Lista – As 10 melhores músicas de 2012

As 10 melhores músicas de 2012: o que de melhor rolou na música de acordo com o musicólogo

As 10 melhores músicas de 2012: o que de melhor rolou na música de acordo com o musicólogo

Adiei até o limite. No momento em que escrevo, 2013 já está batendo à porta. É, chegou a hora de fazer mais uma daquelas famigeradas listas de final de ano. Então, antes que estourem a primeira garrafa de champanhe, aqui vão as 10 melhores músicas de 2012 na opinião do musicólogo:

10-) “Amanaemonesia” – Chairlift

Quando o Chairlift pintou aqui no blog esse som foi um dos destaques. Animada, meio destrambelhada e extremamente viçosa. Um bom jeito de começar a festa de Réveillon.

09-) “Summer Smoke” – Cemeteries

Essa fantasmagórica e bela canção é uma das coisas mais legais que Kyle J. Reigle e o seu Cemeteries já fez. Leia mais sobre esse rapaz de Buffalo, NY, aqui mesmo n’O musicólogo.

08-) “Drunken Soldier” – Dave Matthews Band

Esse épico meio progressivo da Dave Matthews Band apareceu por aqui quando falei do (ótimo) último disco deles, Away From the WorldUm baita som.

07-) “Gun Has No Trigger” – Dirty Projectors

Não tive tempo de resenhar o sexto álbum do Dirty Projectors (Swing Lo Magellan), e por isso essa desesperadora e bela canção (com um clipe igualmente impactante, porém simples) não apareceu no blog durante o ano. Compenso agora.

06-) “Cherokee” – Cat Power

A música que talvez melhor represente a transição de Chan Marshal (aka Cat Power) para uma sonoridade mais “modernosa” em seu último álbum (Sun).

05-) “Oblivion” – Grimes

Putz, como foi bom descobrir a Grimes em 2012. E “Oblivion” parece representar um pouquinho da sonoridade e estética que a própria moça já definiu como “post-internet”.

04-) “Only for You” – Heartless Bastards

Essa aqui eu descobri aos 45 do segundo tempo graças ao ótimo MúsicaPavê, então, logicamente, não deu tempo pra falar sobre o Heartless Bastards e sua grandiloquente “Only for You”. Destaque absoluto para a voz que ultrapassa qualquer noção de gênero da vocalista e guitarrista (sim, é uma moça) Erika Wennerstrom.

03-) “Breezeblocks” – alt-J (∆)

alt-J (∆) foi, sem dúvida, uma das grandes surpresas de 2012. Que som é esse? Cara… Só ouvindo mesmo.

02-) “Jamburana” – Dona Onete

Também não escrevi sobre Dona Onete em 2012, mas deveria. MESMO. Com mais de 70 anos de idade, essa antiquíssima diva do carimbó paraense gravou pela primeira vez na vida em 2012, acompanhada de uma trupe de músicos competentíssimos. O resultado é um dos melhores discos da música brasileira e mundial no ano (Feitiço Caboclo). E “Jamburana” é uma espécie de hino poderoso e suingado dessa coroação tardia. Treme!

01-) “Will You Love Me” – Matthew E. White

A medalha de ouro dessa lista é muito mais pacata do que se esperaria, mas tem uma força arrebatadora escondida. Escapou do meu radar também, devo confessar. Mas, antes tarde do que nunca e justo na posição mais alta do pódio. Single do primeiro disco do cantor, compositor e arranjador norte-americano Matthew E. White (Big Inner), “Will You Love Me” é um reconfortante abraço, uma infusão de amor em forma de som (desculpe-me a pieguice). Algo que a gente parece mesmo precisar pro ano que vem. Vamos manter esse espírito! Que venha 2013 e, com ele, muitas músicas boas mais!

FELIZ ANO NOVO! 🙂

Resenha – Dave Matthews Band, Away from the World (2012)

Dave Matthews (Band) em 2012: confortável para repetir, inovar ou confundir, e é isso aí

Dave Matthews (Band) em 2012: confortável para repetir, inovar ou confundir, e é isso aí

A capa de Away from the World (2012): a DMB em condições normais de temperatura e pressão na segunda década do terceiro milênio e uma espécie de "volta às origens" sem sabor de nostalgia

A capa de Away from the World (2012): a DMB em condições normais de temperatura e pressão na segunda década do terceiro milênio em uma espécie de “volta às origens” sem sabor de nostalgia

A Dave Matthews Band é uma das maiores entidades da música pop em atividade atualmente. Uma prova disso é que com o lançamento de Away from the World (RCA, 11 de setembro de 2012), oitavo disco de estúdio da turma capitaneada pelo vocalista/violonista/compositor que dá nome ao grupo, a banda pode atingir uma marca respeitável e até então inédita: emplacar o sexto álbum consecutivo no primeiro posto da Billboard na semana de estréia (atualização às 14h12, 19/09: eles conseguiram! Quebraram o recorde!). Fora a comoção a cada lançamento, a devoção dos milhões de daveheads (fãs hardcore) espalhados pelo mundo todo, e os verdadeiros happenings em que se transformam as (muitas) apresentações ao vivo – que, para alguns, são a verdadeira epítome das principais qualidades da DMB (como é chamada pelos “iniciados”).

A despeito de, mas sem se esquecer disso, Away from the World, chega às lojas (e, consequentemente, à web) após uma longa gestação, sucedendo Big Whiskey & the GrooGrux King (RCA; 2 de junho de 2009), álbum marcado pela morte do saxofonista e membro fundador LeRoi Moore (que faleceu em decorrência de um acidente com um ATV – espécie de quadriciclo motorizado – em 2008, com o disco ainda em produção) e que acabou virando uma grande homenagem póstuma ao músico – ele seria o GrooGrux King do título, entre tantas outras referências, declaradas, nesse sentido.

Isso posto, para ouvintes de ocasião o novo álbum é uma boa coleção de canções pop. Belas, acima da média e transmutadas em som dentro de um contexto bastante particular perceptível – “Podia ter mais refrões aí, né? E, ai, a voz desse cara é meio irritante, anasalada, sabe? Difícil de definir o som deles. É rock?” eu consigo imaginar como quick reviews de rodinha por aí. E é isso. Ponto. Definitivamente Away from the World não é um disco para “descobrir” a DMB. Isso já foi – com a oportunidade expirando muito provavelmente na gema Before These Crowded Streets, de 1998. Não, o álbum é – quer queira, quer não – para iniciados. Pra quem ouviu Everyday (2001) e Stand Up (2005), despretensiosas guinadas pro pop rock de FM (aquele mais, este menos, e do jeito DMB de ser, claro), com uma alegria contemplativa, documental e sem cobranças por um bobo “stay real” ou algo que o valha. Não necessariamente apenas para os supracitados daveheads, mas pra quem encara o ato de descobrir cada novo registro da banda como uma viagem viva pelo passado, presente e o repertório particular de Dave, Stefan, Boyd, Carter e LeRoi (in memorian) – o núcleo da DMB.

Concebido tempos depois da condição absolutamente determinante registrada em GrooGrux…, o disco acabou – imagino eu, que não sou membro da banda, conhecido de nenhum deles e nem muito afeito a esmiuçar entrevistas com os músico, por mais que eu goste deles – sendo uma oportunidade de retratar a Dave Matthews Band em condições normais de temperatura e pressão na segunda década do terceiro milênio, quatro anos após a morte de um de seus principais membros e quase 20 anos depois de seu primeiro registro fonográfico (o debute independente Remember Two Things, de 1993). Então agora os membros da banda estão beirando os 50 (quando já não passaram disso), milionários, amplamente reconhecidos, bem resolvidos quanto a suas marcas registradas musicais, sem muito compromisso com agradar ninguém que não eles mesmos (excetuando-se aí a possibilidade sempre presente de um contrato leonino com a gravadora) e naturalmente inclinados a afirmações e questionamentos com contornos mais definidos do que “Could I have been a parking lot attendant?” (“Dancing Nancies“, 1994)  – não que essa não seja uma pergunta válida até o fim da vida de qualquer um. E, mais importante, absolutamente livres para deixar fluir a influência de seja qual for a musa que inspirou tanta coisa boa (e nem sempre de fácil digestão) nas últimas décadas.

O fato é que Dave Matthews e seus comparsas talharam aqui uma espécie peculiar de “volta às origens” (como eu odeio essa classificação, tão cara a tantos críticos de música) sem sabor de nostalgia. Vê-se (ouve-se) aí indícios cristalinos de uma banda confortável com seu legado, ainda que disposta a seguir experimentando e trilhando caminhos não tão óbvios. Como é bom, na condição de admirador – comedido – da banda, sentir isso! E, nessa toada, Away from the World é uma peça que soa mais coerente e encantadora – e que se encaixa cada vez melhor na biografia/discografia da DMB – a cada audição (e, NÃO, isso não é um eufemismo para um disco chato, difícil, ou ruim, para colocar de uma maneira simplória). O álbum é foda – especialmente relevando-se tudo o que tentei enumerar anteriormente -, para colocar de forma simples.

Num faixa-a-faixa pra lá de rasteiro dá pra dizer que:

“Broken Things”, “Belly Belly Nice” e “Mercy” (primeiro single do disco) – as três faixas iniciais do álbum – chegam chegando e agradam de primeira, soando (cada uma com suas particularidades, evidentemente) como uma visita à vibe do que a banda produziu nos anos 1990 temperada pelo amadurecimento dos caras e decorada discretamente com os arroubos mais FM da discografia do grupo. E aqui preciso dizer que, de uma maneira não tão óbvia, “Belly Belly Nice” me lembrou – de uma forma muito saudável e difícil de explicar – What Would You Say” e “So Much to Say” (dois hits dos anos 1990).

Seguindo, “Gaucho” é coisa nova, mas com a cara da DMB ao mesmo tempo. Algo que transita entre Before These Crowded StreetsBusted Stuff (ou, como eu prefiro, Lillywhite Sessions) e Everyday (só pra ter por onde comparar). E aí vem a primeira grande cisão.

“Sweet”, como o nome adianta, é uma doce balada de voz e ukelele (instrumento inédito, até onde sei, em gravações/apresentações da banda). Boa ponte para “The Riff”, “Belly Full” e “If Only” que, com suas construções menos familiares – por assim dizer – poderiam ser definidas como um núcleo mais representativo de Dave Matthews e companheiros se arriscando em territórios não tão conhecidos (a “assinatura” mais visível dessa época, desse registro em particular, talvez).

Daí para a frente é um pouco mais confortável ver a banda brincando (magistralmente) com “Rooftop” (cujo riff inicial parece um convite para nos lembrarmos que estamos diante de uma banda com bagagem) e  Snow Outside“.

E é aí que, não mais que de repente, chega “Drunken Soldier”, o ato final, faixa que poderia ser colocada em uma moldura como uma continuação inata de Don’t Drink the Water” e sua irmã quase gêmea Bartender” – épicos maiores da carreira da DMB.

Então, meu amigo, em algum momento perto do fim, quando você ainda está assimilando tudo o que aconteceu e se perguntando sobre uma referência – proposital ou não – ao Pink Floyd nessa última carta de intenções que é o encerramento do mais recente trabalho da banda do Dave Matthews, é que bate: “Puta que o pariu. Imagina só o próximo”.

E é isso.

Ah, que mancada! Quase esqueci de dizer que o álbum foi produzido magistralmente (pra variar) pelo incrível Steve Lillywhite, de volta depois de trabalhar com a DMB em discos como os fundamentais “Under the Table and Dreaming”, “Crash” e “Before these Crowded Streets” (além do belíssimo e não-oficial “Lillywhite Sessions”, que depois virou “Busted Stuff” na discografia oficial da banda). Aplausos para o cara. Mesmo. 

Ainda é preciso falar que, embora seja fácil e natural sentir falta dele, o buraco deixado por LeRoi Moore nos instrumentos de sopro aqui é preenchido de forma competentíssima por Jeff Coffin, do Bela Fleck & The Fleck Tones (banda meio irmã mais velha da DMB que, inclusive, dividiu os palcos com os caras por mais de uma vez em performances pra lá de inesquecíveis).