Da estante – Bleach (1989), Nirvana

Bleach (1989): debute da banda que viria a ser a representante maior do grunge e uma das grandes responsáveis pela popularização do rock alternativo ao redor do globo

Bleach (1989): debute da banda que viria a ser a representante maior do grunge e uma das grandes responsáveis pela popularização do rock alternativo ao redor do globo

Ouvir uma banda que mudaria a história do rock dando seus primeiros passos é realmente uma experiência única. Até hoje, Bleach (1989), debute fonográfico do Nirvana, é um dos meus discos preferidos – não só da banda, mas de toda a história do rock alternativo. Gravado em Seattle ao longo de apenas alguns dias entre dezembro de 1988 e janeiro de 1989, o disco custou cerca de US$ 600,00 para ser registrado – grana emprestada pelo guitarrista Jason Everman, que em troca foi creditado no álbum, embora não tenha tocado nada. A produção ficou a cargo de Jack Endino, lendário e veterano nome da cena de Seattle.

Retrato do nascimento de uma lenda, Bleach mostra o Nirvana em sua primeira formação, com Kurt Cobain (guitarra e voz), Krist Novoselic (baixo) e Chad Channing (bateria – Dave Grohl entraria apenas na época de Nevermind [1991]). A atmosfera é crua, áspera e muito mais ancorada no heavy metal do que no soft punk polido de Nervermind. Registrado em uma moldura fria e algo tosca, o disco parece ser o retrato do que deveria mesmo ser o Nirvana, não fosse a explosão pop que a banda viria a protagonizar. A lírica pessimista, beatnic e, de certa forma, nonsense de Cobain mostram aqui as suas raízes, bem como o vocal desolado e rasgado.

No tracklist, um punhado de sons de respeito, entre eles “About a Girl” (posteriormente eternizado no MTV Unplugged in New York, 1994), o cover pesado de “Love Buzz” (da banda holandesa Shocking Blue) e pancadas como “Negative Creep”, além de construções inusitadas como “Sifting” e “Big Cheese”. Pra quem colocou o Nevermind no topo da lista de discos mais originais de todos os tempos, é audição obrigatória. Quem sabe não sobe um degrau na sua compilação de favoritos?





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Vídeo da semana – Nirvana ao vivo na TV em 1990

Nirvana ao vivo: na TV em Olympia (1990)

Nirvana ao vivo: na TV em Olympia (1990)

Eis algo para os saudosistas dos anos 1990: filmagem completa do Nirvana tocando ao vivo pra um canal de TV de Olympia (Washington, EUA), cidade próxima a Seattle (berço do grunge), em 1990. O vídeo capta toda a energia da banda antes do sucesso estrondoso de Nevermind (1991). Várias músicas do Bleach (1989), debute fonográfico do trio, e algumas composições que apareceriam no Nevermind. Coisa fina. Vi no Trabalho Sujo.

Da estante – Too High to Die (1994), Meat Puppets

Too High to Die (1994): até quando penderam pro "rock de FM" os Meat Puppets conseguiram mostrar por que são uma das bandas mais originais da virada dos anos 80 para os 90

Too High to Die (1994): até quando penderam pro "rock de FM" os Meat Puppets conseguiram mostrar por que são uma das bandas mais originais da virada dos anos 80 para os 90

 Se você não conhece absolutamente nada sobre os Meat Puppets, talvez seja melhor começar lendo o verbete deles no All Music. Mas vou dar uma contextualizada, já que adoro a banda. Eles começaram no ano de 1980, no estado norte-americano do Arizona, fazendo hardcore/punk rock alternativo com levíssimas pitadas de country music. O debute homônimo do trio, formado pelos irmãos Curt (guitarra) e Cris (baixo) Kirkwood mais o baterista Derrick Bostrom (responsável também pela maioria das artes das capas dos discos da banda) e lançado em 1982, ao mesmo tempo em que casava com o momento musical daquele país, já saía bastante da forma (o que viria a ser uma marca registrada dos Puppets). Nos anos seguintes, a banda lançou os seminais Meat Puppets II (e guarde esse nome) e Up on the Sun já mostrando a cara amadurecida de seu som – uma mistura psicodélica de rock alternativo com folk, country e punk – entre outros elementos. E apesar de conquistar espaço entre os artistas mais influentes e originais do rock do final dos anos 1980 (ao lado de bandas como Husker Dü e Minutemen, por exemplo), o trio acabou ficando à margem do sucesso na indústria fonográfica e radiofônica.

Pois bem. A luta canhestra dos Puppets contra a sina do underground (declarações do baterista Derrick Bostrom dão conta de que em 1989 a banda já tinha tentado pender pro rock de arena [“Well, we’re not getting any younger”] ‘and we’re not making any money’ – eu ousaria completar – teria considerado, na época, Curt Kirkwood] até o fatídico ano de 1994. Naquele ano, morria outro ‘Kurt’ – o Cobain, do Nirvana. Coincidentemente ou não – em termos comerciais -, após a morte da estrela maior do grunge, saiu o MTV Unplugged Nirvana (em novembro), gravado no ano anterior, 1993. Como era tradição do formato, o Nirvana tinha espaço pra tocar alguns covers e chamar músico convidados ao palco do show registrado em Nova York. Muita gente esperava alguém do naipe de Eddie Vedder (do Pearl Jam) ou Chris Cornell (Soundgarden) pra uma espécie de celebração ao estilo gestado em Seattle. Porém, Cobain – um mestre voluntarioso na arte da provocação, e com influências até obscuras demais para sua legião de fãs – convocou ao tablado dois cabeludos misteriosos muito parecidos entre si. Eram os irmãos Kirkwood. E foi então que o Nirvana, em pleno recheio de seu próprio acústico, (re) apresentou os Meat Puppets ao mundo da música. Naquela noite lúgubre, a banda executou – com a ajuda dos irmãos, que assumiram temporariamente baixo e violão – TRÊS canções do álbum Meat Puppets II (1984): “Plateau”, “Oh, me” e “Lake of Fire”. Até hoje há quem pense que essas músicas SÃO DO NIRVANA. Outros tantos – incluindo o musicólogo aqui, alguns anos depois, é verdade – aproveitaram a oportunidade pra ir atrás da desconhecida dupla que tinha merecido tamanho destaque no que seria a última aparição pública relevante de Cobain – leia mais sobre a participação dos Meat Puppets no acústico Nirvana em post aqui do blog. Ah, e como valeu a pena…

Bom, mas chega de digressão. Fato é que no mesmíssimo ano de lançamento do acústico do Nirvana – 1994 (em janeiro, porém) – os Puppets (talvez tentando capitalizar a relação com Cobain – e eu não os julgaria por isso) colocaram na praça o álbum Too High to Die. Não sei se por conta da palhinha no show desplugado do Nirvana (o álbum traz uma suspeitíssima regravação de “Lake of Fire”) ou pela vocação mais pop (comparando-se com a obra da banda como um todo), o disco alcançou certo destaque na cena musical comercial dos EUA, chegando ao 62° lugar na Billboard 200, e levando disco de ouro (pela primeira vez na carreira dos Puppets) – nada mal pra uma banda que começou a carreira tomando cusparadas de plateias punk no Arizona- segundo depoimento do mesmo Derrick Bostrom. Foi também a primeira – e única? – vez em que a banda emplacou um hit de rádio, com a roqueira-melodiosa “Backwater” (ver vídeo abaixo, neste post – muito, muito boa). Porém, mesmo com isso tudo – talvez até POR ISSO TUDO -, Too High to Die ainda é bastante desprezado quando se fala de Meat Puppets. O que é uma tremenda injustiça. Obviamente, Meat Puppets II e Up on the Sun (e, pra mim, especialmente este último) são gemas que representam o ponto máximo da produção de Curt e Cris. Mas o álbum lançado em 1994 é um PUTA DISCO, que pode agradar tanto os mais enjoadinhos indies saudosos do alt-rock embrionário norte-americano quanto os rockers mais ‘guitarrófilos’.

Do começo ao fim, Too High to Die traz uma pegada pesada e envolvente, além  de um instrumental extremamente trabalhado – marca registrada dos Puppets, principalmente por conta da virtuose de Curt, um dos guitarristas mais originais de sua geração. O registro também surpreende por mostrar que os irmãos Kirkwood devem mesmo ter combinado fingir ser desafinados nos vocais em todos os discos anteriores (e confiem: os vocais nos álbuns anteriores são quase sempre pavorosos, embora não comprometam de forma alguma a experiência). Ali, Curt e Cris cantam de forma muito bem comportada (longe de performances impressionantes, claro) e “adequada” às canções (mais uma pista de um esforço “eminentemente pop”?). E ao longo de suas 13 faixas Too High to Die mostra como os Puppets ainda tinham – e têm, aguarde algumas linhas – muito a contribuir com a música alternativa. A tal mistura de rock com country, punk e psicodelia continua ali – um pouco mais pasteurizada, tenho que concordar, mas surpreendentemente vibrante e viçosa, ainda que mais de uma década depois. Definitivamente um disco pra se devorar do começo ao fim, preferencialmente em uma tarde abafada de verão subtropical, um pouco antes da  chuva cair. Uma cerveja cai bem como acompanhamento. Talvez um “cigarrinho de artista”, como dizem algumas senhoras de mais idade, para aqueles que curtem. E depois, faça me o favor, procure baixar ou comprar por aí os primeiros discos dos caras. Garanto que vão figurar entre os preferidos da prateleira dos interessados em música.

Em tempo: no final dos anos 2000 os Meat Puppets voltaram a tocar e a gravar. O último álbum deles, Lollipop (2011), vale muito a pena. Pega uma amostrinha aqui.