Arqueologia sonora – Traveling Wilburys

Traveling Wilburys (da esquerda para a direita: Bob Dylan, Jeff Lynne, Tom Petty, George Harrison e Roy Orbison): "supergrupo" é pouco

Traveling Wilburys (da esquerda para a direita: Bob Dylan, Jeff Lynne, Tom Petty, George Harrison e Roy Orbison): “supergrupo” é pouco

Em 1988 o mundo viu acontecer uma improvável – no mínimo – reunião de estrelas do mais alto escalão da música pop. Na contramão daquilo que costuma acontecer – uma banda acaba se separando e dá lugar às carreiras solos de seus antigos membros -, cinco músicos já plenamente realizados com suas trajetórias individuais resolveram “brincar de banda”. E assim nasceu a Traveling Wilburys, formada por nada menos que George Harrison (quase 20 anos após o fim dos Beatles), Roy Orbison (dispensa apresentações), Bob Dylan (idem), Tom Petty (recém-separado de seus Heartbreakers) e Jeff Lynne (ex-líder da Electric Light Orchestra) – algo como o maior “supergrupo” que já existiu.

De acordo com a história, os cinco – que já se conheciam há tempos – se juntaram no ano em questão para gravar o B-side de um single de Harrison, mas acabaram produzindo um disco inteiro. Time bom e entrosado dá nisso, né? O álbum, The Traveling Wilburys, Vol. 1, saiu ainda em 1988 e fez bastante sucesso com sua musicalidade amigável e que parecia um amálgama da personalidade sonora de cada um dos envolvidos – “Handle With Care” e “End Of The Line” foram os grandes hits (veja os vídeos abaixo). Além de tudo, devia ser bonito demais, na época,  ver tantos figurões ocupando natural e pacientemente seus respectivos espaços – inclusive dividindo os vocais – a serviço de uma canção. Ainda é.

Em 1990 a banda voltou a se reunir sob o peso da ausência de Roy Orbison, que morreu ainda em 1988, pouco depois do primeiro lançamento, e botou na praça um álbum curiosamente intitulado The Traveling Wilburys, Vol. 3 (onde foi parar o Vol.2?). Apesar de, de certa forma, repetir a receita do disco anterior, o segundo registro dos “Wilburys viajantes” soa um pouco menos empolgante e um tanto mais flácido, talvez até mesmo por não se beneficiar do elemento surpresa que contaminara a estreia. A fórmula teria se desgastado rápido demais? De qualquer maneira, o trabalho tem seus bons momentos – incluindo “Inside Out” e “She’s My Baby“, cujos vídeos você encontra abaixo. 

Depois disso cada integrante do grupo seguiu seu caminho e nunca mais, até agora, a Traveling Wilburys produziu algo novo – até porque George Harrison também já não está mais entre nós. Bem, já dava pra imaginar esse desfecho. Se o simples fato de eles se reunirem já foi surreal, o que dizer de um segundo disco? Não dava pra exigir mais. Fiquemos com a memória que já está de ótimo tamanho!    

Anúncios

Da estante – Murder Ballads (1996), Nick Cave & the Bad Seeds

Nick Cave (no centro) & the Bads Seeds em sua formação mais atual: versando (com um vozeirão meio assustador, meio sensual) sobre sobre temas tão densos quanto violência, religião, obsessão amorosa e, claro, morte, sobre um som que mistura blues, rock, jazz, baladas ao piano e toda a grandiosidade do gospel

Nick Cave (centro) & the Bads Seeds em sua formação atual: versando (com um vozeirão meio assustador, meio sensual) sobre sobre temas tão densos quanto violência, religião, obsessão amorosa e morte sobre um som que mistura blues, rock, jazz, baladas ao piano e toda a grandiosidade do gospel

Murder Ballads (1996): ao longo de quase uma hora, mesclando composições originais e versões, o álbum conta histórias tão "pitorescas" quanto a de um homem que testemunha a morte de sua família pelas mãos de um serial killer

Murder Ballads (1996): mesclando originais e versões, o álbum conta histórias tão “pitorescas” quanto a de um homem que testemunha a morte de sua família pelas mãos de um serial killer

Aproveitando a proximidade do lançamento do novo disco do Nick Cave e seus Bad Seeds (que deve sair em 19 de fevereiro e, com certeza, vai ganhar uma resenha aqui no blog), resolvi espanar o pó de um dos álbuns mais peculiares da carreira do meu compositor favorito em língua inglesa e sua banda. Em 1996, o australiano Cave e seu variável grupo de comparsas já contavam mais de uma década de carreira sob a alcunha de “sementes ruins” (o compositor já havia acumulado outros tantos quilômetros de estrada com sua primeira banda, o grupo pós-punk The Birthday Party, que durou de 1973 a 1983), e foi então (dois anos depois do aclamado, pesado, sujo e visceral Let Love In), sem muito aviso nem cerimônia, que a banda deu ao mundo Murder Ballads, um disco conceitual que versa, de cabo a rabo, sobre… Bem… Sobre ASSASSINATO (como o título já adianta)!

O álbum, que incrivelmente – dada a sua temática – foi o maior sucesso comercial de Cave até o presente, soa como um exorcismo, uma materialização quase definitiva do lado mais sombrio do lirismo do compositor – conhecido até hoje por sua figura soturna e por versar tranquilamente sobre temas tão densos quanto violência, religião, obsessão amorosa e, claro, morte. Mas não pense que isso torna o disco menos palatável: as piores escabrosidades são todas narradas de forma quase elegante pelo vozeirão meio sensual, meio tenebroso de Nick sobre um som que mistura, de forma magistral – como de costume com os Bad Seeds (aqui em sua melhor forma ) -, blues, rock, jazz, baladas ao piano e toda a grandiosidade do gospel (uma das grandes influências de Cave, believe it or not).

Ao longo de quase uma hora, mesclando composições originais e versões, Murder Ballads conta histórias tão “pitorescas” quanto a de um homem que testemunha a morte de sua família pelas mãos de um serial killer (“Song of Joy”, a assustadora faixa de abertura), um assassinato motivado pela tentativa de roubo de um chapéu em um saloon de St. Louis (“Stagger Lee”, canção/poema/conto tradicional norte-americano que foi gravado por mais de 400 artistas desde o primeiro registro, datado de 1923) e a sanguinolenta vingança de uma mulher trocada por outra (“Henry Lee”, dueto com PJ Harvey – que na época vivia um romance com Cave -, também baseado em um conto/canção popular, dessa vez remontando ao século XVIII).

O álbum ainda passeia por relatos de uma psicótica e trágica histórica de amor (“Where the Wild Roses Grow”, outro dueto, agora com a diva pop Kylie Minogue, conterrânea de Cave – a faixa mais bem sucedida do disco, talvez por conta de seu cinematográfico clipe [veja abaixo], que também conta com a participação iluminada de Minogue) e pela épica descrição de uma espalhafatosa e tragicômica carnificina em que todos os frequentadores de um bar passam dessa pra melhor (“O’Malley’s Bar”). Fechando o disco, e carregando uma baita carga de humor negro, está ali, plantado, um improbabilíssimo cover da resignada (quase otimista e positiva) “Death is Not the End”, de Bob Dylan, que conta com a participação de todos os músicos que contribuíram com o álbum e mais alguns convidados especiais numa vibe estranhíssima, meio “We Are the World” pós-tragédia. O encerramento gera um choque tão com “a cara” de Nick Cave que só resta ao ouvinte se perder na canção enquanto digere todo o absurdo que acabou de absorver.

Enfim, Murder Ballads é um clássico improvável do tipo de produção musical que gravita fora da órbita da música popular tradicional – ainda mais nos assépticos anos 1990 -, e, até mesmo por isso, uma experiência lírica e sonora ímpar e recompensadora, além de um recomendadíssimo e urgente mergulho no mundo transtornado e poético de Nick Cave & the Bad Seeds. Ouça já (e com as luzes apagadas, se tiver coragem)!






Vídeo da semana – Bob Dylan: 70 anos em 70 fotos

Bob Dylan: Happy 70th Birthday, Mr. Tambourine Man!

Bob Dylan: Happy 70th Birthday, Mr. Tambourine Man!

Hoje, 24/05, é o septuagésimo aniversário do Bob Dylan. Pra homenagear, escolhi como vídeo da semana a colagem especial feita pelo senhor Pedro Lutz, fanático pelo Mr. Tambourine Man que mantém o completíssimo blog Dylanesco (adivinhe sobre o quê). São 70 anos do Dylan ilustrados com 70 fotos da vida do bardo da contracultura (a contra-gosto), ao som de “Workingman’s Blues”, do disco Modern Times, versão ao vivo gravada em 15/06/2010 em Padova, na Itália.

Enjoy!