Originais & Originados – George Clinton x Snoop Dogg – “Atomic Dog” (1982) / “Who Am I (What’s My Name)?” (1993)

George Clinton em toda sua exuberância multicolor: a história sobre um "cachorro atômico" serviu, uma década mais tarde, de cartão de visita pra um dos grandes nomes do rap norte-americano

George Clinton em toda sua exuberância multicolor: a despretensiosa história de um “cachorro atômico” contada pelo ex-mentor do Parliament/Funkadelic nos anos 1980 serviu, uma década mais tarde, de base para o cartão de visita de um dos grandes nomes do rap norte-americano

O caso em questão diz respeito mais a uma homenagem/referência/releitura do que a uma versão propriamente dita. Bem, o lance todo começa assim: em 1982, após a dissolução da entidade funk por ele capitaneada (as fodidíssimas bandas irmãs siamesas Parliament/Funkadelic – das quais vou falar qualquer hora com certeza), George Clinton lança seu primeiro disco solo, Computer Games e, com ele, a faixa mezzo eletrônica oitentista mezzo funk “Atomic Dog“, uma música alegre, dançante, sacolejante e aparentemente bobinha (a canção versa, numa análise superficial, sobre o comportamento dos cães – que correm atrás de gatos e de suas próprias caudas -, e que tem como personagem central um tal de “atomic dog” [cachorro atômico], que é o sujeito do refrão contagiante da música).

Ok.

Fast foward para a década seguinte e eis que, em 1993, o hoje popularíssimo rapper norte-americano Snoop Dogg, então um iniciante na cena revisita o som de Clinton em “Who Am I (What’s My Name)“, uma das músicas mais populares de Doggystyle, seu disco de estréia, e que rendeu um clipe (veja abaixo) exibido à exaustão na MTV brasileira (e, imagino, gringa) na época. É claro que, como é peculiar do rap e do hip-hop, a faixa – apesar de apoiada em uma canção já existente – ganhou personalidade própria com a narrativa e as rimas de Snoop Dogg. Mas é quando chega o refrão que fica claro a fonte na qual o rapper bebeu. E aí a linha vocal executada pelos backing vocals de George Clinton nos anos 1980 – entoando o mantra “Atomic doooooog / Atomic doooooog” – se transmuta, em plena década de 1990, na resposta cantarolada em coro “Snoop Dogg / doooooogg / Snoop Dogg / doooooogg” (além de outras pequenas semelhanças com a original) para a insistente pergunta “What’s my motherfuckin’ name?“, proferida por Snoop ao longo da música (a faixa ainda conta com alguns outros samples de músicas do Parliament e do Funkadelic, talvez uma pista de que rolou mesmo uma homenagem a Clinton).

Uma bela apropriação histórica da nata da música black em um dos hits que ajudou a botar o rap no mapa da música pop nos anos 1990. E, naquele momento, muito mais que uma referência explícita e despropositada causada pela falta de inspiração (como viria a acontecer com vários medalhões do rap no final da década), um certo atestado de qualidade e bom gosto para o então neófito Snoop Dogg. Embarcando na máquina do tempo: com esse gabarito, seja muito bem-vindo.

ORIGINAL – GEORGE CLINTON – ATOMIC DOG (1982)

ORIGINADA – SNOOP DOGG – WHO AM I (WHAT’S MY NAME)? (1993)

Vídeo da semana – Die Antwoord, “Fok Julle Naaiers”

Cena do vídeo Fok Julle Naaiers, do Die Antwoord

Cena do vídeo da música Fok Julle Naaiers, do Die Antwoord: o que é o belo?

“O que é o belo?” Essa parece ser a pergunta que brota no cérebro de quem assiste ao último vídeo (lançado no final de 2011) do grupo sul africano de hip hop Die Antwoord. A trupe, comandada pelo ameaçador vocalista Ninja (persona musical de Watkin Tudor Jones) e pela estranha e sedutora Yo-Landi Vi$$er (Yolandi Visser), usa e abusa da estética zef (palavra derivada do africâner), que significa algo como “pobre, mas sexy ou estiloso”, e no clipe de “Fok Julle Naaiers” (Fuck All You Fuckers, em inglês) isso é levado às últimas consequências, com uma pitada dark.

Enquanto Vi$$er e Ninja enchem a boca para xingar a tudo e a todos com uma rima cheia de “trrrrr’s” por conta do sotaque, somos brindados com imagens sombrias em preto e branco – em sua maioria close-ups repletos de detalhes incômodos de pessoas que passam longe do padrão de beleza imposto pela indústria cultural. Some-se a isso a aflição de ver as tatuagens mal feitas e o cavanhaque bizarro de Ninja muito mais de perto do que qualquer um gostaria e Vi$$er coberta de mariposas e borboletas (até mesmo na boca e nos olhos), além do final medonho (MC Rascunho do Mapa do Inferno?) e tem-se um clássico instantâneo. Tão feio-estilizado (zef, afinal) que fica lindo e hipnotizante.

Não era de se esperar menos, afinal, desde isso aqui (meio que um manifesto filmado do tal do zef), cada lançamento do Die Antwoord promete nos deixar alegremente atônitos. Mal posso esperar pelos próximos.

FOK JULLE NAAIERS from Die Antwoord on Vimeo.