Originais & Originados – Fergie (2006) x Vários (mesmo) – “Fergalicious” – Ou Nada se cria, tudo se copia

Fergie em cena do clipe de "Fergalicious": Ufa, desde "The Rockafeller Skank" eu não tinha tanto trabalho. Parece uma monografia fonográfica.

Fergie em cena do clipe de “Fergalicious”: Ufa, desde “The Rockafeller Skank” eu não tinha tanto trabalho. Parece uma monografia fonográfica.

Há muito tempo quero falar desse exemplar. Longe de ser uma crítica moralista e anacrônica, a análise que segue está mais para constatação da pertinência da máxima “everything is a remix” do que um lamento boboca pela suposta ideia de originalidade no universo da música pop/comercial (e se você clicou no link que deixei ali atrás, já sabe o porquê).

“Fergalicious”, single carro-chefe do disco solo de Fergie (The Dutchess; 2006), uma das vocalistas do grupo Black Eyed Peas, exemplifica perfeitamente a noção de que a colagem/apropriação/reconfiguração se tornou instrumento comum da música contemporânea. Dependendo do contexto, dá até pra argumentar que, para além de recurso estético, essa prática pressupõe certa dose de picaretagem (especialmente se considerarmos que em muitos casos os autores originais dos trechos sampleados ou recriados não são devidamente creditados), mas não é isso que está em questão aqui, até porque não consegui encontrar o encarte completo do álbum da Fergie pra checar se há menção aos samples.

Voltando à canção: uau, que colcha de retalhos. Pelo menos não podemos acusar will.i.am (produtor da maior parte do álbum, inclusive da faixa em questão, e também membro fundador do Black Eyed Peas) de não ter suado a camisa. “Fergalicious”, que, como o título já adianta,  basicamente é uma ode aos, digamos, “encantos” de Fergie, habilmente mistura várias “citações” (pra ser simpático) de diversas outras músicas pra mandar seu recado. Aliás, é possível dizer sem exagero que a letra – simplista e, em certa medida, divertida – é o único componente totalmente original do produto.

Dá até preguiça de cavar e listar aqui as fontes nas quais essa gemazinha pop bebeu pra vir ao mundo. Até mesmo – e é aí que as coisas ficam ainda mais interessantes – porque boa parte das tais “originais” também rende “tributos” (sendo simpático mais uma vez) a outros tantos sons pioneiros. É remix em cima de remix. Com tantas camadas eu já estou me sentindo em um musical dirigido pelo David Lynch. Mas deixa eu tentar explicar. Vá seguindo as referências e revise tudo com os vídeos ao final do post.

Bem, pra começar, a introdução de “Fergalicious” usa o início de “Give It All You Got (Doggy Style)” de Afro-Rican (1987) e emenda a melodia vocal de “Throw the D” de 2 Live Crew (1986), que por sua vez sampleou “Planet Rock” de Afrika Bambaataa & Soulsonic Force (1982). Na sequência, a levada dos versos – que constituem o “grosso” da canção – é uma releitura bem literal de “Supersonic”, de J.J. Fad (1987). Certo tempo depois entra a ponte, emprestada de outro trecho de “Give It All You Got (Doggy Style)”, que por sua vez recicla “Night Train”, de James Brown (1962) e “It’s More Fun to Compute”, do Karftwerk (1981). E então o repertório de referências está finalmente  completo, já que o resto da música é basicamente uma repetição de tudo o que já se apresentou até então. Ufa, desde “The Rockafeller Skank” eu não tinha tanto trabalho. Parece uma monografia fonográfica.

E aí? O que você acha da cultura do remix e dos frutos dessa prática na produção pop?

ORIGINADA – FERGIE – FERGALICIOUS (2006)

 

ORIGINAL (?) – AFRO-RICAN – GIVE IT ALL YOU GOT (DOGGY STYLE) (1987)

 

ORIGINAL – JAMES BROWN – NIGHT TRAIN (DOGGY STYLE) (1962)

 

ORIGINAL – KRAFTWERK – IT’S MORE FUN TO COMPUTE (1981)

 

ORIGINAL (?) – 2 LIVE CREW – THROW THE D (1986)

 

ORIGINAL – AFRIKA BAMBAATAA & THE SOULSONIC FORCE – PLANET ROCK (1982)

 

ORIGINAL – J.J. FAD – SUPERSONIC (1987)