Resenha – Queens of the Stone Age, …Like Clockwork (2013)

Queens of the Stone Age em sua formação mais recente (Josh Homme é o segundo da direita para a esquerda): novo álbum é difícil de analisar, mas parece deixar pistas do caminho que a banda pode seguir

Queens of the Stone Age em formação recente (Josh Homme é o segundo da direita para a esquerda): novo álbum é difícil de analisar, mas parece deixar pistas do caminho que a banda pode seguir

...Like Clockwork (2013): novo álbum soa surpreendentemente mais como uma pista confiável dos caminhos que o Queens parece disposto a seguir daqui pra frente do que como mais uma extravagância naturalmente circunstancial

…Like Clockwork (2013): novo álbum soa surpreendentemente mais como uma pista confiável dos caminhos que o Queens parece disposto a seguir daqui pra frente do que como mais uma extravagância naturalmente circunstancial

Desde que foi anunciado, o novo álbum do Queens of the Stone Age já estava empatado no páreo pelo título de “disco mais esperado do ano” com o Random Access Memories, do duo francês Daft Punk (também falarei dele em breve). Talvez tenha sido por isso que …Like Clockwork, o ainda vindouro (oficialmente) trabalho de Josh Homme e companhia (previsto para sair no início de junho), tenha vazado exatamente um dia depois que o mais recente disco da dupla robótica de música eletrônica acabou se multiplicando – antes da hora – feito gripe pela rede (era pra sair em 20 de maio, mas uma semana antes disso já era possível encontrá-lo para download em sites diversos). Talvez nada disso tenha sido planejado e ambas as bandas só tenham acabado mesmo  tendo que lidar com um expediente pra lá de comum em tempos de conexões de banda larga.

De qualquer maneira, é preciso dizer que, nos últimos meses, tanto o Daft Punk quanto o Queens of the Stone Age já estavam dando um show de comunicação e marketing pré-lançamento, utilizando principalmente a internet. Estes últimos fizeram um uso magistral de seu canal no YouTube, publicando diversos vídeos – animações – “sonorizados” por algumas das faixas então inéditas e amarrados por um aparente conceito único, tanto em estilo quanto em narrativa. Ao mesmo tempo em que aumentavam a expectativa dos fãs, esses teasers (muitos dos quais estão publicados ao longo deste post para apresentar as faixas já divulgadas oficialmente pela banda) deixavam no ar a impressão de que o novo trabalho seria mais um álbum pesado, complexo e conceitual na discografia do QOTSA (tal qual o celebradíssimo Songs for the Deaf, de 2002, guardadas as devidas proporções).

Some-se a isso declarações intrigantes da banda à imprensa especializada e a divulgação de que o álbum contaria mais uma vez com Dave Grohl (Foo Fighters, Nirvana) na bateria (como em Songs for the Deaf) e com a participação de convidados do calibre de Nick Oliveri (ex-baixista e vocalista da banda), Trent Reznor (Nine Inch Nails), Alex Turner (Arctic Monkeys) e (pasme!) Sir Elton John, e tinha-se aí um fenômeno discográfico só esperando para nascer.

Bom, já que consegui botar a mão na massa antecipadamente, vamos de uma vez à análise do produto final (e que fique a recomendação: se você é fã de verdade, compre o oficial! Apoie as bandas de que você gosta! Seja em formato físico, seja no iTunes ou similares):

… Like Clockwork, sexto álbum de estúdio do QOTSA, é difícil de se comentar superficialmente. Um bocado mais difícil que o restante da discografia da banda (o que já não é pouca coisa). A primeira impressão mais nítida que se tem depois de algumas audições é a de que, após cinco discos bastante diferentes entre si – mas que parecem, de certa forma, dar a deixa um para o outro -, a inconstante trupe capitaneada pelo vocalista, guitarrista e compositor absoluto Josh Homme continua em uma espécie de busca interminável por um formato no qual se encaixar, em um prolífico e bem-vindo desconforto com aquilo que poderíamos chamar de “sua identidade”. Em retrospecto, apesar do “sotaque” facilmente identificável, a banda nunca conseguiu se acomodar – e talvez esteja aí o seu maior mérito.


Relembremos rapidamente (ou quase; você pode pular este e os três próximos parágrafos, se quiser, sem prejuízo nenhum), e com propósitos eminentemente pedagógicos, essa trajetória: Queens of the Stone Age (1998), o debute que veio três anos após Homme e Oliveri deixarem o finado Kyuss – um dos grandes representantes daquilo que chamaríamos de stoner rock -, era o retrato empolgante, vigoroso e imaturo de um novo grupo tentando mostrar ao mundo seu estilo, sua proposta, que, apesar de ainda dever muito às origens de seus membros fundadores, já era um pouco mais intrigante que a média, bem ao gosto de um novo milênio na história da música. O sucessor Rated R (2000) já mostrava uma banda mais confortável com suas raízes, embora igualmente disposta a experimentar – seja com a constante e por vezes impenetrável auto-referência, seja com violentas cutucadas na membrana que parecia definir os “limites” do rock -, e que ia conquistando silenciosamente o respeito da crítica e do público mais predispostos.

Foi então que o terceiro trabalho, Songs for the Deaf (2002), que, embora estivesse longe de ser uma unanimidade pop ou mesmo um disco de fácil absorção – como eu já disse, mesmo sem parecer tanto tratava-se de um álbum conceitual, cujas suítes psicodélicas, pesadas e hipnóticas até hoje são praticamente ignoradas pelos fãs de última hora -, acabou ganhando a simpatia generalizada e ainda mais ampla de público e crítica e chegou a ser encarado como o som do Queens of the Stone Age “em estado puro” depois de duas esforçadas tentativas anteriores de destilação em formato de disco. Pra ajudar, Homme convidara Dave Grohl, que já gozava de prestígio praticamente inabalável por sua história com o Nirvana e com o Foo Fighters, para assumir, em estúdio, as baquetas (coisa que o tal cidadão sempre fez MUITO BEM, melhor que qualquer outra, na minha modesta opinião), além de contar com palhinhas vocais de Mark Lanegan (ex-Screaming Trees) aqui e ali. Não tinha como dar errado. O álbum chocou (no sentido mais positivo da palavra) todo mundo e colocou a banda definitivamente no mapa do rock contemporâneo.

Foi logo depois disso que, na minha opinião, a beleza da inconstância característica do QOTSA deu sinais mais altos, claros e definitivos. Passados três anos, em 2005, a banda colocava na praça Lullabies to Paralyze, disco que deve ter dado uma rasteira considerável naqueles que esperavam uma continuação óbvia de Songs for…. Porque, em vez de simplesmente se repetir, ali os músicos somavam aos mais poderosos contornos de sua obra anterior uma aparente vontade de testar ainda mais os limites do gênero ímpar que acabavam de criar para eles mesmos. Ao peso contagiante, venenoso e algo psicodélico dos álbuns anteriores (em especial ao disco imediatamente anterior), a banda adicionou um experimentalismo ainda mais desvairado e um admirável descompromisso com as fórmulas às quais já havia recorrido. De certa forma, Lullabies… foi uma prova de que Homme e seus comparsas estavam decididos a não permanecer por muito tempo no mesmo lugar.

Comprovando, de certa forma, toda a tese exposta anteriormente, em 2007 o QOTSA veio com Era Vulgaris, uma veloz, suja e sacana negação frontal do patamar que eles mesmos haviam alcançado dois anos antes. Para alguns, o disco foi uma revigorante “volta às origens”, uma visita – protagonizada por um time evidentemente mais maduro – aos supostos “fundamentos” do som que, aparentemente, caracterizaria o “estilo” da banda. Discordo. Enxergo ali – haja vista que considero Era… um dos álbuns menos interessantes da discografia do Queens – uma relaxada, escandalosa e gratuita (na medida, apertada, em que é possível atribuir tal adjetivo à trajetória do grupo) ruptura (possivelmente premeditada?) com quaisquer expectativas que pairassem naquele momento sobre o bando de Homme. Teriam eles feito de propósito? Será que bolaram intencionalmente – para o lançamento que marcaria justamente o fim de um longevo contrato com a gravadora Interscope – uma obra difusa, áspera e absolutamente despreocupada com qualquer prognóstico comercial e de crítica? Talvez… Com a balada sexy “Make It Wit Chu” (e seu clipe carregado de hormônios) encarregada de fazer a frente radiofônica do disco e a esquizofrênica “Sick, Sick, Sick” (e seus ecos que remetiam ao já saudoso diamante stoner “Feel Good Hit of the Summer” – de Rated R) carregando a responsa de legitimar o álbum para uma parcela mais “conservadora” da audiência cativa (em que se pese o conhecido, imprevisível e extravagante composto sonoro que poderia se esperar do Queens), o lançamento se safou consideravelmente bem, principalmente – na minha opinião – por parecer, paradoxalmente, um sinal de que o QOTSA (apesar de configurar uma clara guinada estética em aparente marcha ré acelerada) havia, finalmente, abraçado uma fórmula confortável sobre a qual se estabelecer. Isso sem mencionar a evidente preguiça da crítica especializada, muito mais lenta em demolir um mito criado por ela mesma do que em sagrar um novo medalhão da indústria cultural.

Ok, já passa da hora de voltarmos a …Like Clockwork e seus méritos. Sigamos. No fim das contas vai acabar sendo pano rápido, que já gastei teclado demais nessa inchada (ainda que justificável, musicologicamente necessária, até) viagem no tempo. Confirmando a única constante aparente na obra do Queens of the Stone Age, o novo álbum cristaliza, uma vez mais, o retrato de uma entidade musical desesperadamente desconfortável com a ideia de repetição e continuidade. O novo disco, com suas 10 faixas e pouco mais de 45 minutos de duração, se descortina como um terreno absolutamente simpático à criatividade sempre efervescente de Homme (representante único da formação inicial da banda – e, nesse ponto, “dono” incontestável do “projeto” QOTSA) e à proposta absolutamente experimental, descompromissada, e volátil do compositor.

No entanto, por qualquer que seja a razão (ainda que puro palpite ou mera intuição), …Like Clockwork soa surpreendentemente mais como uma pista confiável dos caminhos que o Queens (e seu mentor) parece disposto a seguir daqui pra frente do que como mais uma extravagância naturalmente circunstancial. Levando-se em consideração que Josh Homme acaba de mergulhar nos 40,  já acumula passagens musicais memoráveis no currículo, além de ter vivido tudo e mais um pouco daquilo que seu estilo de vida pode proporcionar durante mais de duas décadas (embora também tenha, nesse meio tempo, arranjado tempo para constituir família), é de se compreender o clima mais sedimentado (embora ainda aventureiro) da obra. Do ponto de vista puramente formal, …Like Clockwork não chega a rasgar as blueprints arregimentadas pela banda durante seus 15 anos de trajetória. Ao contrário, o apanhado de canções de agora parece se beneficiar com extrema maestria e renovada ousadia dos caminhos trilhados anteriormente pelo grupo. Assim, o disco parece uma grande e diversificada celebração da trajetória do QOTSA até agora, ao mesmo tempo em que ainda permite que Homme coloque para fora, brilhantemente e na condição definitiva de bandleader, costuras líricas confessionais nunca antes suportadas de forma tão natural pelas narrativas intensas, de certa forma maníacas e hedonistas gestadas por ele mesmo e por seus comandados.

E, a propósito de tal entrega lírica intensa, sem sombra de dúvida o ruivo grandalhão (Homme) se torna o protagonista absoluto aqui – e já não era mesmo a hora, numa levada completamente natural e compreensível? – e com merecido louvor. O papel naturalmente dominante do frontman é tão evidente, merecido e cuidadosamente trabalhado no álbum que – bem ao gosto do espírito coletivo do QOTSA, aqui fatalmente exacerbado – as tão incensadas participações especiais das quais já falamos (incluindo Elton John, não se esqueça!) passam quase que completamente despercebidas, absolutamente a serviço do contexto  (fica aí o desafio: procure distingui-las no contexto do disco).

Trocando em miúdos, … Like Clockwork pode ser apenas mais um álbum para engrossar a discografia do Queens of the Stone Age, ainda que definitivamente não o seja. Minha aposta pessoal com relação a esse disco, que fica melhor a cada audição (o que, de forma alguma, significa que ele é ruim ou fraco, como se poderia pensar depois de tal qualificação), é que, contrariando toda a história construída até aqui, ele marca, de forma contundente, um novo capítulo na história da banda. Talvez uma passagem a  partir da qual Josh e sua gangue se vejam, finalmente, preparados para agarrar com determinação um pedaço seguro de rocha e, a partir dele, construir um caminho mais coerente e confortável – sem nunca deixar, como se espera, que a obviedade  se instale -, um caminho que apenas beneficie o potencial que eles já provaram ter. Até porque, olhando para …Like Clockwork, não consigo deixar de acreditar que possamos esperar, daqui pra frente, inesquecíveis, belos e comoventes manifestos gestados a partir daquilo que convencionamos chamar de música contemporânea. Vida longa ao QOTSA!