Arqueologia sonora – Pixies

Pixies: os mentores acidentais do assalto protagonizado pelo "rock alternativo" ao imaginário coletivo da música pop nos anos 1990

Pixies: os mentores acidentais do assalto protagonizado pelo “rock alternativo” ao imaginário coletivo da música pop nos anos 1990

Não é sem considerável pesar – na condição de musicólogo – que admito ter ignorado até muito recentemente – e quase em sua totalidade – a importância do Pixies nos autos da música pop (ou comercial) recente. Obviamente que eu já estava a par da existência da banda comandada por Black Francis ou Frank Black (compositor/guitarrista/vocalista) e já havia balançado – em inúmeros episódios de minha trajetória de “pessoa musical” – ao som das composições mais “palatáveis” da trupe que também incluía a baixista/vocalista Kim Deal, o guitarrista Joey Santiago e o baterista Dave Lovering. Mas é que foi só muito recentemente que parei pra analisar produção/contexto e reconhecer a banda norte-americana formada no final dos anos 1980 como algo maior que um clássico – ainda que competente e interessante – clichê indie anacrônico. E então fecha-se (em meu folclore pessoal, antes ou depois de mais nada) a conta registrando o Pixies como um dos mais representativos mentores acidentais da tal “revolução” do rock alternativo yankee que tomou de assalto as rádios, as paradas de sucesso, a mídia especializada (ou nem tanto) e o imaginário do público consumidor de música durante boa parte da década de 1990 na forma de movimentos improváveis (porém absolutamente compreensíveis – ainda que não tão exatamente organizados como querem fazer crer) como o grunge e na consolidação de um nicho viável de produção relativamente distanciado do que se convencionou chamar de “rock” durante e logo após os anos 1980.

Com suas construções canhestras, lógica e execuções tipicamente amadoras (e de maneira alguma procuro destacar isso como um aspecto negativo – ao contrário) e energia produtiva tipicamente desligada da engrenagem músico-corporativo de sua época, o quarteto criado em Boston (Massachusetts) acabou inspirando, graças a sua estética (resumidamente baseada na espontânea, porém fresca – para a época -, alternância de dinâmica sonora [passagens mais “calmas” e trechos mais “explosivos”]) e conteúdo (as letras quase – se não completamente – surrealistas de Francis Black) absolutamente descompromissada com a agenda do “rock corporativo” (uma tentativa inata da indústria de, desconjuntadamente, ‘cercar’ o chamado ‘rock ‘n’ roll’ em um chiqueirinho povoado por mulheres, drogas e rebeldia de snooker bar) da época, o Pixies acabou fornecendo combustível intelectual (ainda que acidental, frise-se) para bandas embrionárias – à época – como o Nirvana. Basta pesquisar um pouco pra saber que – a despeito de influências um tanto óbvias quanto Melvins e o rock setentista – foi a tentativa (confessa, segundo minha pesquisa) de emular o som do Pixies que levou Kurt Cobain (só pra ficar em um exemplo que contempla o expoente “máximo” do grunge) a criar o hino “Smells Like Teen Spirit“. Isso posto, contemplemos o Pixies como uma das pedras fundamentais da liberdade criativa que, hoje, quase 30 anos depois de seu surgimento, se consolida no espectro praticamente ilimitado de bandas fazendo o que querem fazer a partir do “ponto de largada” do “rock”.

Da estante – Bleach (1989), Nirvana

Bleach (1989): debute da banda que viria a ser a representante maior do grunge e uma das grandes responsáveis pela popularização do rock alternativo ao redor do globo

Bleach (1989): debute da banda que viria a ser a representante maior do grunge e uma das grandes responsáveis pela popularização do rock alternativo ao redor do globo

Ouvir uma banda que mudaria a história do rock dando seus primeiros passos é realmente uma experiência única. Até hoje, Bleach (1989), debute fonográfico do Nirvana, é um dos meus discos preferidos – não só da banda, mas de toda a história do rock alternativo. Gravado em Seattle ao longo de apenas alguns dias entre dezembro de 1988 e janeiro de 1989, o disco custou cerca de US$ 600,00 para ser registrado – grana emprestada pelo guitarrista Jason Everman, que em troca foi creditado no álbum, embora não tenha tocado nada. A produção ficou a cargo de Jack Endino, lendário e veterano nome da cena de Seattle.

Retrato do nascimento de uma lenda, Bleach mostra o Nirvana em sua primeira formação, com Kurt Cobain (guitarra e voz), Krist Novoselic (baixo) e Chad Channing (bateria – Dave Grohl entraria apenas na época de Nevermind [1991]). A atmosfera é crua, áspera e muito mais ancorada no heavy metal do que no soft punk polido de Nervermind. Registrado em uma moldura fria e algo tosca, o disco parece ser o retrato do que deveria mesmo ser o Nirvana, não fosse a explosão pop que a banda viria a protagonizar. A lírica pessimista, beatnic e, de certa forma, nonsense de Cobain mostram aqui as suas raízes, bem como o vocal desolado e rasgado.

No tracklist, um punhado de sons de respeito, entre eles “About a Girl” (posteriormente eternizado no MTV Unplugged in New York, 1994), o cover pesado de “Love Buzz” (da banda holandesa Shocking Blue) e pancadas como “Negative Creep”, além de construções inusitadas como “Sifting” e “Big Cheese”. Pra quem colocou o Nevermind no topo da lista de discos mais originais de todos os tempos, é audição obrigatória. Quem sabe não sobe um degrau na sua compilação de favoritos?





Vídeo da semana – Nirvana ao vivo na TV em 1990

Nirvana ao vivo: na TV em Olympia (1990)

Nirvana ao vivo: na TV em Olympia (1990)

Eis algo para os saudosistas dos anos 1990: filmagem completa do Nirvana tocando ao vivo pra um canal de TV de Olympia (Washington, EUA), cidade próxima a Seattle (berço do grunge), em 1990. O vídeo capta toda a energia da banda antes do sucesso estrondoso de Nevermind (1991). Várias músicas do Bleach (1989), debute fonográfico do trio, e algumas composições que apareceriam no Nevermind. Coisa fina. Vi no Trabalho Sujo.