Originais & Originados – Baby Huey (1971) x Curtis Mayfield (1975) x John Legend & the Roots (2010) – “Hard Times”

Baby Huey, morto precocemente aos 26 anos: "Hard Times" acabou sobrevivendo aos anos como um libelo soul

Baby Huey, morto precocemente aos 26 anos: “Hard Times” acabou sobrevivendo aos anos como um libelo soul

Eis aí outra inusitada história de uma canção que viajou no tempo para ser descoberta por diferentes gerações em suas diversas encarnações ao longo do desabrochar da música pop. “Hard Times“, poderoso libelo soul composto pelo mago Curtis Mayfield, foi originalmente gravado pelo prodígio vocal Baby Huey – uma espécie de Tim Maia do soul setentista norte-americano – e lançado no álbum póstumo The Baby Huey Story: The Living Legend, de 1971 (o cantor morreu precocemente aos 26 anos, em outubro de 1970, antes mesmo de debutar oficialmente em disco, por conta de um ataque cardíaco relacionado ao consumo de drogas – heroína, mais especificamente).

Mesmo marcada pela atmosfera trágica, a canção acabou revisitada pelo próprio Curtis Mayfield anos depois, no interessantíssimo álbum There’s No Place Like America Today (1975), em uma versão extremamente easy going. Quem a ouvisse sem saber da história jamais relacionaria a canção ao mórbido debute fonográfico de Baby Huey.

E então, mais de três décadas depois, o cantor John Legend decidiu – sabe-se lá porquê – fazer de “Hard Times” a faixa de abertura de seu disco gravado em colaboração com a banda The Roots (Wake Up!, 2010). Com uma versão bastante próxima à interpretação original de Baby Huey, Legend acabou – intencionalmente ou não – apresentando a uma audiência consideravelmente mais nova um pedacinho importante da história da soul music norte-americana. Ainda bem!

ORIGINAL/ORIGINADA – BABY HUEY – HARD TIMES (1971)

ORIGINADA/ORIGINAL – CURTIS MAYFIELD – HARD TIMES (1975)

ORIGINADA – JOHN LEGEND & THE ROOTS – HARD TIMES (2010)

LIVE! – John Legend & The Roots – Urban Music Festival, São Paulo, Arena Anhembi, 29/05/2011

John Legend & The Roots: revisitando o soul

John Legend & The Roots: revisitando o soul

John Legend é foda. Meu respeito pelo cara aumentou uns 200% quando soube que ele lançara um disco com o The Roots (ouça!) , o Wake Up! (2010), só com versões de soul antigo. Talvez o maior mérito do álbum seja apresentar gente como Curtis Mayfield, Baby Huey e Bill Whiters à molecada de hoje. E, ao vivo, Legend e a banda executam com maestria clássicos da música negra norte-americana. Um prato cheio para um fã de soul como eu.

O show, realizado em São Paulo, fechando o Urban Music Festival, começou com “Hard Times”, versão pesadona do som de Baby Huey & The Baby Sitters (veja o vídeo exclusivo abaixo). Ótima maneira de ganhar a platéia que congelava no Anhembi. Fora uma ou outra cagada técnica (um pouco depois do início o grave do baixo e do bumbo estouraram durante uma das canções), o som estava perfeito (pelo menos na pista vip, onde eu, graças a um amigo, e a imprensa especializada estávamos), e a perfomance de Legend e da banda (destaque para as duas lindas e talentosíssimas backing vocals negras) impecáveis.

Uma inesperada e pesadíssima versão de “Move on Up”, do mago Curtis Mayfield arrebatou boa parte da plateia, e “PDA”, de Legend (veja vídeo exclusivo abaixo) fez todo mundo cantar e dançar. “I Can’t Write Left Handed”, hino antiguerra de Bill Whiters, precedida por um discurso pacifista de Legend (“When Bill Whiters wrote this song in 1973 the USA were in war against Vietnam. Today we’re still in war. War is hell, don’t matter who makes the decisions in Washington”) virou um épico de quase 7 minutos. Hipnotizante.

Valeu a pena ter perdido o Gang of Four, que tocou de graça ao mesmo tempo no festival da Cultura Inglesa no Parque da Independência.

Bonus track: pagar R$ 6,00 em fichas de cerveja no disco da banda de reggae hip hop Haikaiss, que pode ser baixado aqui, em troca de… bem… um favor que eles me fizeram durante o show. E conhecer o Leonardo dos Anjos da agência BRPress, que estava cobrindo o show (leia a resenha dele aqui)!

Ah, ainda teve uma participação WTF da Ana Carolina, mas nem é digno de nota!

Os vídeos foram gravados pela Cinematófaga.