Da estante – Danzig (1988), Danzig

Danzig (com Glenn Danzig em primeiro plano): o primeiro frontman do Misfits preferiu seguir carreira solo

Danzig (com Glenn Danzig em primeiro plano): o primeiro frontman do Misfits preferiu seguir carreira solo

Danzig (1988), álbum homônimo de estreia do projeto solo de Glenn Danzig: do punk desleixado influenciado por filmes B do Misfits ao hard rock/blues dark obcecado por temáticas ainda mais obscuras

Danzig (1988), álbum homônimo de estreia do projeto solo de Glenn Danzig: do punk desleixado influenciado por filmes B do Misfits ao hard rock/blues dark obcecado por temáticas ainda mais obscuras

Que fique avisado: nesse aqui vou ser curto e grosso, como os melhores sons do Danzig.

Pouco depois de deixar o posto de vocalista do Misfits, banda de horror punk que o apresentou ao mundo, e após uma breve tentativa com o Samhain, Glenn Danzig resolveu investir em um projeto que carregava seu próprio “sobrenome” artístico (ele nasceu Glenn Anzalone, em 1955).

O homônimo debute em disco – Danzig – ocorreu em 1988, carregando muito pouco de sua primeira banda – do punk desleixado influenciado por filmes B ao hard rock/blues dark obcecado por temáticas ainda mais obscuras. De igual, somente o vocal meio crooner, meio Elvis Presley, meio Jim Morrison, meio zumbi alienígena de Danzig.

Ali, a roupagem era totalmente outra: mais “séria” que na época do Misfits, com sons um pouco mais arrastados e palatáveis (intencionalmente ou não). Tanto que “Mother“, sexta faixa do álbum, acabou se tornando um hit improvável com seus vocais obscuros e sensuais e sua pegada “blues infernal”.

Enfim, mais um belo exemplar na prateleira da história do rock e do punk. Dá pra ouvir o disco inteiro aqui embaixo. Boa diversão!

Arqueologia sonora – Misfits

Misfits: que outra banda começaria uma música com "Eu tenho algo a dizer. Hoje eu matei o seu bebê"?

Misfits: que outra banda começaria uma música com “Eu tenho algo a dizer. Hoje eu matei o seu bebê”?

Os Misfits são realmente geniais. Perdoem-me os desprovidos de senso de humor mas, que outra banda começaria uma música com “Eu tenho algo a dizer. Hoje eu matei o seu bebê“? Ou faria uma balada que versa sobre um cara que assassina a namorada e depois se sente sozinho “no banco de trás do carro, no drive in“? Bem, eles fizeram. E não para por aí. “Angelfuck”, “Mommy, can I go out and kill tonight?” e “Astro Zombies” são alguns dos nomes que eles usaram para batizar suas composições.

A trupe, formada em 1977 e comandada até hoje pelo baixista Jerry (Caiafa) Only, teve um importante papel na concepção e disseminação do chamado horror punk. Advindo do estilo gestado pelos Ramones e parido pelos infames Sex Pistols, essa vertente “Filme B” se diferenciou do original pela temática trash (assassinatos, sangue, zumbis canibais) e bem-humorada, mas manteve as características essencialmente musicais (canções curtas, com três acordes na média, e gravações/execuções toscas).

Apesar do fôlego de seus primeiros discos de estúdio – Walk Among Us (1982) e Earth A.D. (1983) – no final de 1984 a banda se desmanchou com a saída do vocalista e frontman Glen Danzig (que seguiu uma carreira solo de sucesso razoável, pelo que me consta). O legado dos punks que faziam shows usando sombras pesadíssimas nos olhos e franjas no estilo moicano esticadas para baixo em frente ao rosto (lembra alguma coisa?) estava fadado ao limbo.

Ou não…


A volta dos mortos-vivos

Ainda no final dos anos 1980 apareceram algumas coletâneas da banda e em 1987  o Metallica colocaria “Last Caress/Green Hell” em sua pequena lista de homenageadas no lendário disquinho de começo de carreira The $5.98 E.P.: Garage Days Re-Revisited. Até que em 1993 o Gun ‘n’ Roses incluiu a música “Attitude” em seu álbum de covers The Spaghetti Incident?, o que despertou o interesse tardio de muita gente. Finalmente, em 1995, saiu o (até então) inédito Static Age, com gravações feitas pelo Misfits em 1978 e, em 1996, após algumas pendengas judiciais entre Only e Danzig pelo direito de usar o nome da banda, o grupo voltou à ativa – sem o vocalista original.

Com o desconhecido Michale Graves à frente do microfone (para desespero dos adoradores hardcore de Danzig), os Misfits lançaram American Psycho (1997) e Famous Monsters (1999). Os detratores (incluindo aí parte considerável da imprensa especializada) não pouparam munição para detonar trabalho e line-up novos: Graves era técnico demais e carismático de menos (hey, qual o problema com alcançar notas altas e limpas enquanto se canta sobre cortar os braços e pernas de alguém?); a sonoridade tinha mais de hard rock que de punk (alguém aí notou que não estamos mais em 1977?) entre outras abobrinhas. É claro que outros tantos defendiam a volta da banda e, evidentemente, compravam discos (lembra como era isso?) – tanto que Famous Monsters chegou a ocupar a 2ª posição do topHeatseekers da Billboard em 1999.

O assunto para a briga de fãs que não têm mais o que fazer logo ganhou outro foco, no entanto. Em 2003, Graves (e o resto da banda) já estavam na rua há algum tempo, e Only (único membro remanescente do Misfits) lançou um álbum no mínimo peculiar. Intitulado Project 1950, o disco reuniu Dez Caneda, do Black Flag, na guitarra e (uou!) Marky Ramone na bateria, além, é claro, do baixista (e agora vocalista), para uma coleção de versões de músicas antigas (“oldies”) como “Great Balls of Fire” (!), eternizada por Jerry Lee Lewis, “Runaway” de Del Shannon e (pasmem)!, o mega-hit “Diana” do Paul Anka! Tudo executado com a empolgação de músicos experimentados que também são genuínos fãs da “Era de Ouro” do rock. Melhor impossível (ou simplesmente pavoroso na opinião de outros). Por um tempo depois disso, o Misfits deu uma pausa com a produção em estúdio enquanto excursionava com a última formação (incluindo visitas ao Brasil) e lançava uma coleção “caça-níqueis” de hits em versão lounge para coquetéis (!) (Fiend Club Lounge, 2005).


Estado avançado de putrefação 

Em 2011, após um hiato de oito anos – 12 sem material original -, a banda  voltou à sala de gravação e saiu dela inaugurando a “fase 3” do Misfits com The Devil’s Rain. Contando com a mesma formação do álbum anterior, exceto por Marky Ramone, substituído por Eric “Chupacabra” Arce (Murphy’s Law) – que já havia sido testado em alguns shows da turnê do Project 1950 –, o disco foi malhado pela crítica, ainda mais que Famous Monsters, e com uma boa dose de razão. O nono lançamento fonográfico oficial do (agora) projeto particular de Only sofre de um anacronismo decepcionante. Além de requentar uma fórmula que a banda ajudou a cozinhar há mais de 30 anos – pô, nesse sentido os álbuns com Graves foram, pelo menos, um ar fresco – o amontoado de canções é puxado integralmente pelo baixista/vocalista em uma performance que, se era algo amadora de uma forma empolgante e engraçada em Project 1950, ali chega a ser constrangedora de tão fraca, pouco inspirada e até mesmo inábil. A produção flat também não ajuda e no fim fica aquela sensação de “deviam ter parado no último”. Em resumo, um triste capítulo (que pode ser o final, se a vontade de ganhar dinheiro de Only não prevalecer) na história de uma grande e pioneira banda. E o que ainda vem – se é que vem – por aí com a assinatura dos Misfits cabe apenas nas conjecturas.

No fim, apesar do pessimismo, só resta recomendar aos incautos que considerem a experiência única de ouvir os roteiros mais escabrosos do terror mais vagabundo transformados em três ou mais acordes, com Danzig, Graves ou Only – exceto pelo supracitado último disco – celebrando a alegria de se estar completamente coberto de sangue. Cenográfico, claro.