Resenha – Nick Cave & the Bad Seeds, Push the Sky Away (2013)

Nick Cave & the Bad Seeds em 2013 (na ponta esquerda, Nick Cave; na ponta direita, Warren Ellis): uma banda em franca experimentação após quase 30 anos de carreira

Nick Cave & the Bad Seeds em 2013 (na ponta esquerda, Nick Cave; na ponta direita, Warren Ellis): uma banda em franca experimentação após quase 30 anos de carreira

Push the Sky Away (2013): o disco parece mais um interlúdio na trajetória da banda. Uma Polaroid ainda fresca do momento vivido pelo grupo em transformação, um trabalho belo, mas evidentemente intermediário

Push the Sky Away (2013): o disco parece mais um interlúdio na trajetória da banda. Uma Polaroid ainda fresca do momento vivido pelo grupo em transformação, um trabalho belo, mas evidentemente intermediário

Lançado no final de fevereiro de 2013, Push the Sky Away é o décimo quinto álbum de estúdio de Nick Cave & the Bad Seeds. Separado por cinco anos do último trabalho deles (o explosivo Dig, Lazarus, Dig!!!, de 2008), o registro é também o primeiro da história do grupo a não contar nem com o guitarrista e vocalista alemão Blixa Bargeld (que deixou os Bad Seeds  em 2003, um ano antes do ótimo – e duplo – Abbatoir Blues/The Lyre of Orpheus), nem com o multi-instrumentista Mick Harvey (que saiu em 2009), ambos membros fundadores, junto com Cave.

Com a ausência dos dois, que contribuíram tanto para a sonoridade da banda ao longo de quase 30 anos, ficou com o versátil Warren Ellis, alistado na trupe em 1995 (e que formou junto com Cave o já finado Grinderman, além de ter feito algumas trilhas para o cinema na companhia do compositor), a tarefa de dar a tônica – junto com os tradicionais pianos e Rhodes pilotados por Nick – ao álbum. O resultado pode ser uma surpresa para muitos, uma vez que não se parece muito com quase nenhum marco da discografia da banda, à exceção, talvez, de You Funeral… My Trial (1986), mas, ainda assim, de forma bem vaga e muito menos maníaca.

O clima composto pela dobradinha Nick Cave/Warren Ellis em Push the Sky Away soa, de certa forma, tão monocromático e delicado quanto a (belíssima) capa do álbum. O que não significa, evidentemente, que o tédio encontre espaço para se instaurar ao longo dos pouco mais de 40 minutos distribuídos ao longo das nove faixas – embora o ouvinte casual possa sentir um leve formigamento nos músculos de sua paciência adormecida.

A maioria das canções se apoia confortável e naturalmente nas construções instrumentais suaves, harmoniosas e, muitas vezes, discretamente percussivas construídas pelos músicos e arquitetadas e arranjadas por Ellis quase como se ele estivesse operando um conjunto de loops eletrônicos. Em raríssimos momentos um instrumento em particular toma para si o spotlight (como o teclado que conduz “We No Who U R“, a faixa de abertura e primeiro single, ou a guitarra que toca repetidas vezes o riff de “Jubilee Street“, segunda música de trabalho do álbum – veja os vídeos abaixo).

Em meio a tudo isso, a voz de Cave aparece pouco disposta a muito mais que o barítono monocórdico habitual, praticamente ocupando a posição definitiva de “narrador” onisciente das estórias sombrias e agridoces que povoam o universo lírico do autor, e acompanhada, em momentos-chave, de belíssimos arranjos quase celestiais executados pelos backing vocals. Posso estar enganado, mas, até então, Nick Cave nunca tinha se aproximado tanto assim da spoken word – modalidade com a qual ele sempre flertou bastante, é verdade. E, dito isso, sua poesia, aqui tão ou mais afiada e dúbia quanto o habitual, se beneficia incrivelmente das escolhas estéticas do álbum. Sobram espaços e caminhos para a construção de contos impregnados de amor (ao estilo Cave), humor negro, comentário social e o eterno desconforto de nossa existência.

Definitivamente, Push the Sky Away não é uma indicação acertada para quem nunca tomou contato com a obra de Cave e seus Bad Seeds (pode acabar até sendo bastante subestimado se analisado sem uma visão ampla de contexto). Ao contrário, o disco parece mais um interlúdio na trajetória da banda. Uma Polaroid ainda fresca do momento vivido pelo grupo em transformação, um trabalho belo, mas evidentemente intermediário e que pode ser comparado, puramente em termos de guinada estética, ao belíssimo The Boatman’s Call (1997) e, no campo da clara busca por renovação e identidade, ao menosprezado Nocturama (2003). De qualquer forma, é um must have para os cavemaníacos, pra quem o disco pode significar, além de tudo, um belo calmante na espera pela próxima obra-prima de Nick e seus comparsas – e, acredite, se a banda não acabar, ela deve aparecer logo mais – uma aposta pessoal do musicólogo aqui.

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Vídeo da semana – [NSFW] Nick Cave & the Bad Seeds, “Jubilee Street”

Cena de "Jubilee Street": vídeo reforça o clima desolado e cool que parece ser a tônica de Push the Sky Away, novo disco de Nick Cave & the Bad Seeds que tem lançamento previsto para 19 de fevereiro

Cena de “Jubilee Street”: vídeo reforça o clima desolado e cool que parece ser a tônica de Push the Sky Away, novo disco de Nick Cave & the Bad Seeds que tem lançamento previsto para 19 de fevereiro

O clipe da canção “Jubilee Street“, que pintou na internet essa semana, é o segundo produzido para Push the Sky Away, álbum de Nick Cave & the Bad Seeds que tem lançamento previsto para 19 de fevereiro de 2013 – o primeiro registro audiovisual do disco, o angustiante vídeo  dirigido pelo polêmico cineasta Gaspar Noé (do filme Irreversível; 2002) para a música “We No Who U R“, foi lançado há cerca de um mês.

Com direção de John Hillcoat (do filme A Estrada [2009] – drama pós-apocalíptico estrelado por Viggo Mortensen – e que já havia trabalhado com a banda no épico e caótico clipe de “Babe, I’m on Fire“) e estrelado pelo quase desconhecido Ray Winstone (de Branca de Neve e o Caçador [2012]), o vídeo narra de maneira bastante explícita (por isso o NSFW) e quase poética o relacionamento de uma prostituta com um de seus clientes (Winstone).

Embora guarde certas semelhanças com representações anteriores do trabalho e das temáticas de Cave e banda – mais especificamente o clipe de “Do You Love Me?“, gravado – nos anos 1990 – quase todo em um inferninho em São Paulo, cidade onde Cave morou durante um tempo -, o vídeo de “Jubilee Street” reforça o clima desolado e cool que parece ser a tônica de Push the Sky Away. De qualquer forma, é um belo adiantamento para os fãs que esperam avidamente um novo trabalho da banda desde 2008 (quando eles colocaram na praça o vigoroso e inconstante Dig, Lazarus, Dig!!!).

Bem, tudo isso pra dizer: sente-se confortável e reservadamente e mande o PLAY em mais essa peça da (bela e extensa) videografia de um dos compositores mais peculiares e envolventes que a música contemporânea já produziu: