Vídeo da semana – “Dumb Ways to Die” (2012), campanha musical engraçadinha sobre segurança na linhas de trem australianas é umas das favoritas do Cannes Lions 2013

Dumb Ways to Die: campanha musical engraçadinha sobre segurança é uma das apostas para o festival Cannes Lions 2013

Dumb Ways to Die: campanha musical engraçadinha sobre segurança é uma das apostas para o festival Cannes Lions 2013

Campanhas publicitárias sobre segurança não costumam primar pelo bom humor. Entende-se. É um assunto muito sério. Ao mesmo tempo, dificilmente nos lembramos de alguma peça sobre o tema – seja impressa, para TV, rádio, internet ou outros meios. Seria por causa da neutralidade sóbria que predomina nesses trabalhos?

No final de 2012, no entanto, “Dumb Ways to Die” (veja o vídeo traduzido para o português ao final), que trata da segurança na utilização e convivência com os trens metropolitanos da região de Melbourne, na Austrália, fez enorme sucesso no mundo todo – alavancada pela internet – justamente por tratar uma coisa tão séria quanto a morte de maneira leve e até divertida (?) – atualmente, o vídeo original já acumula quase 50 milhões de visualizações.

A campanha, encomendada pela Metro Trains da terra dos cangurus à agência McCann daquele país, conquistou a audiência principalmente por conta de uma animação de 3 minutos que mostra “maneiras estúpidas de morrer” (tradução de “Dumb Ways to Die”), misturando absurdos como “usar suas partes íntimas como isca de piranha” a riscos mais reais, como “atravessar os trilhos entre as plataformas do trem”. Captou a mensagem? O sucesso foi tanto que a ação é uma das grandes apostas para faturar alguns leões no grande festival de criatividade e propaganda Cannes Lions 2013, que acontece entre 16 e 22 de junho em Cannes, na França.

Mas, e o que tudo isso tem a ver com música? Bom, mais da metade da graça de toda a campanha é a grudenta e bonitinha (?) canção homônima utilizada para narrar os enormes absurdos cometidos pelos simpatissíssimos e energúmenos bonequinhos que “dão a vida pela causa” graciosamente (tenho um dó danado do personagem que morre vestido de alce em plena temporada de caça – a expressão no rosto dele quando o chumbo começa a voar é de partir o coração).

Dumb Ways to Die“, a canção, foi composta e produzida por Ollie McGill, da banda australiana de ska e jazz The Cat Empire, com letra de John Mescall (que também fez os backing vocals) e vocais principais de Emily Lubitz, da banda Tinpan Orange, também da Austrália – a voz doce e a maneira quase infantil de cantar dessa última é um dos elementos que mais contribui para o humor negro da coisa toda. A música foi registrada sob o nome do grupo fictício Tangerine Kitty, uma mistura com os nomes dos projetos dos envolvidos, e está disponível até para download no iTunes.

Veja o vídeo da campanha baixo e arrisque o palpite: será que leva algum prêmio em Cannes? Porque já levou em inúmeros outros festivais pelo mundo… E, por favor, não vá morrer de algum jeito idiota, hein? 😉

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Da estante – Murder Ballads (1996), Nick Cave & the Bad Seeds

Nick Cave (no centro) & the Bads Seeds em sua formação mais atual: versando (com um vozeirão meio assustador, meio sensual) sobre sobre temas tão densos quanto violência, religião, obsessão amorosa e, claro, morte, sobre um som que mistura blues, rock, jazz, baladas ao piano e toda a grandiosidade do gospel

Nick Cave (centro) & the Bads Seeds em sua formação atual: versando (com um vozeirão meio assustador, meio sensual) sobre sobre temas tão densos quanto violência, religião, obsessão amorosa e morte sobre um som que mistura blues, rock, jazz, baladas ao piano e toda a grandiosidade do gospel

Murder Ballads (1996): ao longo de quase uma hora, mesclando composições originais e versões, o álbum conta histórias tão "pitorescas" quanto a de um homem que testemunha a morte de sua família pelas mãos de um serial killer

Murder Ballads (1996): mesclando originais e versões, o álbum conta histórias tão “pitorescas” quanto a de um homem que testemunha a morte de sua família pelas mãos de um serial killer

Aproveitando a proximidade do lançamento do novo disco do Nick Cave e seus Bad Seeds (que deve sair em 19 de fevereiro e, com certeza, vai ganhar uma resenha aqui no blog), resolvi espanar o pó de um dos álbuns mais peculiares da carreira do meu compositor favorito em língua inglesa e sua banda. Em 1996, o australiano Cave e seu variável grupo de comparsas já contavam mais de uma década de carreira sob a alcunha de “sementes ruins” (o compositor já havia acumulado outros tantos quilômetros de estrada com sua primeira banda, o grupo pós-punk The Birthday Party, que durou de 1973 a 1983), e foi então (dois anos depois do aclamado, pesado, sujo e visceral Let Love In), sem muito aviso nem cerimônia, que a banda deu ao mundo Murder Ballads, um disco conceitual que versa, de cabo a rabo, sobre… Bem… Sobre ASSASSINATO (como o título já adianta)!

O álbum, que incrivelmente – dada a sua temática – foi o maior sucesso comercial de Cave até o presente, soa como um exorcismo, uma materialização quase definitiva do lado mais sombrio do lirismo do compositor – conhecido até hoje por sua figura soturna e por versar tranquilamente sobre temas tão densos quanto violência, religião, obsessão amorosa e, claro, morte. Mas não pense que isso torna o disco menos palatável: as piores escabrosidades são todas narradas de forma quase elegante pelo vozeirão meio sensual, meio tenebroso de Nick sobre um som que mistura, de forma magistral – como de costume com os Bad Seeds (aqui em sua melhor forma ) -, blues, rock, jazz, baladas ao piano e toda a grandiosidade do gospel (uma das grandes influências de Cave, believe it or not).

Ao longo de quase uma hora, mesclando composições originais e versões, Murder Ballads conta histórias tão “pitorescas” quanto a de um homem que testemunha a morte de sua família pelas mãos de um serial killer (“Song of Joy”, a assustadora faixa de abertura), um assassinato motivado pela tentativa de roubo de um chapéu em um saloon de St. Louis (“Stagger Lee”, canção/poema/conto tradicional norte-americano que foi gravado por mais de 400 artistas desde o primeiro registro, datado de 1923) e a sanguinolenta vingança de uma mulher trocada por outra (“Henry Lee”, dueto com PJ Harvey – que na época vivia um romance com Cave -, também baseado em um conto/canção popular, dessa vez remontando ao século XVIII).

O álbum ainda passeia por relatos de uma psicótica e trágica histórica de amor (“Where the Wild Roses Grow”, outro dueto, agora com a diva pop Kylie Minogue, conterrânea de Cave – a faixa mais bem sucedida do disco, talvez por conta de seu cinematográfico clipe [veja abaixo], que também conta com a participação iluminada de Minogue) e pela épica descrição de uma espalhafatosa e tragicômica carnificina em que todos os frequentadores de um bar passam dessa pra melhor (“O’Malley’s Bar”). Fechando o disco, e carregando uma baita carga de humor negro, está ali, plantado, um improbabilíssimo cover da resignada (quase otimista e positiva) “Death is Not the End”, de Bob Dylan, que conta com a participação de todos os músicos que contribuíram com o álbum e mais alguns convidados especiais numa vibe estranhíssima, meio “We Are the World” pós-tragédia. O encerramento gera um choque tão com “a cara” de Nick Cave que só resta ao ouvinte se perder na canção enquanto digere todo o absurdo que acabou de absorver.

Enfim, Murder Ballads é um clássico improvável do tipo de produção musical que gravita fora da órbita da música popular tradicional – ainda mais nos assépticos anos 1990 -, e, até mesmo por isso, uma experiência lírica e sonora ímpar e recompensadora, além de um recomendadíssimo e urgente mergulho no mundo transtornado e poético de Nick Cave & the Bad Seeds. Ouça já (e com as luzes apagadas, se tiver coragem)!