Da estante – Ventura (2003), Los Hermanos – ESPECIAL 10 ANOS

Los Hermanos: banda carioca ganhou seu lugar no rol dos "artistas respeitáveis" da música brasileira

Los Hermanos (da esq. para a dir.: Rodrigo Amarante, Marcelo Camelo, Rodrigo Barba e Bruno Medina): banda carioca ganhou seu lugar no rol dos “artistas respeitáveis” da música brasileira

Ventura (2003): aos 10 anos, o terceiro trabalho dos Los Hermanos descansa confortavelmente, com seus inevitáveis mas escassos pontos baixos, como um dos melhores e mais importantes discos de toda a produção brasileira

Ventura (2003): aos 10 anos, o terceiro trabalho dos Los Hermanos descansa confortavelmente, com seus inevitáveis mas escassos pontos baixos, como um dos melhores e mais importantes discos de toda a produção brasileira

Lançado em 2003 – e, portanto, completando uma década de prateleiras neste ano de 2013 – Ventura é o terceiro disco do quarteto carioca Los Hermanos. Lançado pouco depois de Bloco do Eu Sozinho (2001), registro que foi praticamente ignorado pela Abril Music – talvez porque a então gravadora do grupo esperasse uma nova “Anna Júlia” e tenha acabado com um “Todo Carnaval Tem Seu Fim” -, o álbum passou certo perrengue até ganhar as ruas. Ventura seria  igualmente lançado pela Abril Music, mas a gravadora acabou falindo no final de 2002, bem na época em que a banda já estava com o novo trabalho praticamente pronto para ser entregue.

Surpreendidos pela notícia, a banda formada na essência pelos compositores, guitarristas e vocalistas Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante, o baterista Rodrigo Barba e o tecladista Bruno Medina acabaria assinando com a BMG (atual Sony Music) e, enfim, em 2003, o disco seria comercializado. Mas não sem antes se tornar o primeiro álbum nacional da história a vazar na web sem estar completamente finalizado (até hoje é possível encontrar na internet essa versão ligeiramente diferente em termos de arranjos e letras e mais grosseira sonoramente do que o produto que chegou às lojas). Até então, mais peso pro lado negativo da ventura (que significa sorte, boa ou má) dos Hermanos (curiosidade: um primeiro nome foi cogitado para o trabalho – Bonança, de interpretação bem mais otimista).


A sorte do quarteto, no entanto, começou a mudar bem rápido. Com a atenção da gravadora (ao menos alguma atenção) e da imprensa (boa parte dela interessada no rescaldo da infame faixa que popularizou a banda, é verdade), o enxuto embora providencial tempo em rádios comerciais mais alternativas (lembre-se que estamos falando de 2003), a ajuda do pequeno mas entusiasmado culto indie que se formou em torno do grupo durante o ocaso pós-Anna Júlia e uma vigorosa turnê de shows de lançamento sem muitas pirotecnias mas com desempenho exemplar dos músicos no palco (incluindo o baixista Bubu e o simpatissíssimo naipe de metais que emoldura porção considerável do disco), o Los Hermanos se lançava – sem saber, muito provavelmente – em um dos voos mais interessantes e intensos protagonizado por uma banda brasileira nos últimos anos. Mas falemos do disco.

Com 15 faixas, produção assinada por Kassin, e pouco menos de uma hora de duração, Ventura parece destilar com maestria o produto sofisticado e intrigante – além de bastante diferente do que se estava fazendo no País naquele momento – que o quarteto começou a fermentar em Bloco do Eu Sozinho (que, por falar nisso, durante a meteórica projeção do novo disco, passou a ser procurado por fãs sedentos que haviam acabado de [re]descobrir o som dos cariocas), extremamente distinto, diga-se, da sonoridade registrada no primeiro álbum (Los Hermanos, 1999, Abril Music) . E não é que o hardcore com roupa de ska, abrasileirado e meio carnavalesco (de marchinha, não avenida) – pra ser bem resumitivo -,  que predominava no primeiro álbum (Los Hermanos, 1999) tenha simplesmente desaparecido do discurso musical da trupe capitaneada por Camelo e Amarante, mas é quase como se ele mesmo tivesse amadurecido extremamente rápido – e com um disco no percurso – sob a batuta da banda e se transmutado em um amálgama bastante escorregadio de rock alternativo, samba, bossa nova e “MPB” (se é que dá pra chamar isso de estilo) com uma assinatura bastante particular e que ainda ecoava, naturalmente, traços de seus tempos mais joviais aqui e ali.

E, já que estamos no campo “sonoridade”, embora o álbum tenha canções tão diferentes entre si quanto a faixa de abertura, o gostoso sambinha de guitarra “Samba a dois” (Camelo), e o rock mambembe “Um Par” (Amarante), Ventura mantém uma coesão impressionante – seria o “tempero” tão característico em ação? – e se impõe elegantemente no PLAY do início ao fim em boa parte das audições, por mais casuais que possam ser, a que é submetido. Com a licença de um reducionismo prosaico aqui, da “forma” ao “conteúdo”, o “universo” pintado pelos Hermanos em suas letras é outro fator que colabora para a “amarração” do disco, além de ter se calcificado ali como um dos principais atributos do grupo – embora a característica remonte, mais timidamente, claro, ao início da carreira e tenha sido grande responsável pelo fermento em Bloco. Transbordam nas canções de Camelo uma poética muito acima da média, bastante sonora e levemente lamuriosa enquanto se descortinam o amor e outras forças humanas e/ou “divinas”, enquanto as composições de Amarante se erguem em uma espécie surreal de labirinto simbólico sem paredes para o qual tampouco parecem existir entrada e saída definidas e no qual transcorrem – e se agigantam – múltiplas fotografias do cotidiano. E assim a dupla vai meio que dialogando entre si – como fazem na onipresente e quase  perfeita simbiose de suas guitarras, aliás (ops, voltamos à “forma”)  -, enquanto leva daqui pra lá, gentilmente, pelo braço e sem desvios bruscos, quem os escuta, até a nova instauração do silêncio – ou da próxima faixa da playlist, se for o caso.

Ao terminar, Ventura descansa confortavelmente, com seus inevitáveis mas escassos pontos baixos, até a próxima execução como um dos melhores e mais importantes discos de toda a produção brasileira (na opinião de críticos e listas diversas, incluindo ranking com curadoria da versão tupiniquim da Rolling Stone e votação aberta pela rádio Eldorado, de São Paulo, capital). De quebra, na conta do álbum também está pendurado (com a ajuda de fatores já mencionados) o frenético crescimento do culto ao quarteto (comparável, em dedicação e, segundo muitos, chatice, àquele  que cercou em outros tempos o Legião Urbana)  que, se colaborou – e muito – para a consagração da banda, também acabou provocando ojeriza em muitos, fechando,como consequência, bem mais do que alguns pares de ouvidos para o som do grupo.

O terceiro trabalho do Los Hermanos, que completa 10 anos em 2013, criou mais um espacinho no rol dos “artistas respeitáveis” da nossa música, lugar ocupado até hoje por “aqueles quatro caras do Rio” de maneira progressivamente mais propensa a dividir opiniões – de público e crítica – enquanto decorada com adereços como a postura da banda frente à imprensa (encarada frequentemente como “arrogante”), a morna, quase fria, recepção da mídia ao disco subsequente (4, de 2005), o hiato sem hora pra acabar que se prolonga desde 2007, quando os músicos resolveram “dar um tempo” interrompido até hoje apenas para alguns shows, e a consequente atenção dada na sequência aos projetos paralelos de cada um dos integrantes. Mas isso já é outra história. Por hora, você está convidado a celebrar comigo esse aniversário ao som de músicas que continuam tão vibrantes e ricas quanto no dia em que foram tocadas pela primeira vez. Parabéns, Ventura!


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Da estante – Cure for Pain (1993), Morphine

Morphine: música minimalista e envolvente, suave mesmo quando mais pesada, cheia de groove e adornada pelo lirismo quase beatnik e a inconfundível voz de crooner embriagado do frontman Sandman (no canto esquerdo)

Morphine: música minimalista e envolvente, suave mesmo quando mais pesada, cheia de groove e adornada pelo lirismo quase beatnik e a inconfundível voz de crooner embriagado do frontman Sandman (no canto esquerdo da foto)

Cure for Pain (1993): o pequeno clássico moderno traz desempenhos irreparáveis por parte de cada um dos músicos e habita um universo temático languidamente marginal, por vezes romântico, por vezes cômico e levemente deprimido sem ser triste

Cure for Pain (1993): o pequeno clássico moderno traz desempenhos irreparáveis por parte de cada um dos músicos e habita um universo temático languidamente marginal, por vezes romântico, por vezes cômico e levemente deprimido sem ser triste

Lançado em setembro de 1993, Cure for Pain, segundo disco do Morphine, está prestes a completar – neste 2013 – duas décadas ocupando um discreto mas saboroso espaço na história da música. Então, pela comemoração dos 20 anos e também pela importância que o álbum tem para minha própria história, é a vez desse pequeno clássico moderno ocupar o pedestal aqui n’O musicólogo.

Uma das razões que explica todo o charme e o magnetismo de Cure for Pain, que sucedeu o interessantíssimo debute Good (1992), é que o disco, de certa forma, é uma síntese do que foi e do que significou o Morphine. Pra quem não conhece, ou não conhece tão bem, o trio formado em Cambridge, Massachussets (EUA), chamou a atenção dos críticos e de um público um pouco mais seleto na década de 1990 com um som que misturava rock alternativo com jazz e blues e com sua formação inusitada – bateria, sax, baixo com apenas duas cordas (o instrumento costuma ter, no mínimo, quatro) tocado com slide e vocais (sem guitarras!).

Capitaneada por Mark Sandman, compositor, cantor e baixista falecido em 1999 por conta de um ataque cardíaco em pleno palco, a banda cunhou o termo “low rock” para definir sua sonoridade: uma música minimalista e envolvente, suave mesmo quando mais pesada, cheia de groove e adornada pelo lirismo quase beatnik e a inconfundível voz de crooner embriagado de Sandman. Com uma audiência gestada pelo boca a boca e por rádios universitárias e alternativas, eles nunca atingiram o mainstream e ficaram com a pecha de cult mesmo após mais quatro álbuns (incluindo The Night, lançado somente em 2010, após a morte de Sandman, e um bootleg que também ganhou as ruas nesse mesmo ano).

E, voltando ao Cure for Pain, apesar de ser apenas o segundo registro de estúdio da banda, o álbum carrega uma certa energia resumitiva, traz um pouquinho de tudo o que o trio provaria ser capaz de fazer (ainda que em caráter experimental) com desempenhos irreparáveis por parte de cada um dos músicos e habitando um universo temático languidamente marginal, por vezes romântico, por vezes cômico e levemente deprimido sem ser triste. Imagine “Walk on the Wild Side” batida com bourbon e anfetamina servida em um esfumaçado bar de jazz na madrugada de uma metrópole suja porém charmosa.

Bom, vou ali tomar a minha dose. Prove a sua aqui abaixo.

Vídeo da semana – Strange Music, “Run, King, Run” (2011/2012)

Strange Music na gravação da música "Run, King, Run" no LabMIS: rock eletrônico/orgânico experimental e uma colher de chá pro musicólogo aqui

Strange Music na gravação da música “Run, King, Run” no LabMIS: rock eletrônico/orgânico experimental e uma colher de chá pro musicólogo aqui

Antes de mais nada, já deixa eu me explicar: sim, a Strange Music É a banda d’O musicólogo – afinal, eu mereço uma colher de chá pro meu segundo emprego de vez em quando, né? Bom, esclarecimentos feitos, deixa eu falar sobre o vídeo da semana da vez.

Convidada pelo MIS (Museu da Imagem e do Som – São Paulo) a registrar fonograficamente uma música de sua autoria em meados de 2011, como participação no projeto LabMIS, a Strange Music (trio paulistano de rock eletrônico/orgânico experimental em atividade desde 2006) decidiu aproveitar a ocasião e tirar dali uma faixa acabada (que viria a integrar o terceiro disco da banda, Música Estranha [2011/2012] – álbum independente lançado faixa a faixa direto na web e disponível para download gratuito aqui: http://bit.ly/MusicaEstranhaFullAlbum) e uma espécie de videoclipe que relatasse o processo de produção da música.

E é isso que o vídeo da semana traz dessa vez: o registro honesto e cru de uma banda independente contemporânea em estúdio tentando dar forma a toda a sua energia criativa e sonora. Enjoy. E, mais uma vez, se gostar do som, baixe gratuitamente o Música Estranha, terceiro álbum da Strange Music lançado direto na web: é só clicar no link http://bit.ly/MusicaEstranhaFullAlbum.

E não deixe de acompanhar a banda no Facebook (http://facebook.com/musicaestranha), no Twitter (http://twitter.com/musicaestranha) e pelo site oficial (http://strangemusic.com.br).

Strange Music – Run, King, Run (Live on LabMIS) from Estúdio Bloco on Vimeo.

Arqueologia sonora – Pixies

Pixies: os mentores acidentais do assalto protagonizado pelo "rock alternativo" ao imaginário coletivo da música pop nos anos 1990

Pixies: os mentores acidentais do assalto protagonizado pelo “rock alternativo” ao imaginário coletivo da música pop nos anos 1990

Não é sem considerável pesar – na condição de musicólogo – que admito ter ignorado até muito recentemente – e quase em sua totalidade – a importância do Pixies nos autos da música pop (ou comercial) recente. Obviamente que eu já estava a par da existência da banda comandada por Black Francis ou Frank Black (compositor/guitarrista/vocalista) e já havia balançado – em inúmeros episódios de minha trajetória de “pessoa musical” – ao som das composições mais “palatáveis” da trupe que também incluía a baixista/vocalista Kim Deal, o guitarrista Joey Santiago e o baterista Dave Lovering. Mas é que foi só muito recentemente que parei pra analisar produção/contexto e reconhecer a banda norte-americana formada no final dos anos 1980 como algo maior que um clássico – ainda que competente e interessante – clichê indie anacrônico. E então fecha-se (em meu folclore pessoal, antes ou depois de mais nada) a conta registrando o Pixies como um dos mais representativos mentores acidentais da tal “revolução” do rock alternativo yankee que tomou de assalto as rádios, as paradas de sucesso, a mídia especializada (ou nem tanto) e o imaginário do público consumidor de música durante boa parte da década de 1990 na forma de movimentos improváveis (porém absolutamente compreensíveis – ainda que não tão exatamente organizados como querem fazer crer) como o grunge e na consolidação de um nicho viável de produção relativamente distanciado do que se convencionou chamar de “rock” durante e logo após os anos 1980.

Com suas construções canhestras, lógica e execuções tipicamente amadoras (e de maneira alguma procuro destacar isso como um aspecto negativo – ao contrário) e energia produtiva tipicamente desligada da engrenagem músico-corporativo de sua época, o quarteto criado em Boston (Massachusetts) acabou inspirando, graças a sua estética (resumidamente baseada na espontânea, porém fresca – para a época -, alternância de dinâmica sonora [passagens mais “calmas” e trechos mais “explosivos”]) e conteúdo (as letras quase – se não completamente – surrealistas de Francis Black) absolutamente descompromissada com a agenda do “rock corporativo” (uma tentativa inata da indústria de, desconjuntadamente, ‘cercar’ o chamado ‘rock ‘n’ roll’ em um chiqueirinho povoado por mulheres, drogas e rebeldia de snooker bar) da época, o Pixies acabou fornecendo combustível intelectual (ainda que acidental, frise-se) para bandas embrionárias – à época – como o Nirvana. Basta pesquisar um pouco pra saber que – a despeito de influências um tanto óbvias quanto Melvins e o rock setentista – foi a tentativa (confessa, segundo minha pesquisa) de emular o som do Pixies que levou Kurt Cobain (só pra ficar em um exemplo que contempla o expoente “máximo” do grunge) a criar o hino “Smells Like Teen Spirit“. Isso posto, contemplemos o Pixies como uma das pedras fundamentais da liberdade criativa que, hoje, quase 30 anos depois de seu surgimento, se consolida no espectro praticamente ilimitado de bandas fazendo o que querem fazer a partir do “ponto de largada” do “rock”.

Da estante – Bleach (1989), Nirvana

Bleach (1989): debute da banda que viria a ser a representante maior do grunge e uma das grandes responsáveis pela popularização do rock alternativo ao redor do globo

Bleach (1989): debute da banda que viria a ser a representante maior do grunge e uma das grandes responsáveis pela popularização do rock alternativo ao redor do globo

Ouvir uma banda que mudaria a história do rock dando seus primeiros passos é realmente uma experiência única. Até hoje, Bleach (1989), debute fonográfico do Nirvana, é um dos meus discos preferidos – não só da banda, mas de toda a história do rock alternativo. Gravado em Seattle ao longo de apenas alguns dias entre dezembro de 1988 e janeiro de 1989, o disco custou cerca de US$ 600,00 para ser registrado – grana emprestada pelo guitarrista Jason Everman, que em troca foi creditado no álbum, embora não tenha tocado nada. A produção ficou a cargo de Jack Endino, lendário e veterano nome da cena de Seattle.

Retrato do nascimento de uma lenda, Bleach mostra o Nirvana em sua primeira formação, com Kurt Cobain (guitarra e voz), Krist Novoselic (baixo) e Chad Channing (bateria – Dave Grohl entraria apenas na época de Nevermind [1991]). A atmosfera é crua, áspera e muito mais ancorada no heavy metal do que no soft punk polido de Nervermind. Registrado em uma moldura fria e algo tosca, o disco parece ser o retrato do que deveria mesmo ser o Nirvana, não fosse a explosão pop que a banda viria a protagonizar. A lírica pessimista, beatnic e, de certa forma, nonsense de Cobain mostram aqui as suas raízes, bem como o vocal desolado e rasgado.

No tracklist, um punhado de sons de respeito, entre eles “About a Girl” (posteriormente eternizado no MTV Unplugged in New York, 1994), o cover pesado de “Love Buzz” (da banda holandesa Shocking Blue) e pancadas como “Negative Creep”, além de construções inusitadas como “Sifting” e “Big Cheese”. Pra quem colocou o Nevermind no topo da lista de discos mais originais de todos os tempos, é audição obrigatória. Quem sabe não sobe um degrau na sua compilação de favoritos?





Vídeo da semana – Nirvana ao vivo na TV em 1990

Nirvana ao vivo: na TV em Olympia (1990)

Nirvana ao vivo: na TV em Olympia (1990)

Eis algo para os saudosistas dos anos 1990: filmagem completa do Nirvana tocando ao vivo pra um canal de TV de Olympia (Washington, EUA), cidade próxima a Seattle (berço do grunge), em 1990. O vídeo capta toda a energia da banda antes do sucesso estrondoso de Nevermind (1991). Várias músicas do Bleach (1989), debute fonográfico do trio, e algumas composições que apareceriam no Nevermind. Coisa fina. Vi no Trabalho Sujo.

Da estante – Too High to Die (1994), Meat Puppets

Too High to Die (1994): até quando penderam pro "rock de FM" os Meat Puppets conseguiram mostrar por que são uma das bandas mais originais da virada dos anos 80 para os 90

Too High to Die (1994): até quando penderam pro "rock de FM" os Meat Puppets conseguiram mostrar por que são uma das bandas mais originais da virada dos anos 80 para os 90

 Se você não conhece absolutamente nada sobre os Meat Puppets, talvez seja melhor começar lendo o verbete deles no All Music. Mas vou dar uma contextualizada, já que adoro a banda. Eles começaram no ano de 1980, no estado norte-americano do Arizona, fazendo hardcore/punk rock alternativo com levíssimas pitadas de country music. O debute homônimo do trio, formado pelos irmãos Curt (guitarra) e Cris (baixo) Kirkwood mais o baterista Derrick Bostrom (responsável também pela maioria das artes das capas dos discos da banda) e lançado em 1982, ao mesmo tempo em que casava com o momento musical daquele país, já saía bastante da forma (o que viria a ser uma marca registrada dos Puppets). Nos anos seguintes, a banda lançou os seminais Meat Puppets II (e guarde esse nome) e Up on the Sun já mostrando a cara amadurecida de seu som – uma mistura psicodélica de rock alternativo com folk, country e punk – entre outros elementos. E apesar de conquistar espaço entre os artistas mais influentes e originais do rock do final dos anos 1980 (ao lado de bandas como Husker Dü e Minutemen, por exemplo), o trio acabou ficando à margem do sucesso na indústria fonográfica e radiofônica.

Pois bem. A luta canhestra dos Puppets contra a sina do underground (declarações do baterista Derrick Bostrom dão conta de que em 1989 a banda já tinha tentado pender pro rock de arena [“Well, we’re not getting any younger”] ‘and we’re not making any money’ – eu ousaria completar – teria considerado, na época, Curt Kirkwood] até o fatídico ano de 1994. Naquele ano, morria outro ‘Kurt’ – o Cobain, do Nirvana. Coincidentemente ou não – em termos comerciais -, após a morte da estrela maior do grunge, saiu o MTV Unplugged Nirvana (em novembro), gravado no ano anterior, 1993. Como era tradição do formato, o Nirvana tinha espaço pra tocar alguns covers e chamar músico convidados ao palco do show registrado em Nova York. Muita gente esperava alguém do naipe de Eddie Vedder (do Pearl Jam) ou Chris Cornell (Soundgarden) pra uma espécie de celebração ao estilo gestado em Seattle. Porém, Cobain – um mestre voluntarioso na arte da provocação, e com influências até obscuras demais para sua legião de fãs – convocou ao tablado dois cabeludos misteriosos muito parecidos entre si. Eram os irmãos Kirkwood. E foi então que o Nirvana, em pleno recheio de seu próprio acústico, (re) apresentou os Meat Puppets ao mundo da música. Naquela noite lúgubre, a banda executou – com a ajuda dos irmãos, que assumiram temporariamente baixo e violão – TRÊS canções do álbum Meat Puppets II (1984): “Plateau”, “Oh, me” e “Lake of Fire”. Até hoje há quem pense que essas músicas SÃO DO NIRVANA. Outros tantos – incluindo o musicólogo aqui, alguns anos depois, é verdade – aproveitaram a oportunidade pra ir atrás da desconhecida dupla que tinha merecido tamanho destaque no que seria a última aparição pública relevante de Cobain – leia mais sobre a participação dos Meat Puppets no acústico Nirvana em post aqui do blog. Ah, e como valeu a pena…

Bom, mas chega de digressão. Fato é que no mesmíssimo ano de lançamento do acústico do Nirvana – 1994 (em janeiro, porém) – os Puppets (talvez tentando capitalizar a relação com Cobain – e eu não os julgaria por isso) colocaram na praça o álbum Too High to Die. Não sei se por conta da palhinha no show desplugado do Nirvana (o álbum traz uma suspeitíssima regravação de “Lake of Fire”) ou pela vocação mais pop (comparando-se com a obra da banda como um todo), o disco alcançou certo destaque na cena musical comercial dos EUA, chegando ao 62° lugar na Billboard 200, e levando disco de ouro (pela primeira vez na carreira dos Puppets) – nada mal pra uma banda que começou a carreira tomando cusparadas de plateias punk no Arizona- segundo depoimento do mesmo Derrick Bostrom. Foi também a primeira – e única? – vez em que a banda emplacou um hit de rádio, com a roqueira-melodiosa “Backwater” (ver vídeo abaixo, neste post – muito, muito boa). Porém, mesmo com isso tudo – talvez até POR ISSO TUDO -, Too High to Die ainda é bastante desprezado quando se fala de Meat Puppets. O que é uma tremenda injustiça. Obviamente, Meat Puppets II e Up on the Sun (e, pra mim, especialmente este último) são gemas que representam o ponto máximo da produção de Curt e Cris. Mas o álbum lançado em 1994 é um PUTA DISCO, que pode agradar tanto os mais enjoadinhos indies saudosos do alt-rock embrionário norte-americano quanto os rockers mais ‘guitarrófilos’.

Do começo ao fim, Too High to Die traz uma pegada pesada e envolvente, além  de um instrumental extremamente trabalhado – marca registrada dos Puppets, principalmente por conta da virtuose de Curt, um dos guitarristas mais originais de sua geração. O registro também surpreende por mostrar que os irmãos Kirkwood devem mesmo ter combinado fingir ser desafinados nos vocais em todos os discos anteriores (e confiem: os vocais nos álbuns anteriores são quase sempre pavorosos, embora não comprometam de forma alguma a experiência). Ali, Curt e Cris cantam de forma muito bem comportada (longe de performances impressionantes, claro) e “adequada” às canções (mais uma pista de um esforço “eminentemente pop”?). E ao longo de suas 13 faixas Too High to Die mostra como os Puppets ainda tinham – e têm, aguarde algumas linhas – muito a contribuir com a música alternativa. A tal mistura de rock com country, punk e psicodelia continua ali – um pouco mais pasteurizada, tenho que concordar, mas surpreendentemente vibrante e viçosa, ainda que mais de uma década depois. Definitivamente um disco pra se devorar do começo ao fim, preferencialmente em uma tarde abafada de verão subtropical, um pouco antes da  chuva cair. Uma cerveja cai bem como acompanhamento. Talvez um “cigarrinho de artista”, como dizem algumas senhoras de mais idade, para aqueles que curtem. E depois, faça me o favor, procure baixar ou comprar por aí os primeiros discos dos caras. Garanto que vão figurar entre os preferidos da prateleira dos interessados em música.

Em tempo: no final dos anos 2000 os Meat Puppets voltaram a tocar e a gravar. O último álbum deles, Lollipop (2011), vale muito a pena. Pega uma amostrinha aqui.