder curtir sem ter o trabalho de ficar clicando.

Bom show!

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Pearl Jam – Nothing as it Seems

Queens of the Stone Age – Regular John

The Black Keys – Lonely Boy

Franz Ferdinand – Take Me Out

Planet Hemp – Mantenha o Respeito

The Hives – Hate To Say I Told You So

Cake – Never There

Two Door Cinema Club – Something Good Can Work

Hot Chip – Ready For The Floor

Criolo – Subirusdoistiozin

Foals – Inhlaer

Crystal Castles – Doe Deer

Alabama Shakes – Hold On

Graforréia Xilarmônica – Nunca Diga

Ludov – Dois a Rodar

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****** PLAYLIST – Lista – 15 músicas do line-up do Lollapalooza Brasil 2013

Resenha – Nick Cave & the Bad Seeds, Push the Sky Away (2013)

Nick Cave & the Bad Seeds em 2013 (na ponta esquerda, Nick Cave; na ponta direita, Warren Ellis): uma banda em franca experimentação após quase 30 anos de carreira

Nick Cave & the Bad Seeds em 2013 (na ponta esquerda, Nick Cave; na ponta direita, Warren Ellis): uma banda em franca experimentação após quase 30 anos de carreira

Push the Sky Away (2013): o disco parece mais um interlúdio na trajetória da banda. Uma Polaroid ainda fresca do momento vivido pelo grupo em transformação, um trabalho belo, mas evidentemente intermediário

Push the Sky Away (2013): o disco parece mais um interlúdio na trajetória da banda. Uma Polaroid ainda fresca do momento vivido pelo grupo em transformação, um trabalho belo, mas evidentemente intermediário

Lançado no final de fevereiro de 2013, Push the Sky Away é o décimo quinto álbum de estúdio de Nick Cave & the Bad Seeds. Separado por cinco anos do último trabalho deles (o explosivo Dig, Lazarus, Dig!!!, de 2008), o registro é também o primeiro da história do grupo a não contar nem com o guitarrista e vocalista alemão Blixa Bargeld (que deixou os Bad Seeds  em 2003, um ano antes do ótimo – e duplo – Abbatoir Blues/The Lyre of Orpheus), nem com o multi-instrumentista Mick Harvey (que saiu em 2009), ambos membros fundadores, junto com Cave.

Com a ausência dos dois, que contribuíram tanto para a sonoridade da banda ao longo de quase 30 anos, ficou com o versátil Warren Ellis, alistado na trupe em 1995 (e que formou junto com Cave o já finado Grinderman, além de ter feito algumas trilhas para o cinema na companhia do compositor), a tarefa de dar a tônica – junto com os tradicionais pianos e Rhodes pilotados por Nick – ao álbum. O resultado pode ser uma surpresa para muitos, uma vez que não se parece muito com quase nenhum marco da discografia da banda, à exceção, talvez, de You Funeral… My Trial (1986), mas, ainda assim, de forma bem vaga e muito menos maníaca.

O clima composto pela dobradinha Nick Cave/Warren Ellis em Push the Sky Away soa, de certa forma, tão monocromático e delicado quanto a (belíssima) capa do álbum. O que não significa, evidentemente, que o tédio encontre espaço para se instaurar ao longo dos pouco mais de 40 minutos distribuídos ao longo das nove faixas – embora o ouvinte casual possa sentir um leve formigamento nos músculos de sua paciência adormecida.

A maioria das canções se apoia confortável e naturalmente nas construções instrumentais suaves, harmoniosas e, muitas vezes, discretamente percussivas construídas pelos músicos e arquitetadas e arranjadas por Ellis quase como se ele estivesse operando um conjunto de loops eletrônicos. Em raríssimos momentos um instrumento em particular toma para si o spotlight (como o teclado que conduz “We No Who U R“, a faixa de abertura e primeiro single, ou a guitarra que toca repetidas vezes o riff de “Jubilee Street“, segunda música de trabalho do álbum – veja os vídeos abaixo).

Em meio a tudo isso, a voz de Cave aparece pouco disposta a muito mais que o barítono monocórdico habitual, praticamente ocupando a posição definitiva de “narrador” onisciente das estórias sombrias e agridoces que povoam o universo lírico do autor, e acompanhada, em momentos-chave, de belíssimos arranjos quase celestiais executados pelos backing vocals. Posso estar enganado, mas, até então, Nick Cave nunca tinha se aproximado tanto assim da spoken word – modalidade com a qual ele sempre flertou bastante, é verdade. E, dito isso, sua poesia, aqui tão ou mais afiada e dúbia quanto o habitual, se beneficia incrivelmente das escolhas estéticas do álbum. Sobram espaços e caminhos para a construção de contos impregnados de amor (ao estilo Cave), humor negro, comentário social e o eterno desconforto de nossa existência.

Definitivamente, Push the Sky Away não é uma indicação acertada para quem nunca tomou contato com a obra de Cave e seus Bad Seeds (pode acabar até sendo bastante subestimado se analisado sem uma visão ampla de contexto). Ao contrário, o disco parece mais um interlúdio na trajetória da banda. Uma Polaroid ainda fresca do momento vivido pelo grupo em transformação, um trabalho belo, mas evidentemente intermediário e que pode ser comparado, puramente em termos de guinada estética, ao belíssimo The Boatman’s Call (1997) e, no campo da clara busca por renovação e identidade, ao menosprezado Nocturama (2003). De qualquer forma, é um must have para os cavemaníacos, pra quem o disco pode significar, além de tudo, um belo calmante na espera pela próxima obra-prima de Nick e seus comparsas – e, acredite, se a banda não acabar, ela deve aparecer logo mais – uma aposta pessoal do musicólogo aqui.